DEPOIS DE TUDO*


Sempre acreditei que o término de um livro traz mais dúvidas que esclarecimentos. Se assim for, talvez isso ratifique que afirmação de ignorância é sabedoria e sirva, afinal, para alguma coisa. De qualquer forma, quando a capa se fecha naquele quase-sem-som, encerrando a leitura em escuros papéis, o livro é logo abandonado pelas mãos que antes, tão interessadamente, ajudaram a desnudar a intimidade orgânica de sua anatomia. 

Imagino, no exato momento desta separação, o olhar que o leitor constrói em direção aos seus pensamentos, evocando as lembranças de sua leitura acabada. O livro-lido será, a partir de então, um feixe de impressões holográficas, presas à memória por cordões tão frágeis quanto aqueles sonhos que às vezes amanhecem embaçando nossos olhos. Entretanto, a cumplicidade quase criminosa da leitura que o autor semeou em sua obra (ávido de colheitas), há de produzir frutos para tentar a alma a novas e instigantes incursões. Assim, ao tempo que esta leitura matreira definha, outra talvez mais tinhosa esteja nascendo ou preparando-se em conluios. É preciso agir para driblar a peste.

À leitura esquecida que se desfaz no esquife do livro, ocorre o mesmo que ao escritor, quando este humanamente morre. Tudo que sobra são vagas impressões. Mas o que seria da vida sem impressões? Não é acaso a vida uma ligeira impressão da eternidade? A quem pertencem as impressões? Não sei. Não cogito. Mas cheguei a maquinar:

Que impressões a leitura deste livro** terá de nós? Que pensará ela em seu sistema de códigos infinitos, rodeada de luas e anelada de combinações fantásticas? Nada, creio eu. Quando o livro é sepultado na prateleira, ela provavelmente já não pensa.

– Qual a cor dos olhos de Zeth***? – gritaria ela se pensasse, se sonhasse ou se quisesse de volta o tormento de seu atribulado ofício. Mas ela não o quer e preferirá fingir uma reclusão digna até que outras mãos e olhos vorazes a tomem por sedutora.

Ainda que os conhecidos olhos, que a desnudaram e abandonaram por primeiro, voltassem a pousar suas inquietações sobre a história, a leitura não lhes permitiria o prazer original dos primeiros encontros e trataria de livrar-se com seus terríveis ardis.

É preciso permitir que as impressões se façam e desfaçam nas paredes espelhadas do pensamento e esperar que os vermes do tempo devorem até a última lembrança, para que leitura possa sonhar em dar-se novamente.

De todo jeito, não se deve desesperar. Nunca. Qualquer leitura é dada ao desafio de existir e livremente escolhe os seus amantes, assim como nossos destinos nos escolhem.

Enquanto o autor trafica suas metáforas sinistras nas vielas alucinógenas da escrita, o leitor se esbalda e se arrisca em companhia de sua leitura mais nova e embriagante. Seja como for, todo livro tem o seu veneno que vicia.

O imaginário recriado pelo alfabeto há de ser o supremo deleite dos neófitos, a alegria orgástica dos viciados, a confusão senil dos teóricos e o terror apoteótico dos incautos. Seja a leitura a materialização do perigo, a certeza de bem e de mal, a descoberta de que há mais por descobrir e o sagrado risco de não se poder voltar.

Presumidamente, O Plano se conclui. Mais uma leitura se vai. Os perigos até aqui foram aceitáveis, mas a lucidez de quem escreve e de quem lê é o hímen de Pandora à mercê de males de todos os tamanhos. Por isso, neste momento em que o fechar da capa se aproxima, proponho ao leitor que clamemos em silêncio, por estas conturbadas páginas mortas: requiem aeternam dona eis! ****.
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* Excerto de “O PLANO” [Marcello Chalvinski – SECMA/Prêmio G. Dias de Literatura].
** O PLANO
*** Personagem central d’O PLANO.
**** Dai-lhes o descanso eterno

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Tira-gosto

Um Poema ao Acaso

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