O ANJO QUE ENCONTREI



o anjo que encontrei

tinha um jeito próprio
de ser de outro modo
ela sabia muito bem
tudo o que eu não sei


seu olhar bastava

para perfumar toda uma vida
& sua língua destilava sílabas



capazes de deter balas perdidas




o anjo que encontrei
sangrava os pés quando dizia
que a consciência é apátrida
mas ainda assim sambava, sambava
sambava & sorria

& batia no peito com magia leve
(tinha um jeito próprio de ver a vida como se deve)


o anjo que en
contrei
levava sobre os ombros
uma canção que vibrava
ou talvez fossem
suas asas...

só sei

que era um anjo determinado:
acreditava em recomeços
mas sempre terminava o começado

M. Chalvinski
[- Brancaleone editores - 2013]

COBRA NORATO




(fragmentos)



I



Um dia
ainda eu hei de morar nas terras do Sem-Fim.


Vou andando, caminhando, caminhando;
me misturo rio ventre do mato, mordendo raízes.
Depois
faço puçanga de flor de tajá de lagoa
e mando chamar a Cobra Norato.


— Quero contar-te uma história:
Vamos passear naquelas ilhas decotadas?
Faz de conta que há luar.


A noite chega mansinho.
Estrelas conversam em voz baixa.


O mato já se vestiu.
Brinco então de amarrar uma fita no pescoço
e estrangulo a cobra.


Agora, sim,
me enfio nessa pele de seda elástica
e saio a correr mundo:


Vou visitar a rainha Luzia.
Quero me casar com sua filha.


— Então você tem que apagar os olhos primeiro.
O sono desceu devagar pelas pálpebras pesadas.
Um chão de lama rouba a força dos meus passos.



II



Começa agora a floresta cifrada.
A sombra escondeu as árvores.
Sapos beiçudos espiam no escuro.


Aqui um pedaço de mato está de castigo.
Árvorezinhas acocoram-se no charco.
Um fio de água atrasada lambe a lama.


— Eu quero é ver a filha da rainha Luzia!


Agora são os rios afogados,
bebendo o caminho.
A água vai chorando afundando afundando.


Lá adiante
a areia guardou os rastos da filha da rainha Luzia.


— Agora sim, vou ver a filha da rainha Luzia!


Mas antes tem que passar por sete portas
Ver sete mulheres brancas de ventres despovoados
guardadas por um jacaré.


— Eu só quero a filha da rainha Luzia.


Tem que entregar a sombra para o bicho do fundo
Tem que fazer mironga na lua nova.
Tem que beber três gotas de sangue.


— Ah, só se for da filha da rainha Luzia!


A selva imensa está com insônia.


Bocejam árvores sonolentas.
Ai, que a noite secou. A água do rio se quebrou.
Tenho que ir-me embora.


E me sumo sem rumo no fundo do mato
onde as velhas árvores grávidas cochilam.


De todos os lados me chamam:
— Onde vai, Cobra Norato?
Tenho aqui três árvorezinhas jovens, à tua espera.


— Não posso.
Eu hoje vou dormir com a filha da rainha Luzia.



IV



Esta é a floresta de hálito podre,
parindo cobras.


Rios magros obrigados a trabalhar.


A correnteza arrepiada junto às margens
descasca barrancos gosmentos.


Raízes desdentadas mastigam lodo.


A água chega cansada.
Resvala devagarinho na vasa mole
com medo de cair.


A lama se amontoa.


Num estirão alagado
o charco engole a água do igarapé.


Fede...


Vento mudou de lugar.


Juntam-se léguas de mato atrás dos pântanos de aninga.
Um assobio assusta as árvores.


Silêncio se machucou.


Cai lá adiante um pedaço de pau seco:
Pum


Um berro atravessa a floresta.


Correm cipós fazendo intrigas no alto dos galhos.
Amarram as árvorezinhas contrariadas.


Chegam vozes.


Dentro do mato
pia a jurucutu.


— Não posso.
Eu hoje vou dormir com a filha da rainha Luzia.



XXXII



— E agora, compadre,
eu vou de volta pro Sem-Fim.


Vou lá para as terras altas,
onde a serra se amontoa,
onde correm os rios de águas claras
em matos de molungu.


Quero levar minha noiva.
Quero estarzinho com ela
numa casa de morar,
com porta azul piquininha
pintada a lápis de cor.


Quero sentir a quentura
do seu corpo de vaivém.
Querzinho de ficar junto
quando a gente quer bem, bem;


Ficar à sombra do mato
ouvir a jurucutu,
águas que passam cantando
pra gente se espreguiçar,


E quando estivermos à espera
que a noite volte outra vez
eu hei de contar histórias
(histórias de não-dizer-nada)
escrever nomes na areia
pro vento brincar de apagar.






Raul Bopp

(Fonte: http://www.jornaldepoesia.jor.br/rb.html#cobra )

UMA PRECE PELA MINHA FILHA



Desaba a tempestade outra vez; 
escondida
Sob os mantos e os véus do berço, adormecida, 
Minha filha. Nenhuma outra barreira existe, 
Senão a mata espessa e uma colina triste, 
Contra o vento que vem do Atlântico potente, 
Abatendo o celeiro e os tetos, quando solto; 
E há uma hora já que rezo e vou e volto, 
Pois é grande a apreensão em minha mente. 

Há uma hora já que estou a rezar, indo e vindo,

A ouvir a ventania ao longe produzindo 
Contra a torre ou na ponte o seu forte assobio, 
Ou sobre os olmos, na distância, além do rio. 
Num devaneio inquieto, eu fico a imaginar 
Que o futuro chegou e agora vem, surgido – 
A dançar num frenético alarido – 
Da inocência mortífera do mar. 


Que ela tenha beleza, e entanto que não seja

A ponto de causar o alheio espanto e a inveja, 
Ou o seu próprio perante o espelho, pois todo esse 
Que a beleza cumula e dota se envaidece, 
E a toma por um fim em si mesma ou um bem, 
Perdendo a natural bondade e muita vez 
Toda a espontaneidade e singelez 
Que escolhe certo – e vive sem ninguém. 

Helena, a eleita, por estar aborrecida 
Foi ao lado de um tolo estragar sua vida, 
Enquanto a outra imortal Rainha, que nasceu 
Do imenso mar, sem pai, por homem elegeu 
Um feioso artesão coxo e de pernas tortas. 
Belas mulheres vão às vezes misturar 
Uma salada louca ao seu manjar 
Tão logo a Cornucópia esteja à porta. 

Na cortesia é que eu a pretendera exímia; 
Os corações não são prendas: mas pela estima 
Vence-os quem não é tão bonito; e quem bancou 
O bobo e da beleza em si se enamorou, 
Tornou-o sábio a graça interior; mais de um crente 
Que, pobre, pelo mundo andou perambulando, 
Amando muito e amado se julgando, 
A bondade o conquista certamente. 


Que ela uma árvore seja a florir escondida,

E seja o seu pensar uma ave agradecida, 
Ocupada somente em exercer o dom 
De espargir ao redor um magnânimo som, 
E alegremente saia em busca do alimento 
E, mesmo querelando, o faça alegremente. 
Oh, seja como o verde louro, assente 
Num perpétuo lugar do sentimento. 


Minha mente, devido às mentes que eu amei,

Ao tipo de beleza em que me deleitei, 
Bem pouco prosperou, secou, e agora sabe 
Que sufocar em ódio é coisa que não cabe, 
Que de tudo o que é mau é sempre o mal maior. 
Se não deixarmos o ódio entrar em nossa mente, 
Por mais que o vento se levante e tente, 
Não cai da folha o pássaro cantor. 


De todos o pior é o ódio intelectual;

Então que ela aborreça opiniões. Afinal 
Não vi também mulher, entre todas amável 
Que no mundo deitou o Corno inesgotável, 
Pela simples razão de um cérebro opinioso 
trocar aquele chifre e os bens que ele contém, 
Como os de índole humilde sabem bem, 
Por velho fole e vento furioso? 


Considerando assim, toda ira dominada,

Sua inocência tem a alma reconquistada 
E aprende que a inocência em si se delicia, 
Em si se apazigua, e a si se policia, 
E que ela quer somente aquilo que o Céu quis; 
Ela pode – por mais que o outro franza o cenho, 
Por mais que o vento muja e faça empenho 
E cada fole sopre – ser feliz. 


E então para uma casa a leve o seu esposo,

Para um viver regrado e cerimonioso, 
Pois soberba e rancor são más mercadorias 
Que se podem comprar nos becos e nas vias. 
Senão na cerimônia e no costume, como 
Pode haver inocência e florescer a graça? 
Cerimônia, eis o nome dessa taça, 
E o verde louro chama-se costume.






William Butler Yeats
[Trad.: Renato Suttana]

A DURAÇÃO




Uma folha amarfanhada
de papel pardo mais
ou menos do tamanho

e volume aparente
de um homem ia
devagar rua abaixo

arrastada aos trancos
e barrancos pelo
vento quando

veio um carro e Ihe
passou por cima
deixando-a aplastada

no chão. Mas diferente
de um homem ela se ergueu
de novo e lá se foi

com o vento aos trancos
e barrancos para ser
o mesmo que era antes.



WILLIAM CARLOS WILLIAMS
[TRAD: José Paulo Paes]

SÓ BRIO









entre o cântaro vazio e a pantera

no cio

ouve-se a voz sonora de Baco:

- poeta que se leva muito


a sério

não confia no próprio taco








Lúcia Santos

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Tira-gosto

Um Poema ao Acaso

Porre de poesia

abismo Acaso aço Advertência aeroporto ali Alma alphonsus de guimaraens. poesia Amor Animal Anjo anjos anoitecer Apolo Apóstolo Aqui arcanjos Asas Assassinos aurélio ausência azul babélico baile Balas bananas Bar Barulho baudelaire beatnik Bela Beleza Bélica Bem Bukowski cabeça Caldeus cama Campo canções caos Carne ccinamomo cérebro cereja céu Chalvinski chamas chifre chuva cidade Cisne cocaína coisa Conto controle Coração Corte cristão culpa Desejo Destino devaneio Diamante diligência Dilúvio Dor drogas DYLAN THOMAS em qualquer lugar... Energia enforcado escuridão esmeralda espaço espírito estalagem estrelas Estupro étude explicação FANTASMAS Feminil feras ferida fernando pessoa Fim flor flores Floresta fogo futuro Gelo gênio geração ginsberg Gregório de Matos guerra hai cai Haroldo de Campos Herói horror humo ida Iluminuras Infância inflexão ingles Introspecção jack daniel's JARDIM jazz JOGO Jorge Luis Borges lábios lágrima lama Lamento Canção lâmina lápides Leda and the swan Leminski Liberdade Linda litanias livro Lixo Longe LOUCO loucura Lua cheia LUZ Mal manifesto Manoel de Barros Manuel de Barros MÃOS Mar mariposa mel menina mesma coisa Misandria Morrer Morte mulher Murilo Mendes música nada Não Noite Nudez Oceano Octavio Paz olhar olhos Ossos ótica Paixão peixeira Pensamento Piano piedade plano planta poder POEMA Poesia poesia brasileira Poeta Ponte prazer Primavera príncipe Prosa punhal Quimera Rainha Rapariga Rilke Rimbaud riso Rua Sabbath Safo Saias Sangue Saudade seios semideuses cheios de graça sentido Sentimento sepultura ser Sexo Silêncio sizígia sol Solidão sonho SORTE sucesso suicídio Suíno tarot Tempestade temporal topázios Torpeza Torre tragédias de malandros Tristeza Trovão Uísque Ur Vasko Popa vermelho Verso Vício Vinicius de Moraes Viver Walt Whitman Zeppelin Zeus

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