OVERDOSE BAR*




“...Nesta noite funda,
Fria e sem Deus.
Uma coisa branca,
Eis o meu desejo... ”

Dante Milano




                        Precisa e sensual, Zeth pincelou o batom sobre os lábios, deixando a boca exatamente no mesmo tom de seus cabelos, de suas unhas e de suas roupas, inclusive as íntimas. A poucos minutos do show, a maquiagem estava pronta. Bastava colocar a blusa e subir ao palco. Acendeu um cigarro e ficou a admirar-se frente aos espelhos. Verificou com satisfação a firmeza dos seios arredondados, a linha bem traçada dos quadris e a alvura dos ombros machadianos.
Já apagava o cigarro, quando uma rajada de ar frio lambeu-lhe a nuca. Então, uma pequena caixa de fósforos, com a marca do Overdose, juntou-se à bagana que fumaçava no cinzeiro.
– Sou um grande admirador do seu trabalho – disse Adelar, colocando sobre o toucador uma garrafa de Corvo. Diante do silêncio da garota, girou o charuto entre os dedos e prosseguiu:
– Gostaria de conversar, após o show é claro...
–...Olha, não sei o que você está pensando, mas...
– Negócios minha cara, apenas negócios – disse ele, se aproximando.
– Eu...
– Você pode me conseguir fósforos? Os meus acabaram...
Zeth sentia o odor amadeirado do perfume de Adelar penetrar-lhe pelas narinas. Ele se aproximara tanto que por pouco não lhe pisava os sapatos. Para não ter de encará-lo tão de perto, ela tomou impulso e se esgueirou. Evitando elegantemente ser tocada por ele, estendeu-lhe um pequeno isqueiro e ficou a fitá-lo, com olhos interrogativos. Porém, antes que voltassem a falar, a grande lâmpada vermelha piscou sobre os espelhos, indicando que era hora do espetáculo. Com gestos e palavras leves, Zeth desculpou-se e apontou a saída.
– Depois do teu show, a gente conversa. – disse ele, antes de se retirar. Desceu as escadas com estardalhaço, engoliu algumas aspirinas e, como sentisse imediata necessidade, dirigiu-se ao sanitário.
            Sensual e por vezes obscena, a música de Zeth logo eletrizou o público, provocando uma ebulição de doideiras. Abancado na sua “mesa oito”, Miro sorvia quantidades oceânicas de uísque. Embora estivesse excitado com o movimento e com a música, ele pouco se movia e quando o fazia era para acender um cigarro ou levar mais uma dose à boca. Gostava realmente da sensação que a bebida lhe causava. O calor no corpo, o ardor nos olhos e a sensação de controlar a própria loucura faziam com que se sentisse pleno de vida. De um estalo, resolveu ir ao banheiro a fim de inalar cocaína. Antes, porém, encomendou outra dose e deixou o maço de cigarros junto com o copo sobre a mesa, fazendo um sinal para que o garçom lhe mantivesse o lugar reservado.
Do lado de fora, dois inseparáveis companheiros desciam de um táxi em meio a uma roda de belas mulheres.
– Essa noite vai ser demais, mai bróder! Hoje a cobra vai fumar, assoviar e chupar cana. Só quero tomar umas duas e me danar com uma diabona destas até o dia amanhecer. Vamos nessa, mai bróder. Vamos nessa...
Rapidamente, passaram pelos leões-de-chácara, driblaram os travestis e convenceram duas prostitutas a acompanhá-los. Instantes depois, postaram-se ao lado da mesa, onde repousavam os cigarros e o copo de Miro. Sempre tomando a frente de tudo, Candô mandou que Chicó e as moças se acomodassem, sem perceber que a mesa dava sinais de estar ocupada. Aproximou-se do balcão para fazer o pedido, no intuito de ser atendido mais rápido e, olhando para trás inadvertidamente, assistiu Adelar tomar a frente de Chicó e sentar-se à mesa. Indignado decidiu tomar satisfações com o desconhecido. Antes que isso acontecesse, porém, Miro se aproximou e, com razoável delicadeza, explicou que já ocupava a mesa desde o início do show, apontando a carteira de cigarros, para provar o que dizia.
– Escute aqui, fedelho – retrucou Adelar – vou ficar sentado aqui até essa merda barulhenta acabar. Procure outro lugar se quiser manter seu traseiro inteiro, entendeu?
– Você não está sendo educado – disse Miro, imaginando partir a socos a cara de Adelar. Candô, vendo o clima esquentar, decidiu passar de fininho entre os dois e procurar outro lugar para ficar. Pegou sua garota pela mão e fez um maneio de cabeça sinalizando para que Chicó o acompanhasse. Irritadíssimo, em meio à sua discussão com Miro, Adelar deu um forte empurrão em Candô, fazendo-o desabar sobre a mesa. Foi o começo do tumulto.
A partir da reação de Candô, garrafadas, socos, pontapés e cadeiradas sobraram para todos que estavam por perto, alastrando a briga. Dois seguranças do clube chegaram ao local no momento em que Adelar, caído, sacava de uma pistola. Um deles, muito forte e alto, tentou evitar o disparo, mas acabou alvejado no ombro. Menos sorte teve o outro que, ao empunhar um revólver, foi baleado na cabeça e morreu instantaneamente. Uma grande correria se formou e várias pessoas se feriram.
Adelar, aproveitando o momento de extrema confusão, apontou sua arma para as costas de Miro, mas, no exato momento do tiro, Candô desfechou-lhe um violento golpe, colocando-o por terra. O rock ainda soava em poderosos acordes, na hora em que Donato e Heliogábalo entraram atirando.
Miro saiu correndo para os fundos, seguido de Candô e Chicó. Movidos pelo medo, os três conseguiram transpor a minúscula janela do banheiro das mulheres e caíram na praia. Miro gritou para que eles o acompanhassem até o carro.
Com as mãos trêmulas e muito ofegante, quase não conseguiu abrir a porta. Mas, ao volante, a adrenalina serviu para aprimorar-lhe os reflexos. Saiu em alta velocidade numa manobra precisa e já ia desaparecer pela avenida, quando avistou Zeth, pelo retrovisor. Retornou imediatamente transpondo o canteiro, enquanto os truculentos capangas de Adelar carregavam o patrão desmaiado.
Zeth abriu a porta e se atirou no banco traseiro do automóvel, que partiu em grande disparada. Candô e Chicó pareciam ter perdido o sangue.
– A gente tem que voltar pro circo, mai bróder, já tô ficando com medo de andar nesta cidade aqui. Pra todo lado que a gente vai rola uma merda, porra.
– O circo tá do outro lado da cidade. Não acho que seja uma boa ir pra lá agora. – argumentou Miro – Se vocês estiverem a fim, a gente pode ir pro apê da Zeth. Tenho umas coisas e... Bem, se não fosse aquele teu soco eu nem ia poder cheirar mais...
– Candô, mai bróder. Candô. – disse o pirófago, estendendo a mão. – Este camarada aqui é o Chicó, morou? Gente fina. Circense. Gente da gente...
– Miro. Meu nome é Miro.
– Ô, mai bróder – disse Zeth, imitando Candô – enfia a mão nesse porta-luvas aí e pega um uísque pra mim. Afinal, que merda foi essa que rolou, com bala pra todo lado?
Miro e Candô cuidaram das explicações, reconstruindo os momentos dramáticos por que passaram, com ligeiras interferências de Chicó. A cada detalhe contundente, Zeth levava a mão à testa e cuidava de anestesiar o coração com mais um gole.
Talvez em função do nervosismo provocado pela agudeza do ocorrido, somente quando chegaram ao apartamento é que Candô e Chicó se deram conta de já terem visto o casal, em outra ocasião. Indiferente ao fato, Miro abriu uma garrafa de vodca e pôs a cocaína no prato.
Todos passaram a falar muito em função da droga e um sem-número de canudos de papel foi paulatinamente se amontoando pela sala. Falou-se de dinheiro, de sonhos e do que cada um teria coragem de fazer para conseguir realizá-los. Até mesmo o tímido Chicó tagarelava como um louco. Cinco gramas, dez gramas e mais uma garrafa de bebida, agora um conhaque. Vez por outra, um capiroto travesso derrubava talheres na cozinha. Zeth chegou a brincar que eram seus fantasmas de estimação e arrancou risos além do normal.
A tensão parecia ter-se dissipado. Tudo agora era euforia. A euforia do pó. Miro e Zeth sentiam-se como verdadeiros amigos de infância da dupla circense. Risos, brindes, abraços. Era uma festa.
            Era. Sem que nenhum som estranho fosse notado, Adelar e seus capangas surgiram, empunhando poderosas escopetas.
– Vamos logo ao assunto, seus merdas – rosnou Adelar, babando-se todo. Ato contínuo, entregou a arma para Donato e virou violentamente a mesa, surpreendendo a todos. De dedo em riste e espumando como um cão hidrófobo, prosseguiu:
– Vocês se meteram numa grande bosta...
– Foi só uma briga, um mal entendido – disse Miro querendo acalmá-lo – a gente pode resolver de outro jeito...
– Ah! Você não sabe do que eu estou falando, não é fedelho? Vou facilitar pra você. Na noite de 31 de outubro, você, esta putazinha de merda e o resto da tua gangue de filhas-da-puta acenderam uns foguetinhos na praia e foderam com uma transação minha. Deu pra lembrar?
– Não sei do que você está falando – sussurrou Zeth.
– Cale a boca! – gritou raivosamente Adelar, aproximando-se tanto, que Zeth pode sentir-lhe o hálito asqueroso. Passando a mão pelos cabelos oleosos, Adelar fingiu acalmar-se e prosseguiu com voz moderada, carregada de sarcasmo:
– Vocês causaram um grande prejuízo à Organização. Isso irritou algumas pessoas e elas reclamaram pra mim. É preciso que vocês saibam que isso não se faz. Vocês foram maus meninos. E ainda por cima me agrediram. Logo eu, um homem de respeito. Uma pessoa que nunca fez nada a vocês...
– Olha eu não sei dessa história de foguetinho nem de nada disso aí que você falou mai bróder, eu nem moro aqui e...
– É melhor calar a boca, seu bichinha de merda. Já enterrei muita gente por menos que isso.
Intuindo que Miro seria o líder do grupo, Adelar passou a dirigir-se exclusivamente a ele:
– A Organização perdeu alguns milhões nessa jogada, por exclusiva culpa de vocês. Isso significa que vocês têm um grande débito. Um débito que nós viemos cobrar. O correto seria que vocês pagassem com a vida. Mas, para mim, a vida de vocês não vale nada.
– Ainda bem – deixou escapar Chicó, enfezando Adelar, que com um violento puxão atirou-o ao chão e pisou-lhe o pescoço. Candô, angustiado, o interpelou:
– Aí, mai bróder, vai logo dizendo o que é que tu quer, compadre. Se fosse pra matar a gente, a gente já tava morto. É ou não é?
– O menino é inteligente. Que beleza! Assim você facilita. Eu gosto disso. Gosto de verdade.
            Alinhando o paletó, Adelar deu as costas, passou em meio aos capangas e depois de algum tempo voltou-se dizendo:
– Vocês vão fazer um servicinho para a Organização. Se fizerem tudo certo, deixo vocês viverem e ainda arrumo um dinheirinho pra vocês passearem. Mas, se vocês falharem, era uma vez... Deu pra entender? Ótimo! Estejam aqui, às três da tarde, sem ressaca e sem paranóia. Não tentem nenhuma besteira. Pode ser pior.
            Com um olhar, Adelar comandou seus capangas e saiu sem mais nada dizer. Zeth, Miro, Candô e Chicó entreolharam-se estupefatos. Incitado pelo capiroto travesso, o medo os mastigou com suas impiedosas mandíbulas de mármore.



*Excerto do livro “O PLANO”, de Marcello Chalvinski. Prêmio G. Dias de Literatura – SECMA 2008

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