O MANUAL DA ALMA FEMININA*




ZETH – MANUAL DA ALMA FEMININA
Organização Joey Schatten



“Há um espelho que me viu pela última vez,
Há uma porta que fechei até o fim do mundo.
Entre os livros da minha biblioteca (estou vendo-os)
Há algum que já nunca abrirei. “

Jorge Luis Borges




Prelúdio




            Depois da morte do Supremo, houve o grande êxodo dos anjos, quando as regiões celestiais se tornaram sete. Bruxos, profetas e padres dividiram a terra em milhares de religiões. Mil religiões buscavam a primeira potestade, cultuando o Vazio por acreditar na ressurreição do Supremo. Outras mil cultuavam a Plenitude e buscavam a harmonia com o Contrário. De resto, cada região disputava almas apenas para obter capital político e cumprir o jogo das profecias.
Sobre a terra, os homens foram submetidos a experiências sem igual. Como parte de um jogo mórbido onde não há regras, diversas almas foram experimentadas por anjos obsessivos. Sem a existência do Supremo, as faltas e os pecados não podiam mais ser estabelecidos com precisão e até mesmo os mais fiéis agiam como quem canta uma música sem conhecer-lhe a letra.
Desespero, ambição, prazer e obsessão perseguiram várias almas antes livres de tentações. Demônios e anjos moviam com dedos etéreos seus títeres sombrios, soldados da sorte insondável. No meio de toda turbulência, entretanto, sempre haveria alguém a quem o Destino iria permitir eternamente o reinício do jogo.
Bem ou mal, sorte ou azar, vida ou morte, paraísos ou infernos pareciam não dizer muita coisa a estes jogadores sem deus. No seio lascivo da boêmia, entretanto, um deles surpreenderia o próprio destino confundindo anjos e demônios indiferentemente. Seu nome era Kadmon.




I



                        Kadmon era um espírito da noite. Incendiário e apaixonado, ardia numa fome bandida pelo êxtase da conquista. Loção de barba, baba e poesia engendravam seus gestos e batimentos cardíacos. Ele mesmo nunca soube quando, nem de que modo. Mas o fato é que adquirira forte obsessão pelos íntimos mistérios da alma feminina. Lobo das estepes urbanas era, por assim dizer, um caçador solitário que surgia da névoa do nada para sangrar suas presas mais ou menos indefesas e falsas.
            Seus sentidos freqüentavam paraísos artificiais, em viagens cada vez mais intensas na ida e mais fatigantes na volta. Bar em bar, esbórnia em esbórnia, mantinha-se preso a sedas, corações e lingeries de tal arte, que era de pensá-lo uma espécie de vampiro.
Kadmon atava-se a lençóis na luz do dia, urdindo sonhos alucinados. Foi assim que, ainda exalando uísque, acordou de um pesadelo envolto em insetos de verão.
Tinha se visto só, a caminhar por uma rua estranhamente próxima e totalmente desconhecida. Não identificava uma esquina sequer. No entanto, com a calma habitual, tratou de pôr um passo após o outro, molhando a garganta aqui e ali.
Um gato vadio que errava pela rua arrastou seu olhar até uma obscura vitrine. “Voz de Tântalo Livraria” – o nome lavrado no vidro, com letras esguias e intrigantes fez seus olhos brilharem num acesso de curiosidade quase infantil. O aproximar-se foi inevitável. Como uma seta que encontra o alvo, seu olhar cravou-se no título que emergia do mar de livros que se derramava das prateleiras. As letras, que via tatuadas na capa de finíssimo couro, faziam-no girar dentro de si.
Era um anjo colhendo espíritos. Era um vento que desafiava o tempo. Era o tempo que destronava deuses. E era santo, semideus, rei e demônio. Era o próprio destino inexorável na correnteza do pleroma universal.
            Enquanto seu corpo febril inundava os lençóis e se contorcia, sua visão viajava no delírio do sono e decifrava na capa do livro inatingível o letreiro que envolvia o bálsamo de todas as suas inquietações. Era um livro não muito grande, nem parecia muito pesado. E estava lá, à sua frente, separado apenas pela fina vitrine do sonho.
Manual da Alma Feminina era o título. Por mais que se esforçasse, porém, não conseguia ler o nome do autor. A curiosidade e o desejo se apoderavam dele como uma febre transbordante.
Tomado de tremores e calafrios dirigiu-se à porta, que estava trancada. Mesmo com o pensamento fixo no livro, não pôde deixar de observar a solidez da madeira escura cheia de entalhes ordinários representando orgias, homens a chocar pedras, mulheres com olhos nos seios e um enorme pássaro com cornos na cabeça, cujas asas envolviam a tudo.
Recuou por um momento. Esvaziou a garrafa com a alma ardendo e lançou-a contra a vidraça. Ato contínuo, os estilhaços cravaram-se em seu corpo causando dores e agonias tão intensas que, neste instante, ele acordou. Banhado de suor, em meio aos lençóis revoltos, Kadmon percebeu que estava coberto por uma nuvem asquerosa de insetos fétidos e avermelhados. Procurou manter-se calmo. Levantou-se lentamente, tomou um copo d’água e só então deflagrou o inseticídio.




II



                        Os dias se passavam e o sonho não lhe saía da cabeça. Como poderia ele possuir o Manual da Alma Feminina e dominar, assim, todos os segredos do íntimo das mulheres? Precisaria, talvez, mergulhar novamente no profundo desvario do sono, para tentar capturar o livro. Mas, ainda que o conseguisse, de que forma transporia a fronteira do real, mantendo em seu poder o cobiçado objeto? Não havia resposta plausível para nenhuma de suas perguntas.
            Enquanto o tempo arrastava seu manto pastoso, as noites se sucediam na rotina dos bares incendiados de poesia, amores e perdições. Entre um trago e outro, Kadmon tentava desenhar nos guardanapos as formas que vira entalhadas na porta, mas as farras roubavam-lhe as imagens da memória.
Ora aflito, ora deprimido, consolava-se no leito de suas amantes mais belas e fúteis. Durante o dia, ocupava-se de antigas fotos da cidade, tentando em vão descobrir a estranha rua que o levara aos limites do êxtase e da privação.
Certa noite, porém, saiu de casa de um modo diferente. Mais preocupado e cauteloso do que de hábito, caminhou lento e observador. Evitou as bodegas de sempre e foi dar numa espelunca azulada, onde, apelando para sua lábia, aproximou-se Nádia.
            Flor doce e exótica, a garota trazia consigo um feixe de conversas enigmáticas, seios rijos, baseados e um perfume inebriante. Ao dançar, fazia com que suas roupas de tecidos diáfanos espelhassem o brilho lascivo de sua alma indômita.
Kadmon desejou-a com tanta intensidade que o suor brotou-lhe do peito e o tempo, então, abrandou o caminhar. O ritual de sedução destilava luxúria, contagiando vampiros, boêmios e moças.
A espeluca azulada agora era palco de um bailado dionisíaco. Certeiro, Kadmon tomou a garota pela cintura, comprimindo-a fortemente contra si. Respirou fundo para sorver o cheiro que manava de seu corpo e num gesto ousado, reclinou-a para sugar-lhe o seio. Foi quando viu, incrédulo, a tatuagem de um pássaro, igual ao que vira em sonho, entalhado na porta da livraria.
Nádia cobriu-se com as mãos e afastou-se com uma expressão aterrorizada. Houve muita confusão. Estróinas e putas voaram sobre Kadmon atacando-o a chutes, socos e bofetões. Tonteando em meio à turba enfurecida, ele pôde ver, ainda no ar, a garrafa que se projetou contra seu crânio. No exato momento do impacto, ele desmaiaria.




III



            A espelunca vazia recebia um vento úmido e tedioso. O assoalho de tábuas corridas repleto de garrafas, copos e baganas testemunhava um despertar lento e penoso. Virando-se com as costas para o chão, Kadmon ponderou que a pequena dor que sofria, não correspondia ao enorme hematoma em sua testa.
Passou algum tempo sem se mover, reconstituindo cuidadosamente o mosaico de suas lembranças. Quando por fim se levantou, a madrugada anunciava o novo dia, que por certo lhe seria doloroso e depressivo. Catou um cigarro no chão, acendeu-o e sorriu ao encontrar, na saída, uma garrafa de seu uísque favorito.
Na rua deserta, entornou bebida sobre o ferimento e seguiu sentindo-se melhor, a cada gole. Subitamente feliz, atravessava poças d’água arrastando os pés numa dança demente. A camisa em farrapos ainda exalava o perfume de Nádia, que ele inalava com um prazer quase masoquista.
            Esmou pelos becos como um náufrago à deriva. Não ouvia um som. Não via ninguém. Seus pensamentos desaguavam num oceano de reticências ou, talvez, estivesse conseguindo realmente não pensar em nada.
Virou a esquina olhando para o gato que o fitava do telhado. Como se fosse óbvio, estancou no meio da rua para sorver um imenso trago. Enxugou a boca com as costas das mãos e começou a se dar conta do local onde estava.
O gato, passando à sua frente, pousava macio no beiral de uma vitrine onde se lia em letras esguias e intrigantes: Voz de Tântalo Livraria. Kadmon aproximou-se da porta, com as sobrancelhas içadas. Iria empurrá-la, mas ela cedeu antes mesmo que a tocasse.
No interior da livraria, ecoavam sopros de flauta. Com passos silenciosos, deslocou-se em meio às estantes procurando o tão sonhado livro. Não o achou. Virou-se e decidiu seguir prédio adentro. Encontrou uma extensa escadaria, comprimida por agressivas paredes de pedra.
Logo de início pôde ver que, a certa altura, os degraus se inclinavam a ponto de fazê-lo acreditar que a escada se tornava perpendicular ao chão. Dominando o medo, decidiu descer até o fim. Sentindo-se fora de seu eixo, chegou a uma grande sala triangular, com uma espécie de piscina em forma de pentágono, ao centro. Sobre ela, suspensa por poderosas correntes, pairava completamente vazia uma gaiola de estilo grego.
            No vértice mais profundo da sala, Kadmon divisou o livro. Ele parecia flutuar sobre um monólito negro. Correu ansioso até ele, ferindo o ombro na parede rochosa. Deitou dedos ardentes sobre o objeto de seu desejo, mas ouviu de imediato um som ensurdecedor.
Virando-se rapidamente viu surgir na gaiola um pássaro como o que vira no entalhe da porta. O monólito desceu até o piso e o vértice se abriu revelando lentamente uma sala oval, onde homens nus de membros eretos chocavam pedras, atados à parede por pesados grilhões.
No centro, com um lampião pendendo sobre a cabeça, estava Nádia. Nua, mantinha-se sentada sobre os calcanhares. Seus olhos, de tão negros, pareciam não ter pupilas.
Kadmon sentiu-se, de súbito, livre de toda ansiedade. Alçou-a com uma das mãos e beijou-lhe a boca longamente. Houve um leve estremecimento e as paredes, então, começaram a sangrar pelas frestas pedregosas.
Desprendendo-se repentinamente de Nádia, Kadmon procurou na capa o nome do autor. Era o seu.
– É isso o que tanto desejas? – perguntou ela, exalando um hálito repugnante de mênstruo. O pássaro emitia sons terríveis e se debatia com tanta força que estava prestes a romper as grades da gaiola.
Vendo a condição absurda de tudo que acontecia ao seu redor, Kadmon apavorou-se. De um salto partiu em direção às escadas. Esgueirou-se pela borda da piscina e correu o mais que pôde.
Afoito, perdeu o equilíbrio e tombou deixando o livro escapar-lhe das mãos. Com o gosto amargo do medo impregnado na língua, sequer pensou recuperá-lo. Correu velozmente até à porta de saída, mas deparou-se novamente com Nádia. Segurando o livro entre as mãos, ela perguntou-lhe se não era aquilo o que mais desejava. Incontinenti, K empurrou-a e precipitou-se rua afora correndo como um louco.
De todos os cantos, centenas de gatos se projetavam em sua direção e algo como um terremoto abalava toda estrutura da rua. Prédios rangiam e paredes desabavam. O medo aumentava. Mais uma esquina e Kadmon alcançaria os bares tão conhecidos de sua intimidade. Bares que agora pareciam ser a sua única tábua de salvação.
Vendo o chão abrir-se à sua frente, tentou ainda um salto, mas suas forças o abandonaram. No ápice do desespero, sentiu seu grito se perder no vórtice do abismo. Então, para seus olhos, o mundo inteiro escureceu.


  

IV




                        As luzes voltariam muito depois, trazendo, a princípio, formas estranhas e incompreensíveis. Sua visão custou a ajustar-se, mas ele reconheceu de pronto a voz doce e feminil, que em dado momento soou enfática:
– Eu ainda posso beber mais uma.
            Tudo estava claro. Kadmon despertava do seu estranho coma, em plena mesa de bar. Passou a mão pela testa procurando o hematoma, mas nada encontrou. A seu lado, a bela Nádia brindava com amigos, irradiando milhões de luzes com seu sorriso. Pareceu-lhe certo acreditar que tudo não passara de um sonho.
– Uma mineral e um uísque – pediu ele, tentando refazer-se por completo.
– Ah! Meu príncipe está vivo! – exclamou Nádia, com grande alegria – Pensávamos que você não ia acordar mais...
A noite atravessou risos, porres e poesia. Quando a madrugada exalou seu hálito frio, Kadmon tinha Nádia em seus braços. Partiram para o apartamento dela, mastigando gemidos temperados de calor e erotismo. Subiram as escadas, lado a lado, como se fossem antigos amantes.
Nádia girou a chave na porta e, com passos felinos, penetrou no apartamento. Deliciosamente terna, beijou Kadmon nos lábios e depois nos olhos, deixando pequenas marcas de batom.
            Ele, entorpecido, fechou a porta atrás de si, sem notar que na parte interior havia um sem-número de entalhes, que pareciam conter um emaranhado de lendas. De um jeito quase-sem-querer, Nádia deixou cair o vestido dando à luz seus seios fortes, que tinham um olhar agudo, devorador de homens.
Havia um cheiro a mais no ar que respiravam. Um odor marrom, morno e adocicado. As mãos, como ávidos nômades a percorrer a geografia dos corpos, transpiravam desejos inconfessos, ardentes e desmesurados.
O suor se derramou profusamente pelos os lençóis amarfanhados e a inércia conquistou um espaço, logo roubado pelo sono. Nádia esperou que Kadmon acordasse para apresentar-lhe as gêmeas Flávia e Liz. Do jeito mais carinhoso que pôde, explicou o imenso desejo de vê-lo na cama com as amigas.
Por sete dias e sete noites, Kadmon deitou-se com elas. Meticulosamente, desvendou seus corpos e mastigou suas palavras, nutrindo-se de pensamentos e sonhos. Durante este tempo, ficou sem ver a cidade. Sentia, vez ou outra, um cheiro de peixe que se emaranhava nos filamentos de ar salgado que penetravam pela janela.
Quando a segunda lua de julho atingiu seu ponto máximo no alto da noite, Kadmon pela primeira vez achou-se sozinho. Uma magreza que beirava a esqualidez havia se apoderado do seu corpo e uma série de perfurações no púbis compunham uma cicatriz perturbadora.
Caminhou pelo quarto exalando testosterona e encontrou várias peças de roupa, inclusive as suas, atiradas pelo chão. Em meio a elas, deu com um antigo livro intitulado Canção da Valáquia Beatrix e do Vóivoda Malescu.
As antigas iluminuras contidas na obra retratavam conciliábulos de feiticeiros e bruxas, onde o sexo e o canibalismo eram festejados com vinho e haxixe. Não chegou a ler o que continha, pois, erguendo os olhos como quem procura a origem de um som, deparou-se com um intrigante espelho poligonal.
No primeiro vértice do espelho havia um signo que emprestava ao reflexo do seu rosto um bronzeado de verão. No segundo, mirava-se pálido, outonal. No terceiro, que se quebrava e se recompunha infinitamente, via-se entre flores de primavera. O quarto e recurvado vértice atraiu sua atenção com um imã invisível. Nele, viu projetado sobre seu rosto um poema carregado de raios e trovões.
Refletindo algum ponto distante, o centro do espelho mostrava claramente o anagrama:
Nahtriheccunde
Gahinneverahtunin
Zehgessurklach
Zunnus.
– A alma feminina possui apenas duas faces. Mas, uma delas é mais que três...
            A voz de Nádia, vinda do fundo do quarto, soou tão estranha, que ele enregelou-se. Olhando-a mais agudamente que o costume, percebeu que os dois lados de seu rosto eram exatamente iguais. Sentiu-se como se despertasse de um longo transe. Nada fazia sentido. Não entendia porque estava ali.
Uma imensa confusão formou-se em sua mente. Tentou fechar-se em seus pensamentos e teria divagado mais uma centena de anos, não fosse o golpe frio das palavras de Nádia atingi-lo novamente:
– Compreender o manual, depende da ordem em que as páginas masculinas e femininas se sucedem, para cada leitor. Vamos pra cama, que eu te mostro meu pentagrama – disse Nádia, estendendo-lhe o braço com ar debochado.
Kadmon tentou recusar, mas faltou-lhe jeito. Deitado ao lado de Nádia, começou a sentir as carícias das gêmeas que o beijavam na nuca e nos ombros. Assim, sem vê-las, passou a tocá-las intimamente até virar-se e perceber que sangravam pelos mamilos.
Assustado, levantou-se de um salto e tratou de se vestir. As três mulheres desataram em gargalhas estrepitosas, que ecoavam em sua cabeça como as badaladas de um sino. Sem dizer palavra, precipitou-se pela porta, desceu as escadas em desespero e saiu do prédio sem saber aonde ir. De tanta fraqueza, desequilibrava-se a todo instante. Quando por fim faltaram-lhe as pernas, tombou com a face voltada para cima e viu o céu avermelhar-se e escurecer completamente.
            Em seu sono comatoso, Kadmon estava livre e bem. Sonhava-se um príncipe a bailar galante no salão dos mais desejados corações femininos. A cada passo, a cada giro, um novo amor surgia e fortalecia o seu poder de encantar. Via os dias e as noites passarem com incrível velocidade e, de tantas seduções e conquistas, passou a viver num mundo de mimos, cercado de luxo e luxúria. Muitas e muitas mulheres o visitavam em busca de romance, da voracidade de seu sexo, de conselhos e até de palavras de consolo. Kadmon atendia a todas, quase sempre as satisfazendo com egoísmo camuflado em falsa generosidade. Contudo, não lhe atormentava nenhuma culpa e sua vida parecia-lhe doce e harmônica.
            Seu grande medo, porém, estava no fato de que alguém pudesse roubar-lhe o manual. Ainda que o guardasse a sete chaves, era obrigado a cumprir o ritual de ler duas páginas ímpares, nos dias femininos e uma página par, nos dias que têm barba, para que não perdesse os conhecimentos. Assim, todas as vezes que adentrava o local construído para abrigar o livro, era tomado de uma extrema ansiedade, que o fazia suar debaixo dos cabelos. Certa feita, ao chegar na última página ímpar do livro – de onde é  necessário retornar ao início fazendo a leitura em voz alta e subtraindo os substantivos –,  uma gota de suor fétido como enxofre escorreu-lhe pela testa.
            Ao tocar o livro, o pingo se espalhou tingindo de vermelho o alto da página, onde se lia “Gazel da Faca de Sal”. Uma fumaça tóxica de odor insuportável começou a sair das páginas femininas do Manual, que ardeu numa enorme chama, ateando fogo ao seu corpo. Contorcendo-se de dor, ele emitiu urros pavorosos e cobriu a face com as mãos, até que num supremo esforço abriu os olhos para o seu anjo.




V




                        Novamente as luzes embaçadas de mais um despertar confuso e doloroso foram dando contorno à sua possível realidade. Do leito onde se encontrava, pôde divisar algum movimento de médicos e enfermeiras. Percebeu agulhas em suas veias e sentiu a desagradável sensação causada por um tubo em seu nariz.
Depois de algum tempo de letargia, moveu a cabeça a fim de olhar para os lados e, com inexprimível esforço conseguiu sentar-se. As vozes foram chegando lentamente, amarradas a outros sons e transportadas pelo ar gelado, carregado de éter.
Duas enfermeiras se aproximaram de um leito próximo, onde um homem muito gordo recebia oxigênio e tinha os batimentos cardíacos monitorados. Mesmo atordoado, Kadmon reconheceu os rostos de Flávia e Liz.
Quando Liz desligou os aparelhos, o homem no leito começou a se agitar em convulsões tão violentas que faziam ranger o móvel de ferro. Flávia desabotoou o vestido e colocou o seio esquerdo próximo à boca do doente, fazendo-o engasgar-se com o sangue que esguichava em profusão.
Kadmon desvencilhou-se dos tubos e agulhas com um gesto rápido e tentou fugir, mas foi placidamente detido por um médico que com muito jeito cuidou de acalmá-lo. Kadmon tentou contar-lhe do paciente ao lado, mas, ao virar-se, percebeu que tudo estava em ordem.
Confuso e sem saber o que falar viu F e L saírem tranqüilamente do recinto enquanto o médico falava de sua transferência para uma enfermaria comum, aos cuidados de uma médica que definira como nova, mas muito competente.
            O trajeto para o novo leito foi feito por meio de um atendente muito velho, que o levou em cadeira de rodas. Os corredores eram tão iluminados que Kadmon mal podia manter os olhos abertos. As lembranças do apartamento de Nádia vinham em fragmentos a um tempo gostosos e aterrorizantes, de tal arte que não conseguia mais distinguir o prazer do medo que sentira.
Instalado sozinho numa enfermaria repleta de leitos vazios, Kadmon sentiu-se seguro para relaxar e dormir. Quando despertou, alongou-se preguiçosamente e sentiu que as forças lentamente voltavam a animar-lhe o corpo. Indagava de si mesmo até que ponto o que lhe parecia lembrança era real. Neste momento, viu aproximar-se uma mulher de curvas sinuosas, vestida como se vestem os médicos. De cabelos presos e com a cabeça baixa a ler o que lhe pareceu um prontuário, só deixou ver-lhe o rosto assim que se postou ao seu lado, indagando.
– Sr. Kadmon, Adam Kadmon... é isto?
            Kadmon assentiu com a cabeça, tomado de mutismo ao ver na médica o rosto de Nádia.
– Meu nome é Nádia Malescu... Doutora Nádia. Espero que o senhor esteja se sentindo bem e que possa falar – disse ela, com um sorriso pueril pendendo dos lábios.
– Sim, acho que posso e... bem, já me sinto melhor... ou pelo menos sinto, já que não sei se sentia antes e nem compreendo o que me aconteceu. Tive sonhos estranhos e ...
– Isso é muito normal, para quem esteve em coma. Talvez falte-lhe memória de algumas coisas e é provável que as medicações, bem como seu próprio estado lhe tragam alguma confusão mental...
– Mas o que houve, por que eu...
– Consta da ocorrência que o senhor foi encontrado desacordado nas ruínas de um antigo casarão da cidade velha, na manhã do dia 1º de novembro...
– Ruínas? E a livraria e o teu apartamento e as gêmeas?
– Não entendo o quê o senhor está falando, provavelmente...
– Provavelmente, o caralho – gritou Kadmon, enfurecendo.
            A médica calou-se, recuando alguns passos enquanto ele desaguava um rio de impropérios. Com um gesto sutil ela chamou um musculoso atendente que imobilizou Kadmon, para que duas enfermeiras gêmeas lhe administrassem um sedativo. Mais uma vez ele mergulhou na escuridão.
– Sr. Kadmon... Sente-se bem? Sr. Kadmon?
            A voz suave fez com que ele despertasse num clima de tranqüilidade celestial. Estava descansado e, de fato, sentia-se muitíssimo bem. Após conversas bastante sinceras e amenas com a Dra. Nádia, acabou por aceitar como realidade, o raciocínio lógico que ela lhe tecera em torno dos fatos narrados por ele.
Como parecesse bem física e mentalmente, a doutora avisou-lhe da alta. Sem esconder seu interesse e novamente nutrido de sua habitual verve, Kadmon confessou à médica que queria vê-la novamente, “em circunstâncias mais agradáveis”. Mais ou menos tímida, ela concordou em dar a ele o número de seu telefone.
            Indo a seu encontro, poucos dias após deixar o hospital, Kadmon transpirava desejos. Incendiário e apaixonado, ardia numa fome bandida pelo êxtase da conquista. Loção de barba, baba e poesia engendravam seus gestos e batimentos cardíacos.
Vez por outra tocava a mão sobre o bolso do casaco onde abrigava sua garrafa de uísque. Andando rapidamente no bairro que tão bem conhecia, surpreendeu-se ao se ver de súbito em uma rua que lhe era totalmente estranha. Não identificava um prédio, uma casa, uma esquina sequer.
De todo modo, não se amedrontou. Estava certo de que seus antigos devaneios estavam superados e não voltariam jamais. Tratou de pôr um passo após o outro, molhando a garganta aqui e ali. Então, um gato vadio, que errava pela rua, chamou repentinamente a sua atenção, como o fazem as belas mulheres, e arrastou seu olhar agudo até uma obscura vitrine.






*Excerto do livro “O PLANO”, de Marcello Chalvinski. Prêmio G. Dias de Literatura – SECMA 2008

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