O GUARDADOR DE ÁGUAS






I
O aparelho de ser inútil estava jogado no chão, quase
coberto de limos -
Entram coaxos por ele dentro.
Crescem jacintos sobre palavras.
(O rio funciona atrás de um jacinto.)
Correm águas agradecidas sobre latas...
O som do novilúnio sobre as latas será plano.
E o cheiro azul do escaravelho, tátil.
De pulo em pulo um ente abeira as pedras.
Tem um cago de ave no chapéu.
Seria um idiota de estrada?
Urubus se ajoelham pra ele.
Luar tem gula de seus trapos.
II
Esse é Bernardo. Bernardo da Mata. Apresento.
Ele faz encurtamento de águas.
Apanha um pouco de rio com as mãos e espreme nos vidros
Até que as águas se ajoelhem
Do tamanho de uma lagarta nos vidros.
No falar com as águas rás o
exercitam.
Tentou encolher o horizonte
No olho de um inseto - e obteve!
Prende o silêncio com fivela.
Até os caranguejos querem ele para chão.
Viu as formigas carreando na estrada 2 pernas de ocaso
para dentro de um oco... E deixou.
Essas formigas pensavam em seu olho.
É homem percorrido de existências.
Estão favoráveis a ele os camaleões.
Espraiado na tarde -
Como a foz de um rio - Bernardo se inventa...
Lugarejos cobertos de limo o imitam.
Passarinhos aveludam seus cantos quando o vêem.
V
Eles enverdam jia nas auroras.
São viventes de ermo. Sujeitos
Que magnificam moscas - e que oram
Devante uma procissão de formigas...
São vezeiros de brenhas e gravanhas.
São donos de nadifúndios.
(Nadifúndio é lugar em que nadas
Lugar em que osso de ovo
E em que latas com vermes emprenhados na boca.
Porém.
O nada destes nadifúndios não alude ao infinito menor
de ninguém.
Nem ao Néant de Sartre.
E nem mesmo ao que dizem os dicionários:
coisa que não existe.
O nada destes nadifúndios existe e se escreve com letra
minúscula.)
Se trata de um trastal.
Aqui pardais descascam larvas.
Vê-se um relógio com o tempo enferrujado dentro.
E uma concha com olho de osso que chora.
Aqui, o luar desova...
Insetos umedecem couros
E sapos batem palmas compridas...
Aqui, as palavras se esgarçam de lodo.
VIII
Idiotas de estradas gostam de urinar em morrinhos de
formigas. Apreciam de ver as formigas correndo de
um canto para o outro, maluquinhas, sem calças, como
crianças. Dizem eles que estão infantilizando as
formigas. Pode ser.
XX
Com 100 anos de escória uma lata aprende a rezar.
Com 100 anos de escombros um sapo vira árvore e cresce
por cima das pedras até dar leite.
Insetos levam mais de 100 anos para uma folha sê-los.
Uma pedra de arroio leva mais de 100 anos para ter murmúrios.
Em seixal de cor seca estrelas pousam despidas.
Mariposas que pousam em osso de porco preferem melhor
as cores tortas.
Com menos de 3 meses mosquitos completam a sua
eternidade.
Um ente enfermo de árvore, com menos de 100 anos, perde
o contorno das folhas.
Aranha com olho de estame no lodo se despedra.
Quando chove nos braços da formiga o horizonte diminui.
Os cardos que vivem nos pedrouços têm a mesma sintaxe
que os escorpiões de areia.
A jia, quando chove, tinge de azul o seu coaxo.
Lagartos empernam as pedras de preferência no inverno.
O vôo do jaburu é mais encorpado do que o vôo das horas.
Besouro só entra em amavios se encontra a fêmea dele
vagando por escórias...
A 15 metros do arco-íris o sol é cheiroso.
Caracóis não aplicam saliva em vidros; mas, nos brejos,
se embutem até o latejo.
Nas brisas vem sempre um silêncio de garças.
Mais alto que o escuro é o rumor dos peixes.
Uma árvore bem gorjeada, com poucos segundos, passa a
fazer parte dos pássaros que a gorjeiam.
Quando a rã de cor palha está para ter - ela espicha os
olhinhos para Deus.
De cada 20 calangos, enlanguescidos por estrelas, 15 perdem
o rumo das grotas.
Todas estas informações têm uma soberba desimportância
científica - como andar de costas.


MANUEL DE BARROS
Fonte: www.jornaldepoesia.jor.br

LONGE DENTRO DE NÓS - I







Levantamos nossos braços

A rua sobe ao céu

Baixamos nossos olhos

Os telhados descem à terra



De todas as dores

Não mencionamos

Um castanheiro que cresce

E permanece misterioso atrás de nós



De toda a esperança

Nós apreciamos

Os brotos de uma estrela

Que se move inatingível diante de nós



Você pode ouvir uma bala

Voando sobre nossas cabeças

Você pode ouvir uma bala

Esperando para emboscar o nosso beijo









Poema: Vasko Popa
Traduzido a partir do Inglês p/ M. Chalvinski
- Fonte: http://www.sanjeev.net/poetry/
Arte: Tom Colbie

QUANDO MEU AMOR VEM ME VER É




quando meu amor vem me ver é
um pouco como a música, um
pouco mais como uma cor curvando-se (digamos
laranja)
contra o silêncio, ou as trevas...

a vinda do meu amor lança
um maravilhoso 
odor em minha mente,

devias ver quando a encontro
como meu menor batimento cardíaco diminui.
E então toda a sua beleza é um torno

cujos lábios calmos matam-me de repente,

mas do meu cadáver a sua ferramenta-sorriso faz algo
subitamente luminoso e preciso

E então somos eu e ela...

que é isso o que o realejo toca





E.E. Cummings
[Tradução: Marcello Chalvinski]

OS ALIENÍGENAS





você pode não acreditar
mas há pessoas
que passam pela vida com
pouquíssimos
atritos

ou angústias. 

elas se vestem bem, comem

bem, dormem bem. 
elas estão contentes com
sua vida 
familiar.
elas têm momentos de

perturbação
mas apesar de tudo
elas são imperturbáveis
e geralmente se sentem
muito bem.
e quando elas morrem
é uma morte

fácil, geralmente
dormindo.

você pode não acreditar

nelas 
mas tais pessoas 
existem. 

porém não sou uma 
delas. 
oh não, eu não sou uma
delas, 
eu não estou nem perto 
de ser 
uma
delas. 
mas elas estão
lá. 

e eu estou 
aqui. 






Poema:
CHARLES BUKOWSKI - A Última Noite dos Poemas da Terra
Tradução: Marcello Chalvinski
Arte: Tom Colbie

THÁLASSA, THÁLASSA!




1. Não sabemos do Mar.
O Mar varonil com seus testículos de ouro
O Mar com seu coração cardial de folhas verdes
E suas imensas brânquias de peixe aprisionado
O Mar, não esse que dá as nossas costas
Pantera de espuma que as mulheres domesticam
Em suas redes de látex
Rei de Bizâncio e unguento movendo entre as esposas
As mãos manicuradas.
Não sabemos do Mar
O dia nos confina entre a pobre matéria da madeira calada
Entre os pássaros ocos, os cavalos de força e a mucosa eletrônica
E à noite adoramos ao Sol de Galatite e o Poderoso Às de Espadas
Enquanto os cinocéfalos correm sobre os nossos telhados
Aguardando a mulher
Nua que há de aparecer com seus pequenos seios
Bela como o almíscar, que rói as pituitárias
E as zibelinas que mortas em torno de suas nádegas de prata.

2. Não sabemos do Mar.
Ó trombeta de osso!
Pífaros surdos emboscados na areia!
_ Um pássaro que se perdeu no  céu de celofane
Esquece o seu grito de gaivota marinha.
É aqui a morte de  sete- palmos- de- terra
E tríplice coroa de chumbo sobre a fronte
A morte, o grande cão montando um asno negro
E tangendo à sua frente os zabumbas do luto.
É aqui a terra firme e os navios ancorados
A Madeira-de-lei e as construções de pedra
_ O homem que lê a sorte nas vísceras sagradas
Suspende à sua porta o bucrânio dos loucos.
... E falam de uma Cidade antiga
Como essa moeda de argila
E viva como o odor dessa rosa.
Dos seus mercados onde se bebia o vinho de lótus
Dos seus destinos confinados a
Anciãos de barbas de papirus
De suas leis, de seus Deuses, e de suas
Virgens, seus Reis: E o imenso dique de pedra erguido por seu povo
Para deter o Mar _ São essas torres de prata que vemos à vasa da maré
E Ele agora a recobre como um verde morcego
Recolhendo a membrana das asas e às avessas
Suspenso
Como um verde morcego em sua sesta lunar.

3. Eu também praticando os Ritos Fúnebres da Rosa
Quando os amigos – Os templários de um mistério sem templo –
Cruzam as lanças e se afastam num adeus melancólico
Eu nada sei do Mar, mas o poema o supre,
E um escaravelho de esmeralda pousado em minha fronte
Fala-me em sua rude algaravia marítima:
_ O Mar, Galo Sultão com seu clarim de Espanha
Seu triunfo de trezentos potros de ametista
Quando belo e animal rói as próprias entranhas
E um punho de sal se abate no horizonte.
_ O Mar em seu decúbito dorsal de folhas verdes
Sargão de uma longínqua dinastia de púrpura
Dom Diniz lavrador de suas lavras de espuma
Falconeiro, e no ombro o seu falcão – a lua.
_ O Mar,
Não esse leão de pedraria que dá as nossas praias Sol hidrópico, tigre
De tornassol que as mulheres amansam com o triângulo
Núbil em seu ventre de benjoin e eletro- imã.
_ O Mar, mancebo hirsuto Com peixe nas virilhas
_ O Mar, coração cardial
Crivado de espadartes
E no peito de dura substânciamarinha
Como imensa tatuagem a fósforo e santelmo
O esqueleto de coral de todos os seus mortos.

4. E um menino ergue-se entre os homens e senta-se entre os sábios
(Teu signo, ó mistério, o carbúnculo sobre a testa dos linces!)
Um menino de orfandade magnífica, como o ultimo de uma raça.
Entre o povo das cavernas, o povo da terra firme
Os Comedores-de-terra
Cujos primogênitos apodrecem em cântaros de barro
E são os deuses-do-alicerce, os padroeiros, os lares
Das Construções-de-pedra e dos Bens-de-raiz.
Um menino sentado entre os sábios e erguido entre os homens!
O Bastardo, o Herdeiro Presuntivo de uma Linguagem a extinguir-se (como os híbridos nas espécies carregando a semente infecunda)
E fala do Mar e de ancestrais de límpida Geração marinha
Aos doutores que escrevem sobre placas de adobe
As mulheres que tingem as unhas dos pés com um esmalte de múrex
E a um homem que enterra os seus mortos nas manhãs de domingo
Colocando-lhes sob a língua uma pequena moeda
E recheando-lhes o ventre de natrão e especiarias.

5. Um menino e sua fronte
Como a asa de um pássaro de marfim
Um menino, e sua voz como a têmpera de uma espada
E uma isolação de vogais restaurando a língua-de-d’oc dos vaticínios!

6. _Tu, Deusa-Leoa
Ó morte de esporões de bronze
- Morte marítima, não essa de Sete Palmos de terra...-
Ergue o tridente de ouro, favorece
Também os alísios do Poema.
Virgem barroca, figura
Na proa dos navios
Sacode a cabeleira abissal perfumada de pólipos
Quando o Mar almirante te empolga e o tatuas no peito
Com o esqueleto de coral de todos os seus mortos.
Sustém a andança do Poema, ó Favorita,
De fúnebre nudez sitiada por eunucos
Enquanto sobre Ti os dátilos claros como digitális
Se abrem
E nada à Tua ilharga o cardume aguerrido dos delfins.
_ E TU, Árvore da Linguagem,
Mão do Verbo
Cujas raízes se prendem no umbigo do Mar
Ergue Tua copa incendiada de dialetos
Onde a Ave-do-Paraíso é um Íris de Aliança
E a Fênix devora os rubis de si mesma
Recebe este idioma castiço como um ouro votivo
E as primícias do Poema, novilhas não juguladas
Te sejam agradáveis! Tu, Mãe do verbo cercada de hespérides desnudas,
Cuja fala é sinistra qual a voz dos Oráculos,
E bífida como a língua dos dragões...

7. Um menino e seu canto
Como um
pouco de sal nos ritos de amizade...
...Mas um dia o Povo se cansará de ouvi-lo,
O Povo se cansará de chamá-lo “O Justo”!
(Nesse dia os telefones serão pássaros de gargantas ocas repetindo para sempre os nomes pérfidos do Exílio
E escorpiões domesticados devorarão a língua dos rouxinóis
Para que todos possam ouvir a irretrucável Dialética do Encéfalo Eletrônico).
 _ E como os Dez Mil que viram o Mar e disseram “O Mar”
_ E como o Doge de Arnês de prata no Bucentauro de núpcias
_ Ou essa criatura _ a medusa _ de pura substância marinha
Tão límpida que a retina não filtra – azul sem tara,
Um homem desce das Terras-Firmes e procura O Mar
_ O Mar varonil com seus testículos de ouro
_ O Mar paternal de tórax iracundo
E sonoros pulmões de búfalo encerrado,
E àquele imenso coração filial rodeado de ametistas.
_ É esse elmo de púrpura que vemos na vazante das águas. 






HAROLDO DE CAMPOS

O MAU SAMARITANO






Quantas vezes tenho passado perto de um doente, 

Perto de um louco, de um triste, de um miserável, 

Sem lhes dar uma palavra de consolo. 

Eu bem sei que minha vida é ligada à dos outros, 

Que outros precisam de mim que preciso de Deus 

Quantas criaturas terão esperado de mim 

Apenas um olhar – que eu recusei.






MURILO MENDES
In: A poesia em pânico. Rio de Janeiro, Cooperativa Cultural Guanabara, 1938.

CANÇÃO DE MIM MESMO





EU CELEBRO a mim mesmo,
E o que eu assumo você vai assumir,
Pois cada átomo que pertence a mim pertence a você.

Vadio e convido minha alma,
Me deito e vadio à vontade... observando uma lâmina de grama do verão.

Casas e quartos se enchem de perfumes
...as estantes estão entulhadas de perfumes,
Respiro o aroma eu mesmo, e gosto e o reconheço,
Sua destilação poderia me intoxicar também, mas não deixo.

A atmosfera não é nenhum perfume... não tem gosto de destilação... é inodoro,
É pra minha boca apenas e pra sempre... estou apaixonado por ela,
Vou até a margem junto à mata sem disfarces e pelado,
Louco pra que ela faça contato comigo.

A fumaça de minha própria respiração,
Ecos, ondulações, zunzuns e sussurros...
raiz de amaranto, fio de seda, forquilha e videira,
Minha respiração minha inspiração...
a batida do meu coração...
passagem de sangue e ar por meus pulmões,
O aroma das folhas verdes e das folhas secas,
da praia e das rochas marinhas de cores escuras, e do feno na tulha,
O som das palavras bafejadas por minha voz...
palavras disparadas nos redemoinhos do vento,
Uns beijos de leve... alguns agarros... o afago dos braços,
Jogo de luz e sombra nas árvores enquanto oscilam seus galhos sutis,
Delícia de estar só ou no agito das ruas, ou pelos campos e encostas de colina,
Sensação de bem-estar .... apito do meio-dia
...a canção de mim mesmo se erguendo da cama e cruzando com o sol.


Uma criança disse, O que é a relva? trazendo um tufo em suas mãos;
O que dizer a ela ?...sei tanto quanto ela o que é a relva.

Vai ver é a bandeira do meu estado de espírito,
tecida de uma substância de esperança verde.
Vai ver é o lenço do Senhor,
Um presente perfumado e o lembrete derrubado por querer,
Com o nome do dono bordado num canto,
pra que possamos ver e examinar, e dizer 
É seu ?


O blablablá das ruas .... rodas de carros e o
baque das botas e papos dos pedestres,
O ônibus pesado, o cobrador de polegar
interrogativo, o tinir das ferraduras dos
cavalos no chão de granito.
O carnaval de trenós, o retinir de piadas
berradas e guerras de bolas de neve ;
Os gritos de urra aos preferidos do povo ....
o tumulto da multidão furiosa,
O ruflar das cortinas da liteira — dentro um
doente a caminho do hospital,
O confronto de inimigos, súbito insulto, socos e quedas,
A multidão excitada — o policial e sua estrela
apressado forçando passagem até o centro da multidão;
As pedras impassíveis levando e devolvendo tantos ecos,
As almas se movendo .... será que são invisíveis
enquanto o mínimo átomo é visível ?
Que gemidos de glutões ou famintos que
esmorecem e desmaiam de insolação  ou de surtos,
Que gritos de grávidas pegas de surpresa,
correndo pra casa pra parir,
Que fala sepulta e viva vibra sempre aqui....
quantos uivos reprimidos pelo decoro,
Prisões de criminosos, truques, propostas
indecentes, consentimentos, rejeições de  lábios convexos,
Estou atento a tudo e as suas ressonâncias...
estou sempre chegando.


Sou o poeta do corpo,
E sou o poeta da alma.

Os prazeres do céu estão comigo,
os pesares doinferno estão comigo,
Aqueles, enxerto e faço crescer em mim mesmo
...estes, traduzo numa nova língua.

Sou o poeta da mulher tanto quanto do homem,
E digo que é tão bom ser mulher quanto serhomem,
E digo que não há nada maior que a mãe dos homens.


Vadio uma jornada perpétua,
Meus sinais são uma capa de chuva e sapatos
confortáveis e um cajado arrancado do mato ;
Nenhum amigo fica confortável em minha cadeira,
Não tenho cátedra, igreja, nem filosofia;
Não conduzo ninguém à mesa de jantar
ou à biblioteca ou à bolsa de valores,
Mas conduzo a uma colina cada homem e mulher entre vocês,
Minha mão esquerda enlaça sua cintura,
Minha mão direita aponta paisagens de continentes, e a estrada pública.

Nem eu nem ninguém vai percorrer essa estrada pra você,
Você tem que percorrê-la sozinho.

Não é tão longe assim .... está ao seu alcance,
Talvez você tenha andado nela a vida toda e não sabia,
Talvez a estrada esteja em toda parte sobre a água e sobre a terra.

Pegue sua bagagem, eu pego a minha, vamos em frente;
Toparemos com cidades maravilhosas e nações livres no caminho.

Se você se cansar, entrega os fardos, descansa a mão macia em meu quadril,
E quando for a hora você fará o mesmo por mim;
Pois depois de partir não vamos mais parar.



Walt Whitman

A ARTE DE SER FELIZ



Houve um tempo em que minha janela

se abria sobre uma cidade que parecia ser feita de giz.
Perto da janela havia um pequeno jardim quase seco.
Era uma época de estiagem, de terra esfarelada,
e o jardim parecia morto.Mas todas as manhãs vinha um pobre com um balde,
e, em silêncio, ia atirando com a mão
umas gotas de água sobre as plantas.Não era uma rega: era uma espécie de aspersão ritual,
para que o jardim não morresse.
E eu olhava para as plantas, para o homem,
para as gotas de água que caíam de seus dedos magros
e meu coração ficava completamente feliz.
Às vezes abro a janela e encontro o jasmineiro em flor.
Outras vezes encontro nuvens espessas.
Avisto crianças que vão para a escola.
Pardais que pulam pelo muro.
Gatos que abrem e fecham os olhos, sonhando com pardais.
Borboletas brancas, duas a duas,
como refletidas no espelho do ar.
Marimbondos que sempre me parecem personagens
de Lope de Vega.
Às vezes, um galo canta. Às vezes, um avião passa.
Tudo está certo, no seu lugar, cumprindo o seu destino.
E eu me sinto completamente feliz.
Mas, quando falo dessas pequenas felicidades certas,
que estão diante de cada janela,
uns dizem que essas coisas não existem,
outros que só existem diante das minhas janelas,
e outros, finalmente, que é preciso aprender a olhar,
para poder vê-las assim.










Cecília Meireles

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Tira-gosto

Um Poema ao Acaso

Porre de poesia

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