BABY VESTAL







do alto da torre
em chamas
minha amada
chama por mim


a dor é espessa
mas todos os segredos
estão sob minha capa


com a alma envolta
em denso outono
cerro nos dentes
o inverno que aflora


& minha amada
protegendo meu sonho
desfaz as tranças
& sonha
à minha espera



Poema: Marcello Chalvinski

Arte: Tom Colbie

RIMA PETROSA I




(Série Influências)



uma bruteza
límpida
que em nada se detém

uma crueza
lâmina
que se apaga em ninguém

uma lindeza
nítida
que a si mesma sustém

uma ingênua fereza
feita só de desdém

uma dura candura
que nem loba que nem

uma beleza absurda
sem porquê nem porém

um negar-se tão rente
que soa um shamisen

uma causa perdida
um não vem que não tem





HAROLDO DE CAMPOS

CÂNTICO NEGRO




(Da Série Influências)


"Vem por aqui" — dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...
A minha glória é esta:
Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?

Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...

Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!







José Régio

.


DON JUAN NOS INFERNOS








(Da série Influências)



Quando ao mundo da treva desceu Don Juan,
Assim que a Caronte o óbolo pagou,
Um mendigo sombrio, mirada malsã
E braço vingador, cada remo tomou.

Com as roupas abertas e os seios de fora,
Um bando de mulheres, na negra manhã,
Rebanho sensual que matadouro implora,
Mugia atrás do herói num lânguido cancã.

Leporelo, a zombar, o salário cobrava.
O velho Don Luís, totalmente tantã,
Apontava a um morto, que ali passava,
O filho que jogou na lama o seu clã.

Histérica de dor, a casta e magra Elvira,
Ao marido traidor que era o seu afã,
Suplicava um último olhar sem mentira,
Um sorriso com a velha pose de galã.

O gigante de pedra, visão imponente,
Assomava à proa tal Leviatã,
Mas o calmo herói, a tudo indiferente,
Olhava sem temor o reino de Satã.










Charles Baudelaire

.

TORPES TORRENTES



            Mas quem diabos é Marcello Chalvinski, autor deste aguaceiro todo? O publicitário premiado? O flaneur desnaturado? O flanelinha das flores de vidro? O trânsfuga da Akademia dos PáriasAté onde sei, Vossa Marceleza é tudo isso, porque é no fundo da alma  um brancaleônico cavaleiro apaixonado pelas palavras. Foi essa fissura incondicional que me aproximou dele quando o conheci sei quanto tempo atrás, numa época em que todos nos candidatávamos a mártires e, na fogueira onde ardíamos, aprendíamos um bocado sobre a vida e a morte. E olha que naquele tempo Marcello fazia pose de sobrevivente.  
            Tempo vai, como o altar do sacrifício não nos quis, descolamos um lugarzinho entre os vivos, suando no calor dos caixas eletrônicos, mas também vendo a lua cheia e o sol se pôr e, acima de tudo, escrevendo poesia, a sublime promessa que nos fizemos naqueles anos intensos de luz e cegueira.  Marcello, um sobrevivente profissional, disse a que veioalguns anos, com Anjo na Fauna. Agora vem ao que disse com Temporal, livro de umidade, ferrugem e maresia, onde cada fragmento luminoso tem que ser raspado pelo olho atento do voyeur até que se revele a crosta de seu cristal. Afinal, um pirata não entrega assim tão fácil seu tesouro, principalmente quando ele resulta de uma pilhagem sistematicamente praticada desde os tempos homéricos.
            Portanto, leitor, poupo-me o trabalho de recomendar cuidado. Esqueça cartas náuticas, escaleres e as recomendações dos sábios de El Rey. O único jeito de se assenhorear desse butim e se deixar levar/lavar por esse temporal que, aliás, é uma enxurrada atemporal que vem jorrando desde que o tempo é poesia. O que Marcello faz é exercitar seu legítimo direito de entrar na corrente. E tentar nos arrastar com ele.





Fernando Abreu







.

PURO MEL





porque te amo,
o modo como você se move
é tigre, fim de tarde, arrebol

porque te amo,
o modo como você sorri,
mesmo quando chove, faz sol

porque te amo,
o modo como você olha perfuma,
afeta, arde, tinge

porque te amo,
o modo como você fala
incendeia, colore, atinge

porque te amo,

o modo como você cala
é imponência, majestade, esfinge

porque te amo, é tudo mel.
Puro prazer.








Marcello Chalvinski


ANTÔNIO CARLOS ALVIM: QUE TAL ESSA?



Neste momento histórico em que ouvimos tanto falar de um Papa "pop", Marcello Chalvinski abre seu novo escrito citando o livro bíblico não-apócrifo "Gênesis 7:19". Pura coincidência.
Para os mais cristãos (católicos apostólicos romanos) poucos escritos na literatura maranhense são tão recheados de relações humanas cheias de vícios e pecados quanto os seus, embora neste livro esteja mais comportado que no anterior.
A poesia que abre o Temporal nos faz lembrar de João Cabral de Mello Neto, ou melhor, inspira-se no poema "Lições da Pedra" do autor pernambucano.
                 Encontramos neste livro pérolas como

                 "Cerquei com palavras
                 (atrevido)
                 um pedaço da tempestade
                 na verdade
                 de um tamanho sofrido"


No entanto, a cosmogonia poética de Marcello Chalvinski gravita em torno do "moderno" (...atravessou o mar de Kara/ &/ era pacífico/ índico/ blues...) tateando o almejado "eterno" (...o perfume da rosa-dos-ventos/ libertando-se de todos os mapas...). E que estamos falando de lições, não esqueçamos o lecionado pelo "poeta maior":
                  
                  "Cansei de ser moderno
                  Quero é ser eterno."

                                     (Carlos Drummond de Andarade)



                                                               São Luís-Ma, 11 de maio de 2005.

                                                                               Antônio Carlos Alvim   

  Que tal essa?:
                
                "Marcello Chalvinski é o último grande poeta underground da literatura maranhense."

                                             Antônio Carlos Alvim



FUGA DE MURGHAB





no vão
dos meus pensamentos erráticos
prefiro desenhar o tempo
não como o traçam os gramáticos
mas como se movem etéreos
os aéreos cabelos teus

quero aqui esboçar cogumelos
meus cogumelos temporais
psilocybes aéreos
feitos de alucinações verbais
minhas loucas paixões etílicas
na química dos vendavais

matizarei palavras em flor
para compor uma aromática
imagem do tempo

não será a representação do léxico
&
ainda que preferisse
a abstração do músico
estamparei no espaço da fala
um único holograma fonético:
a minha fotografia falada
do tempo!
com  ataúdes autófagos
bebêssarcófagos
com discos
guitarras
crônons
macunaíma
raios
risos
cimitarras

direi também que não existo
poema além
da mágica imagética

tenho horror à dialética
em meu dessiso
encaro as mandíbulas
da fera apoplética

desistir? não desisto.

com as tintas-lâminas
da incerteza
& pincéis imantados
de física quântica
hei de expressar a temporalidade
& a eterna ânsia
de vencer com palavras
o monstro destruidor de coisas

engendro assim
o cavaleiro pária
urubu-rei das araucárias
asa ruidosa que projeta a noite
sobre a vaidosa tribo imortal

para prever o firmamento?
meteorologia atemporal
com arbustos esquecidos
bicicletas roubadas aos amigos
romperei os grilhões
que ainda me impedem
os vôos acrobáticos
sobre os nimbos

corre em mim o fino prazer
dos desafios

serei contudo gentil
em recusar o que for fácil

nãonada a temer!

se é tempo de chuva
basta ouvir os cogumelos
se é tempo de estio
papagaios amarelos

sob o tempo
de friedmann
colher estrelas meninas
manhãs-maçãs
uvas-messalinas

psicotrópicos
& pégasos
de orvalho entrópico
sobre as crinas
elos
dialelos
& divinas musas
de seios belos

nãonada a temer!
(repetirei em verso tátil)

por amor a ti
empunharei o contratempo
minha afiada espada umbrátil

nãonada a temer!
nem morte
nem surpresa

toda essa aspereza
do momento
após momento
é uma noção sem sustento

de mãos dadas
minha linda
vamos nos lançar ao vento

nãonada a temer!
os relógios
não fazem tic-tac
os sinos não dobram
os demônios não tentam

nãonada a temer!
vamos meu amor atento
basta prender o ar

vamos de mãos dadas
nos lançar ao vento






Poema: Marcello Chalvinski
Arte: Tom Colbie

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Tira-gosto

Um Poema ao Acaso

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