SEIS OU TREZE COISAS QUE APRENDI SOZINHO








1
Gravata de urubu não tem cor.
Fincando na sombra um prego ermo, ele nasce.
Luar em cima de casa exorta cachorro.
Em perna de mosca salobra as águas se cristalizam.
Besouros não ocupam asas para andar sobre fezes.
Poeta é um ente que lambe as palavras e depois se alucina.
No osso da fala dos loucos têm lírios.

3
Tem 4 teorias de árvore que eu conheço.
Primeira: que arbusto de monturo agüenta mais formiga.
Segunda: que uma planta de borra produz frutos ardentes.
Terceira: nas plantas que vingam por rachaduras lavra um poder mais lúbrico de antros.
Quarta: que há nas árvores avulsas uma assimilação maior de horizontes.

7
Uma chuva é íntima
Se o homem a vê de uma parede umedecida de moscas;
Se aparecem besouros nas folhagens;
Se as lagartixas se fixam nos espelhos;
Se as cigarras se perdem de amor pelas árvores;
E o escuro se umedeça em nosso corpo.

9
Em passar sua vagínula sobre as pobres coisas do chão, a
lesma deixa risquinhos líquidos...
A lesma influi muito em meu desejo de gosmar sobre as
palavras
Neste coito com letras!
Na áspera secura de uma pedra a lesma esfrega-se
Na avidez de deserto que é a vida de uma pedra a lesma
escorre. . .
Ela fode a pedra.
Ela precisa desse deserto para viver.

11
Que a palavra parede não seja símbolo
de obstáculos à liberdade
nem de desejos reprimidos
nem de proibições na infância,
etc. (essas coisas que acham os
reveladores de arcanos mentais)
Não.
Parede que me seduz é de tijolo, adobe
preposto ao abdomen de uma casa.
Eu tenho um gosto rasteiro de
ir por reentrâncias
baixar em rachaduras de paredes
por frinchas, por gretas - com lascívia de hera.
Sobre o tijolo ser um lábio cego.
Tal um verme que iluminasse.

12
Seu França não presta pra nada -
Só pra tocar violão.
De beber água no chapéu as formigas já sabem quem ele é.
Não presta pra nada.
Mesmo que dizer:
- Povo que gosta de resto de sopa é mosca.
Disse que precisa de não ser ninguém toda vida.
De ser o nada desenvolvido.
E disse que o artista tem origem nesse ato suicida.

13
Lugar em que há decadência.
Em que as casas começam a morrer e são habitadas por
morcegos.
Em que os capins lhes entram, aos homens, casas portas
a dentro.
Em que os capins lhes subam pernas acima, seres a
dentro.
Luares encontrarão só pedras mendigos cachorros.
Terrenos sitiados pelo abandono, apropriados à indigência.
Onde os homens terão a força da indigência.
E as ruínas darão frutos











MANOEL DE BARROS

Arte: Tom Colbie

Romance Rasgado - Altas Doses

MAPA




Me colaram no tempo, me puseramuma alma viva e um corpo desconjuntado. Estoulimitado ao norte pelos sentidos, ao sul pelo medo,a leste pelo Apóstolo São Paulo, a oeste pela minha educação.
Me vejo numa nebulosa, rodando, sou um fluido,depois chego à consciência da terra, ando como os outros,me pregam numa cruz, numa única vida.Colégio. Indignado, me chamam pelo número, detesto a hierarquia.
Me puseram o rótulo de homem, vou rindo, vou andando, aos solavancos.Danço. Rio e choro, estou aqui, estou ali, desarticulado,gosto de todos, não gosto de ninguém, batalho com os espíritos do ar,alguém da terra me faz sinais, não sei mais o que é o bemnem o mal.
Minha cabeça voou acima da baía, estou suspenso, angustiado, no éter,tonto de vidas, de cheiros, de movimentos, de pensamentos,não acredito em nenhuma técnica.
Estou com os meus antepassados, me balanço em arenas espanholas,é por isso que saio às vezes pra rua combatendo personagens imaginários,depois estou com os meus tios doidos, às gargalhadas,na fazenda do interior, olhando os girassóis do jardim.
Estou no outro lado do mundo, daqui a cem anos, levantando populações…Me desespero porque não posso estar presente a todos os atos da vida.
Onde esconder minha cara? O mundo samba na minha cabeça.Triângulos, estrelas, noites, mulheres andando,presságios brotando no ar, diversos pesos e movimentos me chamam a atenção,o mundo vai mudar a cara,a morte revelará o sentido verdadeiro das coisas. Andarei no ar.
Estarei em todos os nascimentos e em todas as agonias,me aninharei nos recantos do corpo da noiva,na cabeça dos artistas doentes, dos revolucionários.
Tudo transparecerá:vulcões de ódio, explosões de amor, outras caras aparecerão na terra,o vento que vem da eternidade suspenderá os passos,dançarei na luz dos relâmpagos, beijarei sete mulheres,vibrarei nos cangerês do mar, abraçarei as almas no ar,me insinuarei nos quatro cantos do mundo.
Almas desesperadas eu vos amo. Almas insatisfeitas, ardentes.Detesto os que se tapeiam,os que brincam de cabra-cega com a vida, os homens “práticos”…Viva São Francisco e vários suicidas e amantes suicidas,os soldados que perderam a batalha, as mães bem mães,as fêmeas bem fêmeas, os doidos bem doidos.Vivam os transfigurados, ou porque eram perfeitos ou porque jejuavam muito…viva eu, que inauguro no mundo o estado de bagunça transcendente.
Sou a presa do homem que fui há vinte anos passados,dos amores raros que tive,vida de planos ardentes, desertos vibrando sob os dedos do amor,tudo é ritmo do cérebro do poeta. Não me inscrevo em nenhuma teoria,estou no ar,na alma dos criminosos, dos amantes desesperados,no meu quarto modesto da praia de Botafogo,no pensamento dos homens que movem o mundo,nem triste nem alegre, chama com dois olhos andando,sempre
em transformação.







POEMA: MURILO MENDES

ARTE: TOM COLBIE

THE LONG STREET



A longa rua
que é a rua do mundo
passa pelo mundo
cheio de todas as pessoas do mundo
para não mencionar todas as vozes
de todas as pessoas
que já existiram
Quem ama e quem chora
virgens e travessas
Vendedores de espaguete e homens-sanduíche
leiteiros e oradores
banqueiros desossados
donas de casa zelosas
envoltas em esnobices de nylon
desertos de publicitários
manadas de secundaristas fogosas
multidões de colegiais
falando pelos cotovelos do mundo
e andando por aí
pendurando-se nas janelas
para ver o que está acontecendo
no mundo
onde tudo acontece
cedo ou tarde
se é que acontece mesmo
E a longa rua
que é a rua mais longa
em todo o mundo
mas que não é tão longa
como parece
passa
através de todas as cidades e todas as cenas
em cada beco
em cada boulevard
através de cada encruzilhada
através de luzes vermelhas e luzes verdes
cidades ao sol
continentes na chuva
Hong Kongs famintas
Tuscaloosas incapazes
Oaklands da alma
Dublands da imaginação
E a longa rua
rola em torno
como um  enorme trem que apita
ofegando ao redor do mundo
com seus passageiros feridos
e bebês e cestas de piquenique
e gatos e cachorros
e todos eles estão se perguntando
quem está
no cabine à frente
pilotando o trem
se é que há alguém
o trem que corre ao redor do mundo
como um mundo que gira
todos se perguntando
o que está acontecendo
se há alguma coisa
e alguns deles se inclinando
e olhando para frente
e tentando pegar
um olhar do maquinista
em sua a cabine de um olho só
tentando vê-lo
vislumbrar sua face
para chamar a atenção
enquanto giram em torno de uma curva
mas eles nunca conseguem
embora de vez em quando
Parece que
eles estão conseguindo
E a rua passa a jogar boliche
com as janelas atingindo
as janelas de todos os edifícios
de todas as ruas do mundo
através da luz do mundo
pela noite do mundo
com sinais nos cruzamentos
Luzes perdidas piscando
multidões em carnavais
circos a boca da noite
Puteiros e parlamentos
fontes esquecidas
portas de adega e portas sem recursos
figuras na luz da lâmpada
Ídolos pálidos dançando
à medida que o mundo vai
Mas agora nós chegamos
à parte mais solitária da rua
Isso acontece
a parte solitária do mundo
E este não é o lugar
que você vai mudar de trem
para o Brighton Beach Express
Este não é o lugar
que você faz qualquer coisa
Esta é a parte do mundo
onde nada está acontecendo
onde ninguém está fazendo
qualquer coisa
onde ninguém está em qualquer lugar
ninguém ao lado
exceto você
nem mesmo um espelho
para fazer você em dois
nenhuma alma
a não ser a sua
talvez
e mesmo assim
não está lá
talvez
ou então não é a sua
talvez
porque você é o que se chama
morto
você alcançou sua estação

Desce!

__________________________________



which is the street of the world
passes around the world
filled with all the people of the world
not to mention all the voices
of all the people
that ever existed
Lovers and weepers
virgins and sleepers
spaghetti salesmen and sandwichmen
milkmen and orators
boneless bankers
brittle housewives
sheathed in nylon snobberies
deserts of advertising men
herds of high school fillies
crowds of collegians
all talking and talking
and walking around
or hanging out windows
to see what’s doing
out in the world
where everything happens
sooner or later
if it happens at all
And the long street
which is the longest street
in all the world
but which isn’t as long
as it seems
passes on
thru all the cities and all the scenes
down every alley
up every boulevard
thru every crossroads
thru red lights and green lights
cities in sunlight
continents in rain
hungry Hong Kongs
untillable Tuscaloosas
Oaklands of the soul
Dublands of the imagination
And the long street
rolls on around
like an enormous choochoo train
chugging around the world
with its bawling passengers
and babies and picnic baskets
and cats and dogs
and all of them wondering
just who is up
in the cab ahead
driving the train
if anybody
the train which runs around the world
like a world going round
all of them wondering
just what is up
if anything
and some of them leaning out
and peering ahead
and trying to catch
a look at the driver
in his one-eye cab
trying to see him
to glimpse his fave
to catch his eye
as they whirl around a bend
but they never do
although once in a while
it looks as if
they’re going to
And the street goes bowling on
with its windows reaching up
its windows the windows
of all the buildings
in all the streets of the world
bowling along
thru the light of the world
thru the night of the world
with lanterns at crossings
lost lights flashing
crowds at carnivals
nightwood circuses
whorehouses and parliaments
forgotten fountains
cellar doors and unfound doors
figures in lamplight
pale idols dancing
as the world rocks on
But now we come
to the lonely part of the street
that goes around
the lonely part of the world
And this is not the place
that you change trains
for the Brighton Beach Express
This is not the place
that you do anything
This is the part of the world
where nothing’s doing
where no one’s doing
anything
where nobody’s anywhere
nobody nowhere
except yourself
not even a mirror
to make you two
not a soul
except your own
maybe
and even that
not there
maybe
or not yours
maybe
because you’re what’s called
dead
you’ve reached your station.
Descend


LAWRENCE FERLINGHETTI
Tradução: M. Chalvinski
The Long Street, A Coney Island of the Mind
Art Tom Colbie

ÚLTIMA PÉTALA





úmida
saudade cáustica
abriu translúcida
vertiginosa túnica
de cristal gelo

última pétala
da paixão infinda
urdida de fiar-se única
fiou no inverno
os cabelos 
ainda
engendrou-se
lótus pútrida
no escuro lamaçal
do impuro  desespero

dragão de lágrimas
papoulas
frieza pétrea que voa
deixa que eu fuja
de teu esperto riso
com minhas asas
de absinto & desmantelo

ferida íntima
de tristeza estúpida
cicatriza
ao álcool farto
que eu bebo à-toa

detém teu furor incerto
teu flagelo
na boca
de teu incerto riso

teu céu arrizo
oculta
falsas lantejoulas
&
sólido granizo

águia de cosméticos
cifrões
foge à minha flecha
de veneno
brio

 que te espera
guilhotina insana
do esquecimento
com todas as lâminas
para teu espírito de hydra

é o teu
&
não o meu sangue
que vazará

da clepsidra




MARCELLO CHALVINSKI
[TEMPORAL- BRANCALEONE - 2005]

O ESPÍRITO DE OCTUS




“O lombo é um pouco roxo. E tudo larga um cheiro
Estranhamente horrível. Coisas singulares
Requerem que uma lente ajude ao olho nu...”


Arthur Rimbaud

           


            Por todo País, contam-se inúmeras histórias sobre o revolucionário Policarpo. Comprovar a veracidade dessas narrativas não é, contudo, tarefa fácil. Nas rodas de dominó, nos botequins e, principalmente, entre os mais idosos, há sempre alguém com uma versão diferente para o mesmo fato. Trata-se, portanto, de acreditar, ou não, no que se diz.
Joey Schatten, no seu polêmico “Diário da Revolução”, traçou um retrato do período mais obscuro da vida de Policarpo. A obra, muito contestada, acabou por render as mais variadas versões e causos populares. O mais aceito deles, talvez seja o que nasceu na Região de Orabutã. Segundo ouvi, o herói, muito jovem ainda, teria sido preso por divulgar panfletos considerados subversivos. As sevícias e as humilhações a ele infligidas, em decorrência disso, forjaram o motor de sua revolta contra o Estado.
Conta-se que o jovem Policarpo era um rapazola franzino e idealista. Os panfletos, elaborados por ele mesmo, professavam idéias mutualistas, que não se alinhavam com nenhum partido da época. Rebeldia juvenil, ingenuidade ou predestinação, o fato é que Policarpo foi levado aos porões do 8º Batalhão, onde sofreu toda sorte de torturas. Porém, nada tendo a confessar além de seu pensamento anarquista, com o tempo passou dos suplícios ao trabalho forçado. Limpava latrinas, podava árvores, engraxava botas e ainda era obrigado a alimentar aquele que seria, tempos depois, o símbolo maior do Regime: o porco Octus.
            Sem nada que o diferenciasse dos de sua raça, Octus tornou-se ídolo das forças policiais, num golpe do acaso. O fato se deu durante uma solenidade que reuniu vários oficiais e um grande contingente de homens. No auge das celebrações, um telefonema trouxe a ameaça de bomba. Policiais do esquadrão especial, presentes ao evento, vasculharam todo o quartel, mas só conseguiram localizar o artefato quando o contador indicava 45 segundos para a explosão.
A evacuação, que se processava com disciplina militar, tornou-se então uma louca correria. Naquele instante, porém, surgiu um enorme suíno, tão alvoroçado e faminto, que literalmente comeu a bomba. De fato, a mordida do animal foi tão certeira que partiu os fios na seqüência exata, desarmando o detonador.
Um tenente, de nome Otávio Carrera, aproximou-se cautelosamente e constatou, pela parte que sobrara, que o mecanismo fora desligado a oito segundos da explosão. Foi dele a idéia de adotar o porco como mascote e de batizá-lo com o nome de Octus. A vida do animal mudaria radicalmente após este episódio. A TV Estatal passou a bombardear a população com inúmeras matérias que o definiam como um verdadeiro símbolo de heroísmo. O 8º Batalhão abriu concurso e elegeu um novo brasão de armas, com a figura do suíno em destaque. Octus estava famoso. Sua figura cartunizada freqüentava todos os jornais e revistas pró-Regime, gerando uma onda de sucessos romanescos, que serviu como luva para afastar a população das discussões sobre os impostos e a intolerância do Regime. Porém, em pouco tempo, uma série de confrontos e chacinas no campo poria por terra o fútil patriotismo pré-fabricado e levaria ao ostracismo o herói-suíno.
Nada de câmeras, nem clarões repentinos. Nada de visitas estudantis, nada de medalhas. A fama do chancho desapareceu tão veloz quanto a glória do mundo. Ele, que se acostumara a passear, fertilizando livremente os gramados do quartel sob a mira das objetivas, passou a condição bem menos satisfatória. Agrilhoado, era mantido sobre uma laje semelhante a um pedestal, de onde nunca saía.
A pontapés e coronhadas, Policarpo cumpria a missão de mantê-lo alimentado e limpo. De tudo que era obrigado a fazer, cuidar do suíno era o que mais lhe repugnava. Sua aversão não residia na natureza do animal, mas no que ele representava. Para aumentar seu infortúnio, um sargento conhecido como Zóião, percebendo o terrível asco que sentia em relação ao artiodátilo não ruminante, tramou contra ele uma cruel humilhação. Diante de quase todo batalhão, num fim de tarde chuvoso, obrigou-o a alimentar-se junto com bicho. Ao final do espetáculo vergonhoso, que protagonizou sob ameaça de armas, Policarpo disse ao sargento: “Eu posso comer ração, mas são vocês os verdadeiros porcos”. Por conta disso, apanhou muito e passou quatro dias confinado na solitária.
Enquanto a mente atormentada de Policarpo se digladiava com a loucura, por trás dos olhos negros e arredondados, o pequeno cérebro de Octus mergulhava em lembranças descoloridas, para fugir à amargura da vida atada a ferros. Recordava as tetas quentes em que mamava e até podia sentir a lama dos manguezais e odor dos lixeiros onde fuçava por alimento, junto aos urubus. Era nessas lembranças que encontrava forças para se manter vivo. Seu sono conturbado, na contramão de suas recordações, constituía-se numa fábrica de horrores. Revia impotente a cruel morte da mãe, espancada e sangrada entre grunhidos altíssimos. Corria em meio a cães ferozes que o mutilavam a poderosas dentadas e não raro acordava com a sensação de sentir o cheiro de sua própria carne queimada.
            Ao despertar de tais pesadelos, Octus rolava nos restos de comida e nas próprias fezes, até adquirir uma coloração escura. Feito isso, mantinha-se de tal forma parado que, quem o avistasse de longe, imaginaria estar vendo uma estátua, acorrentada ao seu pedestal.
De fato, grande era a dor de seu padecimento. Seu corpo animal ferido pelos grilhões e sua mente suína cheia de lembranças impulsionavam seu espírito de porco a desejar o fim de tudo. O que mais o irritava, porém, era o contato com Policarpo, principalmente após a pena na solitária. Não gostava do seu cheiro e odiava o tratamento que ele lhe dispensava. Tentou mordê-lo várias vezes, algumas com relativo sucesso, mas nada era suficiente para aplacar sua ira.
Foram meses de aflição sobre a laje, até que Policarpo deixou de aparecer. Um soldado, cujo rosto era parcialmente coberto de sinais escuros e rugosos, foi incumbido de ser o novo tratador. Octus animou-se tanto que, como conseqüência, desatou a comer e engordar literalmente como um porco. Deu de sujar-se menos e logo tornou-se rosado ao extremo. Os pesadelos diminuíram em freqüência e intensidade e seus dias e noites estavam cada vez melhores.
            Nessa época, a formação de uma nova guerrilha revolucionária chamada Movimento colocava em risco a ditadura do Comitê. Estrategistas do Regime, numa manobra maquiavélica, planejaram e executaram um atentado contra a escola pública da capital, atribuindo culpa à guerrilha recém-formada. Dezenas de crianças morreram e centenas ficaram feridas na explosão. Incentivados pela imprensa, milhares de cidadãos foram às ruas em protesto contra os atos terroristas. Bandeiras e camisetas com a figura do porco estampada foram estrategicamente distribuídas pelo Departamento de Propaganda. A “Era Octus” estava às portas do apogeu.
            Com o passar dos anos, os ativistas políticos contrários ao Regime foram presos, deportados, exilados ou simplesmente mortos. Porém, o Movimento prosseguiu em sabotagens e ataques cada vez mais ousados, tendo como alvo principal os chefes das milícias repressoras e os membros do Comitê. O 8º Batalhão foi transformado em D.A.P.U. e entregue a um comando especial, com o objetivo maior de combater a guerrilha de Policarpo.
            Entre os membros dirigentes do D.A.P.U. estava a temida Olga Wurtz, conhecida por ter preparado para o Regime um requintado manual de torturas. Olga e sua equipe tinham verdadeira adoração por Octus e se redobravam em cuidados para com o suíno. Era sabido que todo final de tarde eles se reuniam em torno do porco para acariciá-lo e atirar-lhe sobras de pizza. Octus não se fazia de rogado e devorava rapidamente o que lhe ofereciam. Sentia um grande calor no peito e em seus órgãos genitais quando era tocado por Olga Wurtz. Seus olhos ficavam repentinamente úmidos e incrivelmente brilhantes quando isso acontecia.
            Numa manhã de quinta-feira, Olga ordenou que Octus fosse levado para um galpão nos fundos do D.A.P.U., afim de que fosse banhado, escovado e tratado por veterinários especializados. O objetivo, explicou ela, era uma sessão de fotos para imortalizar o herói-suíno. Porém, quando o bicho já estava devidamente preparado, Olga fez com que todos se retirassem e ficou a sós com o rechonchudo animal. Certificando-se de que ele estava bem preso e de que ninguém a poderia observar, Olga tirou sob o vestido sua larga calcinha e esfregou-a nas ventas do bicho.
A sensação de Octus foi de extremo agrado ao aspirar o forte cheiro que manava da peça gigantesca. Lembrou-se de sensações olfativas antigas, experimentadas nos lixões onde costumava fuçar e emitiu uns grunhidos gentis, demasiado baixos para serem ouvidos fora do galpão. Olga, intuindo a satisfação do animal, tratou de apalpá-lo no pênis, com movimentos lentos e fortes. Excitava-se muito fazendo isso. Quanto mais seus dedos masturbavam o porco, mais sentia a vagina umedecer. O porco grunhia baixinho e ela sentia o muco escorrendo pelas coxas. Num gesto incontido, colocou-se por baixo do animal e, com sofreguidão, pôs-se a sugar o membro enrijecido, masturbando-se violentamente até o orgasmo.
Após recompor-se, partiu com o bicho solto, para o esperado ensaio fotográfico, o qual fez questão de acompanhar em cada detalhe. O fotógrafo encarregado do serviço, Alfredo Potato, tentava manter uma postura profissional, mas aborrecia-se demasiadamente, com as excessivas recomendações de Olga.
Ao final da longa sessão de fotos, Octus foi novamente levado para o seu pedestal e acorrentado sem mais delongas. Olga Wurtz, por seu turno, suspendeu os trabalhos e foi para casa suspirando de felicidade. A liberação dos desejos e os secretos prazeres gozados com o suíno eram motivos de comemoração. Sozinha, em seu gigantesco apartamento, abriu uma garrafa de licor de fruta e deitou-se ao centro do grande tapete da sala. Entre um gole e outro, lembrava do contato com o porco, comparando as recentes emoções vividas com o que sentiu quando pela primeira vez foi possuída.
Rolando de lá para cá, ora buscava o cheiro untuoso de Octus em seu corpo, ora relembrava o odor nauseabundo do banheiro onde fora violentada. Do estuprador não lembrava o cheiro. Podia, contudo, lembrar-se de seu tipo alto e recurvado, com o topo da cabeça careca e, no resto, compridos cabelos, tão brancos quanto sua barba. Lembrava também que o que houve foi uma dolorosa penetração anal, como todas as outras que pode experimentar em sua deprimente vida sexual, pois, apesar de contar quase sessenta anos, ainda sonhava encontrar aquele que a desvirginaria, com o nobre intuito de tomá-la em casamento, pondo fim à sua maldição.
            Ainda àquela noite, elegantemente vestida e discretamente bêbada, Olga Wurtz pronunciaria um de seus mais famosos discursos: Pátria, governo e as hostes da moralidade. Meses depois, convertido em livro, esse manifesto pró-Regime tornou-se notícia em todo país. O fato se deu, principalmente, porque na noite de lançamento, Octus foi mandado pelos ares por uma bomba acionada à distância.
Olga Wurtz, sob impacto emocional, sofreu violento ataque cardíaco e por pouco não morreu. Tudo havia acontecido debaixo de seu nariz. Enquanto ela autografava pomposamente dezenas de exemplares de seu opúsculo, Policarpo furava o pesado esquema de segurança e plantava, em pleno D.A.P.U., o explosivo que rasgaria o porco em centenas de pedaços.
            Um vulto negro, um objeto colorido, uma explosão. Esse foi o fim de Octus. Seu espírito animal se projetou no espaço através de nebulosas e quasares até atingir um ponto indefinido, que aos poucos foi se tornando um novo mundo, incrível, oleoso e maravilhosamente suíno. Um paraíso babélico cheio de lama, fezes e grunhidos felizes, onde os urubus celebravam o lixo e o caos. Uma espécie de céu dos porcos.
Octus tinha, agora, todos os seus desejos magicamente realizados. Sonhava intensamente e sentia, em sua alma de porco, os dedos firmes e a boca calorosa de Olga Wurtz, sempre que queria. E queria muito, a toda hora. Talvez porque os porcos carreguem fortes lembranças ou quem sabe algo de paixão em seus gordurosos espíritos.




Excerto de "O PLANO" - Marcello Chalvinski - Prêmio Gonçalves Dias de Literatura - 2007 / Arte: M. Chalvinski

SAUDADES BÁRBARAS








eu guardo até hoje essa doce lembrança que você deixou
ouço tua voz no álbum da memória que você gravou
no palco da esperança, o sonho baila numa dança
os passos tristes que tão torpe destino coreografou

essas lágrimas tão sofridas que agora brilham nos meus olhos
refletem a dor dessa saudade, pois ainda quero o teu amor
eu bem sei que já é tarde, mas meu coração feito em pedaços
canta a canção dos teus abraços, vivendo um show que se acabou

dói-me saber ao fim que o fim roubou de mim toda alegria
do romance mais feliz, a solidão é tudo que restou
vejo o teu sorriso noite e dia no espelho da poesia
sob a luz da fantasia, sol voraz que o tempo congelou

a lua que reluz em meu terraço ilumina meu cansaço
e deixa claro teu descaso que em abandono me deixou
eu uso de toda a minha coragem pra preencher esse espaço
frio e malfadado que no fundo do meu peito se criou

de bar em bar eu bailo e bebo aos vis acordes da tristeza
de dose em dose mais uísque, outra cerveja, e um cigarro a arder
queimando a toalha sobre a mesa, como queima essa certeza
de ter agido errado, mesmo assim eu não quero te perder

& hoje, enquanto escrevo esse poema, navegando na má sorte
vida ou morte é o meu dilema, sofro mais do que imaginas
sem você meu mar já não tem norte por favor me abraça forte
na deriva das esquinas, não tenho versos, estou sem rimas





POEMA: MARCELLO CHALVINSKI
ARTE: TOM COLBIE

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Tira-gosto

Um Poema ao Acaso

Porre de poesia

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