INTERLÚDIO XXVII




tomei o punhal de lucrécia
numa noite de devaneios

os deuses se alegravam
com o ópio da eternidade
mulheres de seios mornos
& pública devassidão
acariciavam as virilhas
de escassos pelos...

um odor indefinível
me trazia à memória
uma sensação de gás
& uísque





Marcello Chalvinski
[in 'Anjo na Fauna']

MÍSTICA








No declive da escarpa anjos giram suas togas de lã
sobre relvas de aço e esmeralda.
Prados de chamas saltam até as mamas dos montes.
À esquerda, o humo dos sulcos é pisado por todos os homicidas
e todas as batalhas, e todos os ruídos do desastre traçam sua curva. Atrás do sulco à direita, a linha dos orientes, dos progressos.
E enquanto a faixa no alto do quadro se forma
do rumor giratório e saltitante das conchas do mar e das noites humanas, a doçura florida das estrelas e do céu e do resto
desce diante da escarpa, como um cesto, — contra nossa face,
faz um abismo azul em flor lá embaixo.




Arthur Rimbaud




ALL THE CASUALTIES...




eu disse então a ela na cama
depois de voar todo o caminho
até ali
eu disse a ela na cama
em seguida,
”não tem como voltar atrás,
você sabe, é danado
de ruim…”

e era
contudo eu fiquei 2 ou
3 dias
e então ela me levou
ao aeroporto
o cachorro no
banco de trás
aquele cachorro que tinha vivido
conosco
naqueles poucos
anos.

eu saí
disse a ela
”não entre”,
o cachorro pulou pra cima
e pra baixo,
ele sabia que eu estava indo embora,
assanhei seu pêlo,
ele lambeu em torno
do meu rosto.
que merda.
inclinei-me para dentro
segurando minha mala,
ela me deu um
beijinho de adeus,
então eu me virei e
caminhei para o
guichê do aeroporto
onde o controlador
destacou a
outra metade do meu bilhete de ida
e volta.

“fumante ou não-
fumante?”, o funcionário
perguntou.

“bebedor”, eu
respondi.

recebi meu bilhete de embarque
e caminhei até
o portão
me sentindo mal

por todos
que eu conhecia

que não conhecia

que ia
conhecer.








Charles Bukowski 
[War All the Time – Poems 1981-1984 - TRAD.: Andrew Clímaco]

O ESPÍRITO DE OCTUS




“O lombo é um pouco roxo. E tudo larga um cheiro
Estranhamente horrível. Coisas singulares
Requerem que uma lente ajude ao olho nu...”
Arthur Rimbaud

        Por todo País, contam-se inúmeras histórias sobre o revolucionário Policarpo. Comprovar a veracidade dessas narrativas não é, contudo, tarefa fácil. Nas rodas de dominó, nos botequins e, principalmente, entre os mais idosos, há sempre alguém com uma versão diferente para o mesmo fato. Trata-se, portanto, de acreditar, ou não, no que se diz.
Joey Schatten, no seu polêmico “Diário da Revolução”, traçou um retrato do período mais obscuro da vida de Policarpo. A obra, muito contestada, acabou por render as mais variadas versões e causos populares. O mais aceito deles, talvez seja o que nasceu na Região de Orabutã. Segundo ouvi, o herói, muito jovem ainda, teria sido preso por divulgar panfletos considerados subversivos. As sevícias e as humilhações a ele infligidas, em decorrência disso, forjaram o motor de sua revolta contra o Estado.
Conta-se que o jovem Policarpo era um rapazola franzino e idealista. Os panfletos, elaborados por ele mesmo, professavam idéias mutualistas, que não se alinhavam com nenhum partido da época. Rebeldia juvenil, ingenuidade ou predestinação, o fato é que Policarpo foi levado aos porões do 8º Batalhão, onde sofreu toda sorte de torturas. Porém, nada tendo a confessar além de seu pensamento anarquista, com o tempo passou dos suplícios ao trabalho forçado. Limpava latrinas, podava árvores, engraxava botas e ainda era obrigado a alimentar aquele que seria, tempos depois, o símbolo maior do Regime: o porco Octus.
Sem nada que o diferenciasse dos de sua raça, Octus tornou-se ídolo das forças policiais, num golpe do acaso. O fato se deu durante uma solenidade que reuniu vários oficiais e um grande contingente de homens. No auge das celebrações, um telefonema trouxe a ameaça de bomba. Policiais do esquadrão especial, presentes ao evento, vasculharam todo o quartel, mas só conseguiram localizar o artefato quando o contador indicava 45 segundos para a explosão.
A evacuação, que se processava com disciplina militar, tornou-se então uma louca correria. Naquele instante, porém, surgiu um enorme suíno, tão alvoroçado e faminto, que literalmente comeu a bomba. De fato, a mordida do animal foi tão certeira que partiu os fios na seqüência exata, desarmando o detonador.
Um tenente, de nome Otávio Carrera, aproximou-se cautelosamente e constatou, pela parte que sobrara, que o mecanismo fora desligado a oito segundos da explosão. Foi dele a idéia de adotar o porco como mascote e de batizá-lo com o nome de Octus. A vida do animal mudaria radicalmente após este episódio. A TV Estatal passou a bombardear a população com inúmeras matérias que o definiam como um verdadeiro símbolo de heroísmo. O 8º Batalhão abriu concurso e elegeu um novo brasão de armas, com a figura do suíno em destaque. Octus estava famoso. Sua figura cartunizada freqüentava todos os jornais e revistas pró-Regime, gerando uma onda de sucessos romanescos, que serviu como luva para afastar a população das discussões sobre os impostos e a intolerância do Regime. Porém, em pouco tempo, uma série de confrontos e chacinas no campo poria por terra o fútil patriotismo pré-fabricado e levaria ao ostracismo o herói-suíno.
Nada de câmeras, nem clarões repentinos. Nada de visitas estudantis, nada de medalhas. A fama do chancho desapareceu tão veloz quanto a glória do mundo. Ele, que se acostumara a passear, fertilizando livremente os gramados do quartel sob a mira das objetivas, passou a condição bem menos satisfatória. Agrilhoado, era mantido sobre uma laje semelhante a um pedestal, de onde nunca saía.
A pontapés e coronhadas, Policarpo cumpria a missão de mantê-lo alimentado e limpo. De tudo que era obrigado a fazer, cuidar do suíno era o que mais lhe repugnava. Sua aversão não residia na natureza do animal, mas no que ele representava. Para aumentar seu infortúnio, um sargento conhecido como Zóião, percebendo o terrível asco que sentia em relação aoartiodátilo não ruminante, tramou contra ele uma cruel humilhação. Diante de quase todo batalhão, num fim de tarde chuvoso, obrigou-o a alimentar-se junto com bicho. Ao final do espetáculo vergonhoso, que protagonizou sob ameaça de armas, Policarpo disse ao sargento: “Eu posso comer ração, mas são vocês os verdadeiros porcos”. Por conta disso, apanhou muito e passou quatro dias confinado na solitária.
Enquanto a mente atormentada de Policarpo se digladiava com a loucura, por trás dos olhos negros e arredondados, o pequeno cérebro de Octus mergulhava em lembranças descoloridas, para fugir à amargura da vida atada a ferros. Recordava as tetas quentes em que mamava e até podia sentir a lama dos manguezais e odor dos lixeiros onde fuçava por alimento, junto aos urubus. Era nessas lembranças que encontrava forças para se manter vivo. Seu sono conturbado, na contramão de suas recordações, constituía-se numa fábrica de horrores. Revia impotente a cruel morte da mãe, espancada e sangrada entre grunhidos altíssimos. Corria em meio a cães ferozes que o mutilavam a poderosas dentadas e não raro acordava com a sensação de sentir o cheiro de sua própria carne queimada.
Ao despertar de tais pesadelos, Octus rolava nos restos de comida e nas próprias fezes, até adquirir uma coloração escura. Feito isso, mantinha-se de tal forma parado que, quem o avistasse de longe, imaginaria estar vendo uma estátua, acorrentada ao seu pedestal.
De fato, grande era a dor de seu padecimento. Seu corpo animal ferido pelos grilhões e sua mente suína cheia de lembranças impulsionavam seu espírito de porco a desejar o fim de tudo. O que mais o irritava, porém, era o contato com Policarpo, principalmente após a pena na solitária. Não gostava do seu cheiro e odiava o tratamento que ele lhe dispensava. Tentou mordê-lo várias vezes, algumas com relativo sucesso, mas nada era suficiente para aplacar sua ira.
Foram meses de aflição sobre a laje, até que Policarpo deixou de aparecer. Um soldado, cujo rosto era parcialmente coberto de sinais escuros e rugosos, foi incumbido de ser o novo tratador. Octus animou-se tanto que, como conseqüência, desatou a comer e engordar literalmente como um porco. Deu de sujar-se menos e logo tornou-se rosado ao extremo. Os pesadelos diminuíram em freqüência e intensidade e seus dias e noites estavam cada vez melhores.
Nessa época, a formação de uma nova guerrilha revolucionária chamada Movimento colocava em risco a ditadura do Comitê. Estrategistas do Regime, numa manobra maquiavélica, planejaram e executaram um atentado contra a escola pública da capital, atribuindo culpa à guerrilha recém-formada. Dezenas de crianças morreram e centenas ficaram feridas na explosão. Incentivados pela imprensa, milhares de cidadãos foram às ruas em protesto contra os atos terroristas. Bandeiras e camisetas com a figura do porco estampada foram estrategicamente distribuídas pelo Departamento de Propaganda. A “Era Octus” estava às portas do apogeu.
Com o passar dos anos, os ativistas políticos contrários ao Regime foram presos, deportados, exilados ou simplesmente mortos. Porém, o Movimento prosseguiu em sabotagens e ataques cada vez mais ousados, tendo como alvo principal os chefes das milícias repressoras e os membros do Comitê. O 8º Batalhão foi transformado em D.A.P.U. e entregue a um comando especial, com o objetivo maior de combater a guerrilha de Policarpo.
Entre os membros dirigentes do D.A.P.U. estava a temida Olga Wurtz, conhecida por ter preparado para o Regime um requintado manual de torturas. Olga e sua equipe tinham verdadeira adoração por Octus e se redobravam em cuidados para com o suíno. Era sabido que todo final de tarde eles se reuniam em torno do porco para acariciá-lo e atirar-lhe sobras de pizza. Octus não se fazia de rogado e devorava rapidamente o que lhe ofereciam. Sentia um grande calor no peito e em seus órgãos genitais quando era tocado por Olga Wurtz. Seus olhos ficavam repentinamente úmidos e incrivelmente brilhantes quando isso acontecia.
Numa manhã de quinta-feira, Olga ordenou que Octus fosse levado para um galpão nos fundos do D.A.P.U., afim de que fosse banhado, escovado e tratado por veterinários especializados. O objetivo, explicou ela, era uma sessão de fotos para imortalizar o herói-suíno. Porém, quando o bicho já estava devidamente preparado, Olga fez com que todos se retirassem e ficou a sós com o rechonchudo animal. Certificando-se de que ele estava bem preso e de que ninguém a poderia observar, Olga tirou sob o vestido sua larga calcinha e esfregou-a nas ventas do bicho.
A sensação de Octus foi de extremo agrado ao aspirar o forte cheiro que manava da peça gigantesca. Lembrou-se de sensações olfativas antigas, experimentadas nos lixões onde costumava fuçar e emitiu uns grunhidos gentis, demasiado baixos para serem ouvidos fora do galpão. Olga, intuindo a satisfação do animal, tratou de apalpá-lo no pênis, com movimentos lentos e fortes. Excitava-se muito fazendo isso. Quanto mais seus dedos masturbavam o porco, mais sentia a vagina umedecer. O porco grunhia baixinho e ela sentia o muco escorrendo pelas coxas. Num gesto incontido, colocou-se por baixo do animal e, com sofreguidão, pôs-se a sugar o membro enrijecido, masturbando-se violentamente até o orgasmo.
Após recompor-se, partiu com o bicho solto, para o esperado ensaio fotográfico, o qual fez questão de acompanhar em cada detalhe. O fotógrafo encarregado do serviço, Alfredo Potato, tentava manter uma postura profissional, mas aborrecia-se demasiadamente, com as excessivas recomendações de Olga.
Ao final da longa sessão de fotos, Octus foi novamente levado para o seu pedestal e acorrentado sem mais delongas. Olga Wurtz, por seu turno, suspendeu os trabalhos e foi para casa suspirando de felicidade. A liberação dos desejos e os secretos prazeres gozados com o suíno eram motivos de comemoração. Sozinha, em seu gigantesco apartamento, abriu uma garrafa de licor de fruta e deitou-se ao centro do grande tapete da sala. Entre um gole e outro, lembrava do contato com o porco, comparando as recentes emoções vividas com o que sentiu quando pela primeira vez foi possuída.
Rolando de lá para cá, ora buscava o cheiro untuoso de Octus em seu corpo, ora relembrava o odor nauseabundo do banheiro onde fora violentada. Do estuprador não lembrava o cheiro. Podia, contudo, lembrar-se de seu tipo alto e recurvado, com o topo da cabeça careca e, no resto, compridos cabelos, tão brancos quanto sua barba. Lembrava também que o que houve foi uma dolorosa penetração anal, como todas as outras que pode experimentar em sua deprimente vida sexual, pois, apesar de contar quase sessenta anos, ainda sonhava encontrar aquele que a desvirginaria, com o nobre intuito de tomá-la em casamento, pondo fim à sua maldição.
Ainda àquela noite, elegantemente vestida e discretamente bêbada, Olga Wurtz pronunciaria um de seus mais famosos discursos: Pátria, governo e as hostes da moralidade. Meses depois, convertido em livro, esse manifesto pró-Regime tornou-se notícia em todo país. O fato se deu, principalmente, porque na noite de lançamento, Octus foi mandado pelos ares por uma bomba acionada à distância.
Olga Wurtz, sob impacto emocional, sofreu violento ataque cardíaco e por pouco não morreu. Tudo havia acontecido debaixo de seu nariz. Enquanto ela autografava pomposamente dezenas de exemplares de seu opúsculo, Policarpo furava o pesado esquema de segurança e plantava, em pleno D.A.P.U., o explosivo que rasgaria o porco em centenas de pedaços.
Um vulto negro, um objeto colorido, uma explosão. Esse foi o fim de Octus. Seu espírito animal se projetou no espaço através de nebulosas e quasares até atingir um ponto indefinido, que aos poucos foi se tornando um novo mundo, incrível, oleoso e maravilhosamente suíno. Um paraíso babélico cheio de lama, fezes e grunhidos felizes, onde os urubus celebravam o lixo e o caos. Uma espécie de céu dos porcos.
Octus tinha, agora, todos os seus desejos magicamente realizados. Sonhava intensamente e sentia, em sua alma de porco, os dedos firmes e a boca calorosa de Olga Wurtz, sempre que queria. E queria muito, a toda hora. Talvez porque os porcos carreguem fortes lembranças ou quem sabe algo de paixão em seus gordurosos espíritos.






Excerto de O PLANO - Marcello Chalvinski - 2007

BARBIE PROCURA NAMORADO





De vestido, bolsa e sapatos rosa ela desfila sua graça pela Nauro Machado, praça onde acontece parte das festividades do pré-carnaval, no palco Tião Carvalho com o cavaquinho e poderosa banda anima os foliões ao som do Baralho, não são muitos os que dançam e a praça está quase vazia, pois a hora é cedo. Sozinha. Espalha sua beleza vestindo uma peruca escandalosamente branca. Seus olhos buscam conhecidos, amigos, amigas. Conversa aqui. Conversa acolá. Uma latinha de cerveja. Ninguém é de ferro. Êh! Menina, quanto tempo. Beijos, abraços, alegria esfuziante. Quanto tempo, pois é, casei, agora estou mais em casa. E tu, sempre bonita, tá só? nesse carnaval? não acredito? pois eu estou com o Igreja há mais dois anos, sabe como é casamento, a gente fica mais em casa, e tu. Saí um tempo aí com o Daniel, mas sabe o cara é cheio de pose, machisssta, ciumento, é um cara legal, no fundo um tímido inseguro, saímos muitas vezes, mas não quis ficar com ele, até dei uns beijos nele. Acho que gorou, fomos ficando cada vez mais competitivos um com o outro, ele pra provar que era macho ia ficando com umas e outras, eu também fui arranjando uns e outros, que eu não sou de perder pra buchudo, agora ele casou, encontrou uma menina se apaixonou, coisa da vida. mas estou bem o que não me falta é pretendente, basta eu fazer assim oh que tá aqui na minha mão. rssss... Olha esse coroa, bonito, gosto de cara assim... É o Alberto, é músico, liso, sabe como é essa moçada da música vive no vermelho, mas dizem que é muito bom de cama. Me apresenta. Alberto, toma um chopp aqui com a gente, te apresento minha amiga. Prazer sou Barbie e não faz esta cara de espanto, mamãe gostava da boneca, que é isso, o nome combina com você, é, hoje eu estou no personagem. Tem festa hoje no Labô. É uma boa,vamos lá. vamos. antes que chova, não demora chover. Ferveção geral. Fofões, super heróis, bruxas, mulher das cavernas, nêga maluca, confetes e serpentinas. Perdem-se no salão. Cada um pra seu lado. O rosa vestido de Barbie confundia-se com o rosa vestido de Nôni, jovem artista, vestido de mulher e esmerando-se na interpretação. A cervejinha. O cigarro envergonhado pelos cantos. No banheiro o discreto movimento do bright. Normal em toda festa. A fome atacara Alberto que se sacia com peixe frito, arroz e vatapá. O tempo despeja água em profusa chuva de sons e afastado do salão ele conversa com Araújo amigo de música, de vida. Conversa sem pressa. Dois pra lá, dois pra cá. Espremem-se no corredor ajanelado da casa, passagem dos que vão ao banheiro, dos que vão ao bar. Balcão. Os sons diminuem e os pingos não amedrontam os foliões suarentos a buscar uma fresca. Um casal divide, a gelada, e a conversa embevecidos, ele pelos encantadores olhos adornados de sorriso rosa, ela pela prosa, as conversas, amigas, iphone. Os olhos de Barbie permanecem famintos, rodam pelo salão a procura de nada. Um baseado. Alberto sentiu vontade de fumar um. Romão, dançarino e pintor, apresentou. Os dedos haviam enrolado e a língua umedecia a parte exposta da seda para fechar o cigarro, Alberto viu Momo,. Momo viu Alberto. Tu não pode fumar aqui. Posso, vou fumar. Vou chamar o segurança. Chama. Vou acender; acende. O tempo úmido não colabora os pingos sonoros são finos, dificultam a queima. É difícil acender. Não acende isto aí, te peço. Alberto aquiesce. Desce as escadas e encostado ao portal do casarão fuma com Romão, Justina, dançarina, e o flanelinha de sombrinha que se aproxima. A Bandida começa a tocar, o salão pega fogo, homem com mulher, mulher com homem, homem com homem, mulher com mulher, tudo no aceitável mundo do carnal, do carnaval. Saudosas serpentinas, tímidos confetes e inexistente maisena colorem a festa de verdes, dourados, brancos, pretos,paetês, acetatos. Eu fui cozinhar um ovo, mas tinha um pinto dentro, você já pensou se eu cozinho com o pinto dentro. Ah s’eu cozinho. Ah s’eu cozinho. Ah s’eu cozinho com o pinto dento. O cantor agitava o refrão, Nôni descia até o chão rebolando na garrafa. Mulher das Cavernas beija Capitão Gay. Cruz Diabo abraça Fofão. O sons vão silenciando. Para a festa. A Banda. A chuva. Barbie pega uma carona com o casal. Alberto pega um taxi. Segunda-feira de carnaval, carnaval de segunda, Alberto assiste ao tambor de crioula. Desponta de branco, meiga e nada tímida, com enorme peruca rosa, aos beijos com um jovem com uma enorme guitarra tatuada no braço. Oi Barbie.






ZéMaria Medeiros


CINO



Arre! Já celebrei mulheres em três cidades,
Mas é tudo a mesma coisa;
E cantarei ao sol.

Lábios, palavras, e lhes armamos armadilhas,
Sonhos, palavras, e são como jóias,
Estranhos bruxedos de velha divindade,
Corvos, noites, carícia:
E eis que não o são;
Já se tornaram almas de canção.

Olhos, sonhos, lábios, e a noite vai-se.
Em plena estrada, uma vez mais,
Elas não são.
Esquecidas, em suas torres, de nossa toada,
Uma vez por causa do vento, da revoada
Sonham rumo de nós e
Suspirando dizem, "Ah, se Cino,
Apaixonado Cino, o de olhos enrugados,
Alegre Cino, de riso rápido.
Cino ousado, Cino zombeteiro,
Frágil Cino, o mais forte de seu clã bandoleiro
Que bate as velhas vias sob o sol,
Se Cino do alaúde aqui voltasse!"

Uma vez, duas vezes, um ano -
E vagamente assim se exprimem:
"Cino ?" "Oh, eh, Cino Polnesi
O cantor, não é dele que se trata ?"
"Ah, sim, passou uma vez por aqui,
Sujeito atrevido, mas...
(São todos a mesma coisa, esses vagabundos)
Peste! As canções eram dele ?
Ou cantava as dos outros ?
Mas e o senhor, Meu Senhor, como vai sua cidade ?"

Mas e senhor, "Meu Senhor", bá! por piedade!
E todos os que eu conhecia estavam fora, Meu Senhor, e tu
Eras Cino-Sem-Terra, tal como eu sou,
O Sinistro.

Já celebrei mulheres em três cidades.
Mas é tudo a mesma coisa.
E cantarei do sol.
...eh?... a maioria delas tinha olhos cinzentos,
Mas é tudo a mesma coisa, e cantarei do sol.

"Pollo Phoibeu, panela velha, tu,
Glória da égide do Zeus do dia,
Escudo d'azul aço, o céu lá em cima
Tem por chefe tua rútila alegria!

Pollo Phoibeu, ao longo do caminho,
Faze do teu riso nossa chanson;
Que teu fulgor ofusque nossa dor,
E que o choro da chuva tombe sem som!

Buscando sempre o rastro recente
Rumo aos jardins do sol...
..............................................
Já celebrei mulheres em três cidades
Mas é tudo a mesma coisa.

E cantarei das aves alvas
Nas águas azuis do céu,
As nuvens, o borrifo de seu mar.



Ezra Pound
[Trad. M. Faustino]

MORTE





MORTE


Nem temor nem esperança tem
Um animal que morre.
Um homem que aguarda seu fim
Tudo espera e tudo teme.
Muitas vezes morreu,
Muitas vezes se ergueu.
Um grande homem em sua altivez
Ao confrontar assassinos
Lança um forte desdém
À falta de alento.
Ele sabe a morte até os ossos.
– Foi o homem quem criou a morte.


William Butler Yeats
[Trad. Marcello Chalvinski]




DEATH


Nor dread nor hope attend
A dying animal;
A man awaits his end
Dreading and hoping all;
Many times he died,
Many times rose again.
A great man in his pride
Confronting murderous men
Casts derision upon
Supersession of breath;
He knows death to the bone -
Man has created death.

William Butler Yeats




























SOZINHO COM TODO MUNDO



a carne cobre os ossos
e colocam uma mente
ali dentro e
algumas vezes uma alma,
e as mulheres quebram
vasos contra as paredes
e os homem bebem
demais
e ninguém encontra o
par ideal
mas seguem na
procura
rastejando para dentro e para fora
dos leitos.
a carne cobre
os ossos e a
carne busca
muito mais do que mera
carne.

de fato, não há qualquer
chance:
estamos todos presos
a um destino
singular.

ninguém nunca encontra
o par ideal.

as lixeiras da cidade se completam
os ferros-velhos se completam
os hospícios se completam
as sepulturas se completam

nada mais
se completa.





Charles Bukowski



FERIDA




fer
ida
sem
ferida
tudo
começa
de novo
a cor
cora
a flor
flora
o ir
vai
o rir
rói
o amor
mói
o céu
cai
a dor
dói




Augusto de Campos


GUERRA






Criança,
certos céus aguçaram minha ótica:
todos os caracteres matizaram minha fisionomia.
Os fenômenos me emocionaram.
— Hoje, a inflexão eterna dos momentos
e o infinito das matemáticas
me perseguem por este mundo
onde suporto todos os sucessos civis,
respeitado pela infância estranha
e por imensos carinhos.
— Sonho com uma Guerra,
de direito ou de força,
com uma lógica nada previsível.
Tão simples quanto uma frase musical.








Arthur Rimabud - Iluminuras

ENVOI



Vai, livro natimudo,
E diz a ela
Que um dia me cantou essa canção de Lawes:
Houvesse em nós
Mais canção, menos temas,
Então se acabariam minhas penas,
Meus defeitos sanados em poemas
Para fazê-la eterna em minha voz

Diz a ela que espalha
Tais tesouros no ar,
Sem querer nada mais além de dar
Vida ao momento,
Que eu lhes ordenaria: vivam,
Quais rosas, no âmbar mágico, a compor,
Rubribordadas de ouro, só
Uma substância e cor
Desafiando o tempo.

Diz a ela que vai
Com a canção nos lábios
Mas não canta a canção e ignora
Quem a fez, que talvez uma outra boca
Tão bela quanto a dela
Em novas eras há de ter aos pés
Os que a adoram agora,
Quando os nossos dois pós
Com o de Waller se deponham, mudos,
No olvido que refina a todos nós,
Até que a mutação apague tudo
Salvo a Beleza, a sós.





EZRA POUND
[TRAD. AUGUSTO DE CAMPOS]

ILUMINURAS








SONETO


Homem de constituição ordinária, não era a carne o fruto suspenso no jardim, ó dias infantis! o corpo, um tesouro para se desperdiçar; ó amar, perigo ou poder de Psique? A terra continha encostas férteis em príncipes e artistas, e a descendência e a raça nos levando a crimes e lutos: ó mundo, vossa fortuna e vosso risco. Mas agora, obra acabada, você, seus cálculos, você, suas impaciências, não são mais que vossa dança e vossa voz, nem fixas nem forçadas, ainda que um duplo evento de invenção e de sucesso uma razão, na humanidade fraterna e discreta, pelo universo sem imagens; — a força e o direito refletem a dança e a voz, somente agora apreciadas.




Arthur Rimbaud

DO LIVRO DO DESASSOSSEGO






(Excerto)




"Considero a vida uma estalagem onde tenho que me demorar até que chegue a diligência do abismo. Não sei onde me levará, porque não sei nada. Poderia considerar esta estalagem uma prisão, porque estou compelido a aguardar nela; poderia considerá-la um lugar de sociáveis, porque aqui me encontro com outros. Não sou, porém, nem impaciente nem comum. Deixo ao que são os que se fecham no quarto, deitados moles na cama onde esperam sem sono; deixo ao que fazem os que conversam nas salas, de onde as músicas e as vozes chegam cómodas até mim. Sento-me à porta e embebo meus olhos e ouvidos nas cores e nos sons da paisagem, e canto lento, para mim só, vagos cantos que componho enquanto espero. Para todos nós descerá a noite e chegará a diligência. Gozo a brisa que me dão e a alma que me deram para gozá-la, e não interrogo mais nem procuro. Se o que deixar escrito no livro dos viajantes puder, relido um dia por outros, entretê-los também na passagem, será bem. Se não o lerem, nem se entretiverem, será bem também."











Bernardo Soares
(heterônimo de Fernando Pessoa)


INCONSTÂNCIA DOS BENS DO MUNDO




Nasce o Sol, e não dura mais que um dia,
Depois da Luz se segue a noite escura,
Em tristes sombras morre a formosura,
Em contínuas tristezas a alegria.
Porém, se acaba o Sol, por que nascia?
Se é tão formosa a Luz, por que não dura?
Como a beleza assim se transfigura?
Como o gosto da pena assim se fia?
Mas no Sol, e na Luz falte a firmeza,
Na formosura não se dê constância,
E na alegria sinta-se tristeza.
Começa o mundo enfim pela ignorância,
E tem qualquer dos bens por natureza
A firmeza somente na inconstância.



Gregório de Matos

A AMADA




Ventura, que iguala aos deuses,
Em meu conceito, desfruta
Quem, junto de ti sentada,
As doces falas te escuta,
Goza teu mago sorrir.
Quando imagino em tal gosto
É minha alma um labirinto;
Expira-me a voz nos lábios;
Nas veias um fogo sinto;
Sinto os ouvidos zunir.
Gelado suor me inunda;
O corpo se me arrepia;
Foge-me as cores do rosto,
Como ao vir da quadra fria
Entra a folha a desmaiar.
Respiro a custo, e já cuido
Que se esvai a doce vida!
Arrisquemo-nos a tudo...
Contra uma angústia insofrida
Tudo se deve tentar.




Safo, de Lesbos

CONTO



Um Príncipe se aborrecia por só se dedicar a perfeição de generosidades vulgares. Ele previa estonteantes revoluções do amor, e desconfiava que suas mulheres pudessem bem mais que uma complacência enfeitada de céu e luxo.
Queria ver a verdade, a hora do desejo e da satisfação essenciais. Fosse ou não uma aberração de piedade, ele queria. Pelo menos ele tinha um grande poder humano.
Todas as mulheres que o conheceram foram assassinadas. Saque no jardim da beleza! Sob o sabre, elas o abençoaram. Ele nem encomendava outras.
— As mulheres reapareciam.
Ele matou todos que o seguiam, depois da caça ou das librações.
— Todos o seguiam.
Ele se divertiu degolando os bichos de luxo. Mandou incendiar palácios. Avançava nas pessoas e as decepava em pedaços. — A multidão, os telhados dourados, bichos bonitos, ainda existiam.
Pode alguém se extasiar na destruição, rejuvenescer na crueldade! O povo não murmurou. Ninguém se ofereceu ao concurso de suas vistas.
Uma noite ele cavalgava confiante. Um Gênio surgiu, beleza inefável, inconfessável mesmo. De sua fisionomia e sua presença emanava a promessa de um amor múltiplo e complexo! De alegria inominável, insuportável mesmo! O Príncipe e o Gênio se aniquilaram, quem sabe, em saúde essencial.
Como não morreriam disso? Eles, enfim, morreram juntos.
Mas o Príncipe morreu, em seu palácio, numa idade normal. O Príncipe era o gênio. O Gênio era o Príncipe.
Ao nosso desejo falta a música sábia.

Iluminuras
Artur Rimbaud

A CEIFEIRA SOLITÁRIA




ela no campo vi:
solitária de altas serras,
ceifa e canta para si.
Não digas nada, que a aterras!
Sozinha ceifa no mundo
E canta melancolia.
Escuta: o vale profundo
Transborda-a de harmonia.

Nunca um rouxinol cantou
em sombras da Arábia ardente
ao que exausto repousou
mais grata canção dolente;
ou gorjeio tão extremado
se escutou na Primavera,
cortando o Oceano calado
entre ilhas de Além-Quimera.


Quem me dirá do que canta?
Será que o que ela deplora
é antigo, triste e distante,
como batalhas de outrora?
Ou coisas simples são
do quotidiano viver?
Essas dores de coração,
que já foram e hão-de ser?


Seja o que for que cantara
é como infindo cantar,
que a vi cantando na seara,
no trabalho de ceifar.
Sem falar, quieto, eu escutava
e, quando o monte subia,
no coração transportava
o canto que não se ouvia






William Wordsworth

A LUZ IRROMPE ONDE NENHUM SOL BRILHA





A luz irrompe onde nenhum sol brilha
onde não se agita qualquer mar, as águas do coração
impelem as suas marés
e, destruídos fantasmas com o fulgor dos vermes nos cabelos,
os objectos da luz
atravessam a carne onde nenhuma carne reveste os ossos.

Nas coxas, uma candeia
aquece as sementes da juventude e queima as da velhice
onde não vibra qualquer semente,
arredonda-se com o seu esplendor e junto das estrelas
o fruto do homem;
onde a cera já não existe, apenas vemos o pavio de uma candeia.

A manhã irrompe atrás dos olhos
e da cabeça aos pés desliza tempestuoso o sangue
como se fosse um mar
sem ter defesa ou protecção, as nascentes do céu
ultrapassam os seus limites
ao pressagiar num sorriso o óleo das lágrimas.

A noite, como uma lua de asfalto,
cerca na sua órbita os limites dos mundos;
o dia brilha nos ossos
onde não existe o frio, vem a tempestade desoladora abrir
as vestes do inverno
a teia da primavera desprende-se nas pálpebras.

A luz irrompe em lugares estranhos,
nos espinhos do pensamento onde o seu aroma paira sob a chuva
quando a lógica morre,
o segredo da terra cresce em cada olhar
e o sangue precipita-se no sol
sobre os campos mais desolados, detém-se o amanhecer.




DYLAN THOMAS

[TRAD.: FERNANDO GUIMARÃES]

E SE EU DISSER


E se eu disser que te amo - assim, de cara,
sem mais delonga ou tímidos rodeios,
sem nem saber se a confissão te enfara
ou se te apraz o emprego de tais meios?
E se eu disser que sonho com teus seios,
teu ventre, tuas coxas, tua clara
maneira de sorrir, os lábios cheios
da luz que escorre de uma estrela rara?
E se eu disser que à noite não consigo
sequer adormecer porque me agarro
à imagem que de ti em vão persigo?
Pois eis que o digo, amor. E logo esbarro
em tua ausência - essa lâmina exata
que me penetra e fere e sangra e mata.




IVAN JUNQUEIRA

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Tira-gosto

Um Poema ao Acaso

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