SETE ESTROFES PARA ALÉM DA FALA







1.
para voltar a ser anjo
é preciso perder a alma
não há outra saída
a imortalidade
é tão cruel
quanto a vida

2.
minhas palavras
gotejam em tua boca
& por um momento
nuvens mínimas
umedecem
as asas íntimas
do teu pensamento

3.
mulher do fim do mundo
que rega as roseiras da primavera
chama-me do sono profundo
livra-me de todos os infernos
& prende-me a esta era
em que teu canto noturno
é capaz de aquecer toda a terra

3.
não voltarei a ser anjo
prefiro essa alma ébria,
incompleta centelha
que se deixa arrastar
por metáforas incompletas
& bebe verbosa
nos bares da cidade velha

4.
sim! entorpeço-me de horror
& maravilhas
sim! entorpeço-me
pois preciso do teu calor
& do teu brilho
é nesse estado de coisas
que os verbos perdem o siso
& os substantivos ganham delírio

5.
enlevadas pelo teu olhar
as pedras agora podem mostrar
sua verdadeira face
a nós dois, audazes
& também à manada dos normais
elas se desprendem das ruas
& flutuam não muito alto
com engenhos tais
que formam novos becos, ágoras & vielas
para que possamos enfim
de mãos dadas
caminhar sobre elas

6.
abraçadas a uma sombra única
as nuvens se aproximam
& entram por tua boca úmida
mas nuvens & sombras são incapazes
de deter o teu sorriso iluminado
ou de evitar o brilho esfomeado
desses teus olhos vorazes
olhos que atravessavam pelos cabelos
& sorrateiros miram disfarçados
como um felino de finos pelos
em meio à selva camuflado

7.
agora
enquanto por tua boca falo
na velocidade plástica do cinema
percebes que meu sonho persiste
em seu sólido sistema
quero em mim esse olhar que afeta
esse par de olhos que assiste
silencioso à escrita que me faz poeta
musa, alma gêmea, fêmea dileta, noema
alitera-me a imaginação & me completa
com tudo que há do outro lado do poema







Poema: Marcello Chalvinski
Arte: Tom Colbie


O VAGALUME





Eu fiz um pacto com a prostituição a fim de semear a desordem entre as famílias. Recordo-me da noite que precedeu essa perigosa ligação. Vi um túmulo à minha frente. Ouvi um vagalume, do tamanho de uma casa, que dizia: “Vou iluminar-te. Lê a inscrição. Não é de mim que parte essa ordem suprema.” Uma imensa luz cor de sangue, diante da qual meus maxilares bateram e meus braços caíram inertes, espalhou-se pelos ares até o horizonte. Apoiei-me a um muro em ruínas, pois estava quase caindo, e li: “Aqui jaz um adolescente que morreu tuberculoso: sabeis o motivo. Não oreis por ele.” Talvez muitos homens não tenham sido tão corajosos como eu. Enquanto isso, uma linda mulher nua veio deitar-se a meus pés. Eu, para ela, com uma expressão triste: “Podes levantar-te”. Estendi-lhe a mão com a qual a fratricida estrangulou a irmã. O vagalume, para mim: “Tu, pega uma pedra e mata-a.” “Por quê?”, disse-lhe eu. Ele, para mim: “Cuidado comigo, tu, o mais fraco, pois eu sou o mais forte. Esta ai chama-se a Prostituição.” Com lágrimas nos olhos, ódio no coração, senti nascer em mim uma força desconhecida. Peguei uma enorme pedra; com muito esforço, levantei-a até a altura do meu peito; com os braços, coloquei-a nos ombros. Escalei uma montanha até seu pico; dali, esmaguei o vagalume.




Excerto de "Cantos de Maldoror" - Conde de Lautreamont
Arte: Tom Colbie

VOCÊ QUE AGORA PASSEIA NA MINHA CABEÇA







Você,
que agora passeia
na minha cabeça
com seu corpo suave,
não esqueça que deixou
no meu peito uma ausência
& que essa ausência
se chama saudade.

Você,
que hoje mora
na minha vontade,
como na memória,
uma música que encanta,
não esqueça que agora,
na minha lembrança, seu beijo
é um desejo que dança.

Você,
que habita
& se faz senhora
do meu pensamento
como quem namora,
a cada momento,
a toda hora,
o próprio tempo,
por favor não esqueça:
meu coração está em festa.

& eu te quero. Apareça.



POEMA: MARCELLO CHALVINSKI
ARTE: TOM COLBIE

CÂNTICO NEGRO










"Vem por aqui" — dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...
A minha glória é esta:
Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?
Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.
Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...
Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.
Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!






Poema: José Régio


Arte: Tom Colbie



AMOR NO HOSPÍCIO




Uma estranha chegou A dividir comigo um quarto nessa casa que anda mal da cabeça,
Uma jovem louca como os pássaros
Que trancava a porta da noite com seus braços, suas plumas. Espigada no leito em desordem Ela tapeia com nuvens penetrantes a casa à prova dos céus
Até iludir com seus passos o quarto imerso em pesadelo,
Livre como os mortos,
Ou cavalga os oceanos imaginários do pavilhão dos homens.
Chegou possessa Aquela que admite a ilusória luz através do muro saltitante,
Possuída pelos céus Ela dorme no catre estreito, e no entanto vagueia na poeira E no entanto delira à vontade Sobre as tábuas do manicômio aplainadas por minhas lágrimas deâmbulas.
E arrebatado pela luz de seus braços, enfim, meu Deus, enfim Posso de fato Suportar a primeira visão que incendeia as estrelas.






POEMA: DYLAN THOMAS
ARTE: TOM COLBIE

COM LENTO AMOR




Com lento amor olhava os dispersos

Tons da tarde. A ela comprazia

Perder-se na complexa melodia

Ou na curiosa vida dos versos.

Não o rubro elemental mas os cinzentos

Fiaram seu destino delicado,

Feito a discriminar e exercitado

Na vacilação e nos matizes.

Sem se atrever a andar neste perplexo

Labirinto, olhava lá de fora

As formas, o tumulto e a carreira,

Como aquela outra dama do espelho.

Deuses que habitam para lá do rogo

Abandonaram-na a esse tigre, o Fogo.






Poema: J.L.Borges
Arte: Tom Colbie

BEBE MEU BEM BRASS BAND









O sonho nos contém.
Mas, se a poesia procurar,
vai nos achar no papel.

Bebe, meu bem!
A lua ainda está lá.Vem!
Mesmo que haja nuvens pelo céu.

A vida é um rio que voa.
Vamos aproveitar a maré.
Ouve essa canção que ressoa.

Amar é o que é:
Repetir a dose,
sempre que for boa.






Poema: Marcello Chalvinski
Arte: Tom Colbie

NASCI PARA ADMINISTRAR O À-TOA






Nasci para administrar o à-toa
o em vão
o inútil.

Pertenço de fazer imagens.
Opero por semelhanças.
Retiro semelhanças de pessoas com árvores
de pessoas com rãs
de pessoas com pedras
etc etc.

Retiro semelhanças de árvores comigo.
Não tenho habilidade pra clarezas.
Preciso de obter sabedoria vegetal.
(Sabedoria vegetal é receber com naturalidade uma rã no talo.)
E quando esteja apropriado para pedra, terei também sabedoria mineral.






Poema: Manoel de Barros
Arte: Tom Colbie

COISA REAL




Porque sei que a medida
De um homem é seu poema,
Que o poema é do homem
Seu tamanho real,


Minha função é a de um cego
Debaixo de uma ponte,
A subir pela mente
Sem as luzes do sol.


Servos da eterna noite,
Vendo apenas o tempo
Entre beijos do efêmero
E os abraços do vento,


Meus olhos, voltados
Para dentro, são sólidos
Como os de dois pregos
Por uma tábua entrando.


Para compreender
A insignificância
Do mundo circundante,
As flores, quando as colho,


São de um chão inexistente
Nas corolas do azul.
Como palavra andando
Num coração humano


Que jamais morrerá,
Só no poema eu existo
Para a ressurreição
Até das minhas vísceras.








Poema: Nauro Machado
(in Percurso de Sombras)
Arte: Tom Colbie

O MENINO QUE CARREGAVA ÁGUA NA PENEIRA






Tenho um livro sobre águas e meninos.
Gostei mais de um menino que carregava água na peneira.
A mãe disse que carregar água na peneira era o mesmo que roubar um vento
e sair correndo com ele para mostrar aos irmãos.
A mãe disse que era o mesmo que catar espinhos na água
O mesmo que criar peixes no bolso.



O menino era ligado em despropósitos.
Quis montar os alicerces de uma casa sobre orvalhos.

A mãe reparou que o menino gostava mais do vazio do que do cheio.
Falava que os vazios são maiores e até infinitos.
Com o tempo aquele menino que era cismado e esquisito
porque gostava de carregar água na peneira
Com o tempo descobriu que escrever seria o mesmo
que carregar água na peneira.
No escrever o menino viu que era capaz de ser
noviça, monge ou mendigo ao mesmo tempo.
O menino aprendeu a usar as palavras.
Viu que podia fazer peraltagens com as palavras.
E começou a fazer peraltagens.

Foi capaz de interromper o vôo de um pássaro botando ponto final na frase.
Foi capaz de modificar a tarde botando uma chuva nela.
O menino fazia prodígios.
Até fez uma pedra dar flor!



A mãe reparava o menino com ternura.
A mãe falou: Meu filho você vai ser poeta.
Você vai carregar água na peneira a vida toda.
Você vai encher os vazios com as suas peraltagens
e algumas pessoas vão te amar por seus despropósitos





Poema: Manoel de Barros
Arte Tom Colbie

NENHUM NOME






1. 
do oitavo andar
eu pulo
poluo o chão
com meu sangue
asas espatifadas
& alma de patife
nenhum nome
para resolver
minhas equações
etílicas

2. 
soprada por um deus
minha boca abriu-se
em beijos
carne ferida e úmida
sabores
hálitos
sonhos táteis...

3.
o tempo distraído
engole distâncias
na minissaia
da moça

4.
...minha mancha
na calçada
é varrida cuidadosamente





Poema: Marcello Chalvinski
Arte: Tom Colbie

CASO DO OCASO








Você não me quer
porque sou louco,
mas sabe que eu
sou louco por ti.

Você não me quer
porque ando errado,
mas sabe que errando,
eu erro por ti.

Talvez quisesse
que eu ficasse calado,
entretanto,
eu não estou nem aí.

Se você não me quer
só porque eu piro
e lá, bem no fundo,
me ama e mente,
eu dou meus pulos,
corro, giro, juro
que deixo de ser
um demente.

Mas,
se você.
decididamente
não me quer,
então só me beija
& me chama
de Baudelaire



Poema: Marcello Chalvinski
Arte: Tom Colbie

SE MINHAS MÃOS PUDESSEM CONSUMIR A LUA




Eu pronuncio teu nome
em noites escuras,
quando os astros vêm
para beber na lua
e dormem nas ramagens
das frondes ocultas.
E eu me sinto oco
de paixão e de música.
Louco relógio que canta
horas mortas antigas.


Eu pronuncio teu nome,
nesta noite escura,
e teu nome me soa
mais distante que nunca.
Mais distante que todas as estrelas
e mais triste que a chuva dócil.

Eu vou te amar como antes
em algum momento?
Que culpa
tem meu coração?
Se a névoa se desfaz,
que outra paixão me espera?
Será tranquila e pura?

Ah, se meus dedos pudessem
consumir a lua!



Poema: F.G. Lorca
Tradução: M. Chalvinski
Arte: T. Colbie

COMO SER UM GRANDE ESCRITOR




Você tem que comer um grande número de mulheres.
Belas mulheres
E escrever uns poucos e decentes poemas de amor.

E não se preocupe com a idade
e/ou com talentos recém-chegados.

Apenas beba mais cerveja.
Mais e mais cerveja.

E vá às corridas pelo menos uma vez por
semana.

E vença,
se possível.

Aprender a ganhar é difícil -
qualquer idiota pode ser um bom perdedor.

E não se esqueça do Brahms
e do Bach e também da sua
cerveja.

Não exagere nos exercícios.

Durma até o meio-dia.

Evite o pagamento de cartões de crédito
ou pagar qualquer conta
no prazo.

Lembre-se que nenhuma bunda no mundo
vale mais do que 50 pratas.
(em 1977).

E se você tem a capacidade de amar,
ame primeiro a si mesmo.
Mas esteja sempre alerta para a possibilidade de uma
derrota total,
mesmo que a razão para essa derrota
pareça certa ou errada -

Um gosto precoce pela morte não é necessariamente
uma coisa má.

Fique longe de igrejas e bares e museus,
e como a aranha seja
paciente -
o tempo é a cruz de todos,
mais
exílio
derrota
traição
todo essa escória.

Fique com a cerveja.

A cerveja é sangue contínuo.

Uma amante contínua.

Arranje uma grande máquina de escrever
e assim como os passos que sobem e descem
do lado de fora de sua janela
bata na máquina,
acerte com força,
faça disso uma luta pesada.

Faça como o touro no momento do primeiro ataque

e lembre dos velhos cães
que brigavam tão bem:
Hemingway, Céline, Dostoiévski, Hamsun.

Se você pensa que eles não ficaram loucos
em quartos minúsculos
assim como este em que você está agora

sem mulheres
sem comida
sem esperança

então você não está pronto.

Beba mais cerveja.
Há tempo.
E se não houver
está tudo certo
também.




Poema: Charles Bukowski
Tradução: Marcello Chalvinski

Arte: Tom Colbie

PLENILÚNIO




indiferente ao sabbath
o morto a meu lado
engendrava uma estranha
moeda
sob a língua

pus
de lado seu sorriso
& ele me presenteou
com balas

houve silêncio.
depois risos.

eram balas de festim




Poema: Marcello Chalvinski
Arte: Tom Colbie

ESCADAS PARA O INFINITO








São contra mim
as línguas que maldizem
& os olhares que reprovam

Mas há desde muito tempo
este céu que me protege
estas escadas para o infinito
os moinhos de vento
os navios que voam
o jardim secreto
as lanternas mágicas
os espelhos fantásticos
o tesouro escondido
o tapete voador
a fonte encantada
& as nuvens doces
onde o meu amor
guarda o seu beijo








POEMA: MARCELLO CHALVINSKI

ARTE: TOM COLBIE

DON JUAN & O JARDIM DAS MARAVILHAS


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Tira-gosto

Um Poema ao Acaso

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