CARTA AO POETA PASTORI







amigo,
meu coração se apertou descompassado

estive triste colhendo ocasos

aquelas borboletas na janela
aprisionaram crisálidas sem tempo
& invadiu o meu sótão
uma miríade de ratos

meu coração apertado
tingido de paixões
bombeou aos vis pulmões
o sangue quentenacarado

tornei-me refém de tubarões
no oceano do inimaginado

mas

antes que o último coqueiro
tombe sobre o último poema
caminharemos abraçados
de panaquatira à piatã

frustraremos automóveis dissonantes
incendiaremos bancas de revista
& mijaremos na fogueira
de todas as vaidades

estive triste colhendo ocasos

mas o acaso quis
que dentro do poema
houvesse ânimo
amizadegasolina

era outubro ou nada

beijei minha baby vestal
& lancei mão
de minha escopeta de idéias

disparei inclemente
contra os demônios
que infeccionavam minhas manhãs
&
cheio de manhas
derrotei meus torpes algozes

foi bom
que ao menos em carta
tenhas vindo
és cantante
& é doce estar contigo

amigo
meu coração se apertou descompassado

mas os dias
nem sempre começam
tão bem quanto terminam









Poema: Marcello Chalvinski 
Arte: Tom Colbie

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Tira-gosto

Um Poema ao Acaso

Porre de poesia

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