PEQUENA HISTÓRIA DE TERROR




(Uma canção para ser deglutida pelo olfato)




Monstros nunca morrem.
Engendram artes.
Comem corações.

Andam descalços na praia.
Dominam as ruas
Vão & vêm sem explicação.

Posso vê-los girando pelos céus
ou caminhando na escuridão.

Eles estão por toda parte:
vampiros, demônios, bruxas...
Monstros!
Íncubos, súcubos, centauros, medusas...
Monstros!

Posso vê-los! Eles estão por toda parte.
Percorrem os subterrâneos da terra,
as profundezas do mar, o vazio dos espaços,
o íntimo dos objetos.

Vestem-se bem quando vão a festas
Tornam-se belos só para fazer maldade.
Podem ser abstratos, abjetos ou concretos.

Os monstros nunca morrem. Você os vê?
Em toda parte posso vê-los.

Mas, não precisamos fugir.
Não há porque temê-los.
A realidade é uma piada atroz.
Nessa pequena história de terror,
os monstros somos nós.




Poema: Marcello Chalvinski
Arte: Tom Colbie

CORAÇÃO & MENTE



inexplicavelmente estamos sozinhos
para sempre sozinhos
e era pra ser
assim,
não era pra ser
de nenhum outro modo -
quando a luta contra a morte
começar
a última coisa que desejo ver
é
um círculo de faces humanas
pairando sobre mim -
prefiro meus velhos amigos,
e as paredes de mim mesmo,
que estejam somente eles ali.
tenho estado sozinho mas raramente
solitário.
satisfiz minha sede
no poço
de mim mesmo
aquele vinho era bom,
o melhor que já bebi,
e esta noite
sentado
olhando a escuridão
finalmente entendo
a escuridão e a
luz e tudo que está
entre os dois.
a paz da alma e do coração
chega
quando aceitamos como
é:
ter nascido
nesta
estranha vida
devemos aceitar
as inúteis apostas de nossos
dias
e nos satisfazer com
o prazer de
deixar tudo
pra trás.
não chore por mim.
não sofra por mim.
leia
o que escrevi e
então
esqueça
tudo.
beba do poço
de você mesmo
e comece
de novo.
Poema: Charles Bukovski
Arte: Tom Colbie

SETE ESTROFES PARA ALÉM DA FALA






















1.
para voltar a ser anjo
é preciso perder a alma
não há outra saída
a imortalidade
é tão cruel
quanto a vida

2.
minhas palavras
gotejam em tua boca
& por um momento
nuvens mínimas
umedecem
as asas íntimas
do teu pensamento
mulher do fim do mundo
que rega as roseiras da primavera
chama-me do sono profundo
livra-me de todos os infernos
& prende-me a esta era
em que teu canto noturno
é capaz de aquecer toda a terra

3.
não voltarei a ser anjo
prefiro essa alma ébria,
incompleta centelha
que se deixa arrastar
por metáforas incompletas
& bebe verbosa
nos bares da cidade velha

4.
sim! entorpeço-me de horror
& maravilhas
sim! entorpeço-me
pois preciso do teu calor
& do teu brilho
é nesse estado de coisas
que os verbos perdem o siso
& os substantivos ganham delírio

5.
enlevadas pelo teu olhar,
as pedras agora podem mostrar
sua verdadeira face
a nós dois, audazes
& também à manada dos normais.
elas se desprendem das ruas
& flutuam não muito alto
com engenhos tais
que formam novos becos, ágoras & vielas,
para que possamos enfim
de mãos dadas
caminhar sobre elas

6.
abraçadas a uma sombra única,
as nuvens se aproximam
& entram por tua boca úmida.
mas nuvens & sombras são incapazes
de deter o teu sorriso iluminado
ou de evitar o brilho esfomeado
desses teus olhos vorazes
olhos que atravessavam pelos cabelos
& sorrateiros miram disfarçados
como um felino de finos pelos
em meio à selva camuflado

7.
agora,
enquanto por tua boca falo,
na velocidade plástica do cinema,
percebes que meu sonho persiste
em seu sólido sistema:
quero em mim esse olhar que afeta
esse par de olhos que assiste
silencioso à escrita que me faz poeta.
musa, alma gêmea, fêmea dileta, noema
alitera-me a imaginação & me completa
com tudo que há do outro lado do poema







Poema de Marcello Chalvinski

Prêmio 1º Lugar - Festival de Poe
sia da AMEI - 2017

Arte: Tom Colbie

BELCHIOR BLUES










a paixão é uma coragem que vicia
& a mim não importa que você peça
meu coração numa bandeja
não quero o que a cabeça pensa
quero o que a alma deseja

aqui nessa canalhice, nesse bar
nada mais importa
o amor veio e bateu na minha porta
o amor levou o número dos meus sapatos
a minha cédula de identidade
expulsou os meus amigos
diluiu minhas amantes
o amor me deu dor de cabeça
o amor bebeu o meu uísque
fumou os meus cigarros
tomou minhas aspirinas

o amor viajou para o Tibet
galopou um camelo
dormiu em árvores à noite
tingiu os seus sapatos de azul
morou em um barril

o amor não partiu
mas levou todas as minhas dores
todos os meus temores
& sem pedir favores

acabou até com o meu medo da morte



POEMA: MARCELLO CHALVINSKI
ARTE: TOM COLBIE

ROMANCE RASGADO











Você não vai esquecer
dos tapas na cara
das mordidas na nuca
tantos poemas de amor

As farras, loucuras
as roupas rasgadas
tuas unhas cravadas
nos lençóis de cetim

Você vai lembrar
de coisas discretas
& das juras secretas
que ninguém sabe, não
enchi tudo de poesia
pra chamar tua atenção

Você vai lembrar
dos nossos afagos
dos corpos suados
do uísque & do gim
das manchas roxas
nas tuas coxas
gemidos enfim...

Você vai lembrar
dos nossos lugares
das festas, dos bares
das noites sem fim

E quando a saudade chegar
não precisa esperar
venha correndo pra mim




Poema: Marcello Chalvinski
Música: M.Chalvinski/Jacob Vianna
Foto: Flávio Sousa



OS TRÊS MAL AMADOS



Joaquim:

O amor comeu meu nome, minha identidade, meu retrato. O amor comeu minha certidão de idade, minha genealogia, meu endereço. O amor comeu meus cartões de visita. O amor veio e comeu todos os papéis onde eu escrevera meu nome.

O amor comeu minhas roupas, meus lenços, minhas camisas. O amor comeu metros e metros de gravatas. O amor comeu a medida de meus ternos, o número de meus sapatos, o tamanho de meus chapéus. O amor comeu minha altura, meu peso, a cor de meus olhos e de meus cabelos.

O amor comeu meus remédios, minhas receitas médicas, minhas dietas. Comeu minhas aspirinas, minhas ondas-curtas, meus raios-X. Comeu meus testes mentais, meus exames de urina.
O amor comeu na estante todos os meus livros de poesia. Comeu em meus livros de prosa as citações em verso. Comeu no dicionário as palavras que poderiam se juntar em versos.

Faminto, o amor devorou os utensílios de meu uso: pente, navalha, escovas, tesouras de unhas, canivete. Faminto ainda, o amor devorou o uso de meus utensílios: meus banhos frios, a ópera cantada no banheiro, o aquecedor de água de fogo morto mas que parecia uma usina.

O amor comeu as frutas postas sobre a mesa. Bebeu a água dos copos e das quartinhas. Comeu o pão de propósito escondido. Bebeu as lágrimas dos olhos que, ninguém o sabia, estavam cheios de água.
O amor voltou para comer os papéis onde irrefletidamente eu tornara a escrever meu nome.

O amor roeu minha infância, de dedos sujos de tinta, cabelo caindo nos olhos, botinas nunca engraxadas. O amor roeu o menino esquivo, sempre nos cantos, e que riscava os livros, mordia o lápis, andava na rua chutando pedras. Roeu as conversas, junto à bomba de gasolina do largo, com os primos que tudo sabiam sobre passarinhos, sobre uma mulher, sobre marcas de automóvel.

O amor comeu meu Estado e minha cidade. Drenou a água morta dos mangues, aboliu a maré. Comeu os mangues crespos e de folhas duras, comeu o verde ácido das plantas de cana cobrindo os morros regulares, cortados pelas barreiras vermelhas, pelo trenzinho preto, pelas chaminés.  Comeu o cheiro de cana cortada e o cheiro de maresia. Comeu até essas coisas de que eu desesperava por não saber falar delas em verso.

O amor comeu até os dias ainda não anunciados nas folhinhas. Comeu os minutos de adiantamento de meu relógio, os anos que as linhas de minha mão asseguravam. Comeu o futuro grande atleta, o futuro grande poeta. Comeu as futuras viagens em volta da terra, as futuras estantes em volta da sala.
O amor comeu minha paz e minha guerra. Meu dia e minha noite. Meu inverno e meu verão. Comeu meu silêncio, minha dor de cabeça, meu medo da morte.



POEMA: JOÃO CABRAL DE MELO NETO
ARTE: TOM COLBIE

ROSA GALEGA







só uma rosa há
estilizada & tua
com o perfume
que exalas nua

princesa grega
delgada & leve
Rosa Galega
branca de neve
tua flor-poema
paixão se escreve

há em torno de ti
um calor que flutua
feito canção
& nem mesmo
a mais bela lua
abala tanto
meu coração


ORIGINAL É O POETA








Original é o poeta
que se origina a si mesmo
que numa sílaba é seta
noutro pasmo ou cataclismo
o que se atira ao poema
como se fosse um abismo
e faz um filho ás palavras
na cama do romantismo.
Original é o poeta
capaz de escrever um sismo.



Original é o poeta
de origem clara e comum
que sendo de toda a parte
não é de lugar algum.
O que gera a própria arte
na força de ser só um
por todos a quem a sorte faz
devorar um jejum.
Original é o poeta
que de todos for só um.



Original é o poeta
expulso do paraíso
por saber compreender
o que é o choro e o riso;
aquele que desce á rua
bebe copos quebra nozes
e ferra em quem tem juízo
versos brancos e ferozes.
Original é o poeta
que é gato de sete vozes.



Original é o poeta
que chegar ao despudor
de escrever todos os dias
como se fizesse amor.
Esse que despe a poesia
como se fosse uma mulher
e nela emprenha a alegria
de ser um homem qualquer.







POEMA:
ARY DOS SANTOS
ARTE
TOM COLBIE

O HOMEM COM BELOS OLHOS

  


Quando éramos crianças
havia uma casa estranha,
as cortinas estavam
sempre
fechadas,
nós nunca ouvíamos uma voz
dentro dela.
O jardim se arrepiava todo
em bambus altos,
nós gostávamos de brincar
no bambuzal.
Fingir ser
Tarzan
(embora não tivéssemos
Jane).
E havia um
tanque de peixes,
um dos grandes,
cheio dos
mais gordos peixes dourados
que você já viu.
Eles eram
mansinhos,
vinham para a
superfície da água
e comiam farelo de
pão
em nossas mãos.

Nossos pais disseram:
“Nunca cheguem perto daquela
casa”.
Portanto, é óbvio,
nós fomos para a casa.
A gente se perguntava
se alguém vivia ali.
Semanas se passaram e
nunca vimos
ninguém.
Então um dia
ouvimos
uma voz.
Vinha da casa:
“SUA PUTA
DESGRAÇADA!”
Era a voz de um
homem.
Em seguida
a porta de tela
da casa
foi aberta
num só puxão,
e o homem
caminhou
para fora.
Ele carregava uma
garrafa de uísque
em sua
mão direita.
Tinha uns
30 anos.
Um cigarro
em sua
boca.
Precisava se barbear.
Seu cabelo era
selvagem e
despenteado.
Pés
Descalços.
Camiseta simples
e calças.
Mas seus olhos
eram
brilhantes.
Eles ardiam
de tanto brilho.
E ele disse:
“Hey, pequenos
cavalheiros,
tendo bons
momentos, eu
espero.”
Então ele deu um
curto riso
e andou
de volta para dentro
daquela casa.
Nós saímos, voltamos
para o jardim dos meus pais,
e pensamos
sobre o ocorrido.
Nossos pais,
decidimos,
queriam nos
manter afastados
daquela casa
porque eles
não queriam que nós
víssemos um homem
como
aquele.
Um forte e natural
homem
com
belos
olhos.
Nossos pais
tinham vergonha
por
não ser
como aquele
homem,
eis por que eles
queriam
nos manter
afastados.
Mas
nós voltamos
para aquela casa
para o bambuzal
para os mansinhos
peixes-dourados.
Nós voltamos
muitas vezes
durante muitas semanas,
mas nós
não vimos
ou ouvimos
o homem
outra vez.
As cortinas estavam
fechadas
como sempre,
e somente se ouvia
o silêncio.
Então um dia
quando voltamos da
escola,
nós vimos
a casa.
Ela havia sido toda
queimada,
nada tinha restado
intacto.
Eram apenas cinzas e a fumegante,
retorcida e negra
fundação.
E nós fomos para
o tanque de peixes.
Dentro dele
não restava água,
e os gordos
peixes alaranjados
estavam mortos
ali,
secando.







Nós voltamos para
o jardim dos meus pais
e conversamos sobre
o ocorrido.
E decidimos que
nossos pais
queimaram aquela casa,
mataram
quem nela morava,
mataram
os peixes dourados,
porque era
tudo muito
belo,
mesmo o bambuzal
havia sido
queimado.
Eles temiam
o homem
com os belos
olhos.
E
nós tememos
desde então
que
ao longo de nossas vidas
coisas como aquela
acontecessem,
e ninguém
quisesse que
alguém
fosse
forte
e belo
daquele jeito.
Tememos que
os outros nunca
permitissem.
E que
muitas pessoas
teriam de
morrer.



Poema: CHARLES BUKOWSKI

Arte: TOM COLBIE

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Um Poema ao Acaso

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