ENCURRALADO




bem, eles diziam que tudo terminaria
assim: velho. o talento perdido. tateando às cegas em busca
da palavra

ouvindo os passos
na escuridão, volto-me
para olhar atrás de mim…

ainda não, velho cão…
logo em breve.

agora
eles se sentam falando sobre
mim: “sim, acontece, ele já
era… é
triste…”

“ele nunca teve muito, não é
mesmo?”

“bem, não, mas agora…”

agora
eles celebram minha derrocada
em tavernas que há muito já não
frequento.

agora
bebo sozinho
junto a essa máquina que mal
funciona

enquanto as sombras assumem
formas

combato retirando-me
lentamente

agora
minha antiga promessa
definha
definha

agora
acendendo novos cigarros
servido mais
bebidas

tem sido um belo
combate

ainda
é.



Charles Bukowski

[Trad: Pedro Gonzaga]
[Arte: Tom Colbie]

OS DESLIMITES DA PALAVRA






Ando muito completo de vazios.
Meu órgão de morrer me predomina.
Estou sem eternidades.
Não posso mais saber quando amanheço ontem.
Está rengo de mim o amanhecer.
Ouço o tamanho oblíquo de uma folha.
Atrás do ocaso fervem os insetos.
Enfiei o que pude dentro de um grilo

o meu destino.
Essas coisas me mudam para cisco.
A minha independência tem algemas






Poema: Manoel de Barros

Arte: Tom Colbie

QUIMERA




Não vês, menina, o outono
desfolhar a minha vida?
Sonhos desfeitos em abandono,
longa estrada percorrida?
E me vens assim tão destemida
dizer que amas a minha solidão,
tu, quase menina ainda,
a oferecer-me pétalas de ilusão.
Mal sabes do que é feito
um poeta já sem inspiração,
desencantado de sonetos,
tantas cicatrizes no coração.
Vais, esquece essa quimera:
tu és o amanhã, o sonho;
eu, o que não mais se espera –
não pode, meu amor, o outono
abraçar a primavera.





Alex Brasil

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Tira-gosto

Um Poema ao Acaso

Porre de poesia

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