O ESPÍRITO DE OCTUS




“O lombo é um pouco roxo. E tudo larga um cheiro
Estranhamente horrível. Coisas singulares
Requerem que uma lente ajude ao olho nu...”


Arthur Rimbaud

           


            Por todo País, contam-se inúmeras histórias sobre o revolucionário Policarpo. Comprovar a veracidade dessas narrativas não é, contudo, tarefa fácil. Nas rodas de dominó, nos botequins e, principalmente, entre os mais idosos, há sempre alguém com uma versão diferente para o mesmo fato. Trata-se, portanto, de acreditar, ou não, no que se diz.
Joey Schatten, no seu polêmico “Diário da Revolução”, traçou um retrato do período mais obscuro da vida de Policarpo. A obra, muito contestada, acabou por render as mais variadas versões e causos populares. O mais aceito deles, talvez seja o que nasceu na Região de Orabutã. Segundo ouvi, o herói, muito jovem ainda, teria sido preso por divulgar panfletos considerados subversivos. As sevícias e as humilhações a ele infligidas, em decorrência disso, forjaram o motor de sua revolta contra o Estado.
Conta-se que o jovem Policarpo era um rapazola franzino e idealista. Os panfletos, elaborados por ele mesmo, professavam idéias mutualistas, que não se alinhavam com nenhum partido da época. Rebeldia juvenil, ingenuidade ou predestinação, o fato é que Policarpo foi levado aos porões do 8º Batalhão, onde sofreu toda sorte de torturas. Porém, nada tendo a confessar além de seu pensamento anarquista, com o tempo passou dos suplícios ao trabalho forçado. Limpava latrinas, podava árvores, engraxava botas e ainda era obrigado a alimentar aquele que seria, tempos depois, o símbolo maior do Regime: o porco Octus.
            Sem nada que o diferenciasse dos de sua raça, Octus tornou-se ídolo das forças policiais, num golpe do acaso. O fato se deu durante uma solenidade que reuniu vários oficiais e um grande contingente de homens. No auge das celebrações, um telefonema trouxe a ameaça de bomba. Policiais do esquadrão especial, presentes ao evento, vasculharam todo o quartel, mas só conseguiram localizar o artefato quando o contador indicava 45 segundos para a explosão.
A evacuação, que se processava com disciplina militar, tornou-se então uma louca correria. Naquele instante, porém, surgiu um enorme suíno, tão alvoroçado e faminto, que literalmente comeu a bomba. De fato, a mordida do animal foi tão certeira que partiu os fios na seqüência exata, desarmando o detonador.
Um tenente, de nome Otávio Carrera, aproximou-se cautelosamente e constatou, pela parte que sobrara, que o mecanismo fora desligado a oito segundos da explosão. Foi dele a idéia de adotar o porco como mascote e de batizá-lo com o nome de Octus. A vida do animal mudaria radicalmente após este episódio. A TV Estatal passou a bombardear a população com inúmeras matérias que o definiam como um verdadeiro símbolo de heroísmo. O 8º Batalhão abriu concurso e elegeu um novo brasão de armas, com a figura do suíno em destaque. Octus estava famoso. Sua figura cartunizada freqüentava todos os jornais e revistas pró-Regime, gerando uma onda de sucessos romanescos, que serviu como luva para afastar a população das discussões sobre os impostos e a intolerância do Regime. Porém, em pouco tempo, uma série de confrontos e chacinas no campo poria por terra o fútil patriotismo pré-fabricado e levaria ao ostracismo o herói-suíno.
Nada de câmeras, nem clarões repentinos. Nada de visitas estudantis, nada de medalhas. A fama do chancho desapareceu tão veloz quanto a glória do mundo. Ele, que se acostumara a passear, fertilizando livremente os gramados do quartel sob a mira das objetivas, passou a condição bem menos satisfatória. Agrilhoado, era mantido sobre uma laje semelhante a um pedestal, de onde nunca saía.
A pontapés e coronhadas, Policarpo cumpria a missão de mantê-lo alimentado e limpo. De tudo que era obrigado a fazer, cuidar do suíno era o que mais lhe repugnava. Sua aversão não residia na natureza do animal, mas no que ele representava. Para aumentar seu infortúnio, um sargento conhecido como Zóião, percebendo o terrível asco que sentia em relação ao artiodátilo não ruminante, tramou contra ele uma cruel humilhação. Diante de quase todo batalhão, num fim de tarde chuvoso, obrigou-o a alimentar-se junto com bicho. Ao final do espetáculo vergonhoso, que protagonizou sob ameaça de armas, Policarpo disse ao sargento: “Eu posso comer ração, mas são vocês os verdadeiros porcos”. Por conta disso, apanhou muito e passou quatro dias confinado na solitária.
Enquanto a mente atormentada de Policarpo se digladiava com a loucura, por trás dos olhos negros e arredondados, o pequeno cérebro de Octus mergulhava em lembranças descoloridas, para fugir à amargura da vida atada a ferros. Recordava as tetas quentes em que mamava e até podia sentir a lama dos manguezais e odor dos lixeiros onde fuçava por alimento, junto aos urubus. Era nessas lembranças que encontrava forças para se manter vivo. Seu sono conturbado, na contramão de suas recordações, constituía-se numa fábrica de horrores. Revia impotente a cruel morte da mãe, espancada e sangrada entre grunhidos altíssimos. Corria em meio a cães ferozes que o mutilavam a poderosas dentadas e não raro acordava com a sensação de sentir o cheiro de sua própria carne queimada.
            Ao despertar de tais pesadelos, Octus rolava nos restos de comida e nas próprias fezes, até adquirir uma coloração escura. Feito isso, mantinha-se de tal forma parado que, quem o avistasse de longe, imaginaria estar vendo uma estátua, acorrentada ao seu pedestal.
De fato, grande era a dor de seu padecimento. Seu corpo animal ferido pelos grilhões e sua mente suína cheia de lembranças impulsionavam seu espírito de porco a desejar o fim de tudo. O que mais o irritava, porém, era o contato com Policarpo, principalmente após a pena na solitária. Não gostava do seu cheiro e odiava o tratamento que ele lhe dispensava. Tentou mordê-lo várias vezes, algumas com relativo sucesso, mas nada era suficiente para aplacar sua ira.
Foram meses de aflição sobre a laje, até que Policarpo deixou de aparecer. Um soldado, cujo rosto era parcialmente coberto de sinais escuros e rugosos, foi incumbido de ser o novo tratador. Octus animou-se tanto que, como conseqüência, desatou a comer e engordar literalmente como um porco. Deu de sujar-se menos e logo tornou-se rosado ao extremo. Os pesadelos diminuíram em freqüência e intensidade e seus dias e noites estavam cada vez melhores.
            Nessa época, a formação de uma nova guerrilha revolucionária chamada Movimento colocava em risco a ditadura do Comitê. Estrategistas do Regime, numa manobra maquiavélica, planejaram e executaram um atentado contra a escola pública da capital, atribuindo culpa à guerrilha recém-formada. Dezenas de crianças morreram e centenas ficaram feridas na explosão. Incentivados pela imprensa, milhares de cidadãos foram às ruas em protesto contra os atos terroristas. Bandeiras e camisetas com a figura do porco estampada foram estrategicamente distribuídas pelo Departamento de Propaganda. A “Era Octus” estava às portas do apogeu.
            Com o passar dos anos, os ativistas políticos contrários ao Regime foram presos, deportados, exilados ou simplesmente mortos. Porém, o Movimento prosseguiu em sabotagens e ataques cada vez mais ousados, tendo como alvo principal os chefes das milícias repressoras e os membros do Comitê. O 8º Batalhão foi transformado em D.A.P.U. e entregue a um comando especial, com o objetivo maior de combater a guerrilha de Policarpo.
            Entre os membros dirigentes do D.A.P.U. estava a temida Olga Wurtz, conhecida por ter preparado para o Regime um requintado manual de torturas. Olga e sua equipe tinham verdadeira adoração por Octus e se redobravam em cuidados para com o suíno. Era sabido que todo final de tarde eles se reuniam em torno do porco para acariciá-lo e atirar-lhe sobras de pizza. Octus não se fazia de rogado e devorava rapidamente o que lhe ofereciam. Sentia um grande calor no peito e em seus órgãos genitais quando era tocado por Olga Wurtz. Seus olhos ficavam repentinamente úmidos e incrivelmente brilhantes quando isso acontecia.
            Numa manhã de quinta-feira, Olga ordenou que Octus fosse levado para um galpão nos fundos do D.A.P.U., afim de que fosse banhado, escovado e tratado por veterinários especializados. O objetivo, explicou ela, era uma sessão de fotos para imortalizar o herói-suíno. Porém, quando o bicho já estava devidamente preparado, Olga fez com que todos se retirassem e ficou a sós com o rechonchudo animal. Certificando-se de que ele estava bem preso e de que ninguém a poderia observar, Olga tirou sob o vestido sua larga calcinha e esfregou-a nas ventas do bicho.
A sensação de Octus foi de extremo agrado ao aspirar o forte cheiro que manava da peça gigantesca. Lembrou-se de sensações olfativas antigas, experimentadas nos lixões onde costumava fuçar e emitiu uns grunhidos gentis, demasiado baixos para serem ouvidos fora do galpão. Olga, intuindo a satisfação do animal, tratou de apalpá-lo no pênis, com movimentos lentos e fortes. Excitava-se muito fazendo isso. Quanto mais seus dedos masturbavam o porco, mais sentia a vagina umedecer. O porco grunhia baixinho e ela sentia o muco escorrendo pelas coxas. Num gesto incontido, colocou-se por baixo do animal e, com sofreguidão, pôs-se a sugar o membro enrijecido, masturbando-se violentamente até o orgasmo.
Após recompor-se, partiu com o bicho solto, para o esperado ensaio fotográfico, o qual fez questão de acompanhar em cada detalhe. O fotógrafo encarregado do serviço, Alfredo Potato, tentava manter uma postura profissional, mas aborrecia-se demasiadamente, com as excessivas recomendações de Olga.
Ao final da longa sessão de fotos, Octus foi novamente levado para o seu pedestal e acorrentado sem mais delongas. Olga Wurtz, por seu turno, suspendeu os trabalhos e foi para casa suspirando de felicidade. A liberação dos desejos e os secretos prazeres gozados com o suíno eram motivos de comemoração. Sozinha, em seu gigantesco apartamento, abriu uma garrafa de licor de fruta e deitou-se ao centro do grande tapete da sala. Entre um gole e outro, lembrava do contato com o porco, comparando as recentes emoções vividas com o que sentiu quando pela primeira vez foi possuída.
Rolando de lá para cá, ora buscava o cheiro untuoso de Octus em seu corpo, ora relembrava o odor nauseabundo do banheiro onde fora violentada. Do estuprador não lembrava o cheiro. Podia, contudo, lembrar-se de seu tipo alto e recurvado, com o topo da cabeça careca e, no resto, compridos cabelos, tão brancos quanto sua barba. Lembrava também que o que houve foi uma dolorosa penetração anal, como todas as outras que pode experimentar em sua deprimente vida sexual, pois, apesar de contar quase sessenta anos, ainda sonhava encontrar aquele que a desvirginaria, com o nobre intuito de tomá-la em casamento, pondo fim à sua maldição.
            Ainda àquela noite, elegantemente vestida e discretamente bêbada, Olga Wurtz pronunciaria um de seus mais famosos discursos: Pátria, governo e as hostes da moralidade. Meses depois, convertido em livro, esse manifesto pró-Regime tornou-se notícia em todo país. O fato se deu, principalmente, porque na noite de lançamento, Octus foi mandado pelos ares por uma bomba acionada à distância.
Olga Wurtz, sob impacto emocional, sofreu violento ataque cardíaco e por pouco não morreu. Tudo havia acontecido debaixo de seu nariz. Enquanto ela autografava pomposamente dezenas de exemplares de seu opúsculo, Policarpo furava o pesado esquema de segurança e plantava, em pleno D.A.P.U., o explosivo que rasgaria o porco em centenas de pedaços.
            Um vulto negro, um objeto colorido, uma explosão. Esse foi o fim de Octus. Seu espírito animal se projetou no espaço através de nebulosas e quasares até atingir um ponto indefinido, que aos poucos foi se tornando um novo mundo, incrível, oleoso e maravilhosamente suíno. Um paraíso babélico cheio de lama, fezes e grunhidos felizes, onde os urubus celebravam o lixo e o caos. Uma espécie de céu dos porcos.
Octus tinha, agora, todos os seus desejos magicamente realizados. Sonhava intensamente e sentia, em sua alma de porco, os dedos firmes e a boca calorosa de Olga Wurtz, sempre que queria. E queria muito, a toda hora. Talvez porque os porcos carreguem fortes lembranças ou quem sabe algo de paixão em seus gordurosos espíritos.




Excerto de "O PLANO" - Marcello Chalvinski - Prêmio Gonçalves Dias de Literatura - 2007 / Arte: M. Chalvinski

SAUDADES BÁRBARAS








eu guardo até hoje essa doce lembrança que você deixou
ouço tua voz no álbum da memória que você gravou
no palco da esperança, o sonho baila numa dança
os passos tristes que tão torpe destino coreografou

essas lágrimas tão sofridas que agora brilham nos meus olhos
refletem a dor dessa saudade, pois ainda quero o teu amor
eu bem sei que já é tarde, mas meu coração feito em pedaços
canta a canção dos teus abraços, vivendo um show que se acabou

dói-me saber ao fim que o fim roubou de mim toda alegria
do romance mais feliz, a solidão é tudo que restou
vejo o teu sorriso noite e dia no espelho da poesia
sob a luz da fantasia, sol voraz que o tempo congelou

a lua que reluz em meu terraço ilumina meu cansaço
e deixa claro teu descaso que em abandono me deixou
eu uso de toda a minha coragem pra preencher esse espaço
frio e malfadado que no fundo do meu peito se criou

de bar em bar eu bailo e bebo aos vis acordes da tristeza
de dose em dose mais uísque, outra cerveja, e um cigarro a arder
queimando a toalha sobre a mesa, como queima essa certeza
de ter agido errado, mesmo assim eu não quero te perder

& hoje, enquanto escrevo esse poema, navegando na má sorte
vida ou morte é o meu dilema, sofro mais do que imaginas
sem você meu mar já não tem norte por favor me abraça forte
na deriva das esquinas, não tenho versos, estou sem rimas





POEMA: MARCELLO CHALVINSKI
ARTE: TOM COLBIE

A PISTA







no frio
de uma manhã imprevista
acordei sem teu sorriso à vista
procurei tua voz
com ouvido de musicista
mas
só achei uma saudade louca, sadista
cruel a me lembrar
nossa paixão anarquista
e tudo que em ti
me seduz & conquista

perdido em meio
a esse furor saudosista
chorei por ti,
calado como um seminarista
recriei o teu rosto
como um desenhista
& como uma vontade
que em si mesma insista
busquei a luz ônix
do teu olhar ametista

então,
na memória acesa
feito fé sebastianista
tua fala doce & macia
em mim repetia:
não desista!
uma princesa
sempre deixa uma pista






POEMA: MARCELLO CHALVINSKI
ARTE: TOM COLBIE

ESPELHO DA NOITE









Eu gosto quando um vento breve te alcança
& teu cabelo preto entra suave na dança
em movimentos leves de  improviso,
cada ondular se espraia em ritmo preciso
& espelha o negror da noite que avança

teu corpo em flor, meu jardim do paraíso,
baila seu bailado & me faz perder o juízo
doce morena, alma índia que me abraça
ayuhasca perfumada, aroma de tirar o siso
teu cheiro de fêmea é minha doce cachaça

ah, menina cauim que incendeia desejos!
ave feminil que encanta com gráceis adejos
beleza ferina, yanomami,  xamã-guerreira
teu olhar, felina, acende o feitiço da fogueira
& todo meu corpo arde ao calor dos teus beijos




POEMA: MARCELLO CHALVINSKI
ARTE: TOM COLBIE


PEQUENA HISTÓRIA DE TERROR




(Uma canção para ser deglutida pelo olfato)




Monstros nunca morrem.
Engendram artes.
Comem corações.

Andam descalços na praia.
Dominam as ruas
Vão & vêm sem explicação.

Posso vê-los girando pelos céus
ou caminhando na escuridão.

Eles estão por toda parte:
vampiros, demônios, bruxas...
Monstros!
Íncubos, súcubos, centauros, medusas...
Monstros!

Posso vê-los! Eles estão por toda parte.
Percorrem os subterrâneos da terra,
as profundezas do mar, o vazio dos espaços,
o íntimo dos objetos.

Vestem-se bem quando vão a festas
Tornam-se belos só para fazer maldade.
Podem ser abstratos, abjetos ou concretos.

Os monstros nunca morrem. Você os vê?
Em toda parte posso vê-los.

Mas, não precisamos fugir.
Não há porque temê-los.
A realidade é uma piada atroz.
Nessa pequena história de terror,
os monstros somos nós.




Poema: Marcello Chalvinski
Arte: Tom Colbie

CORAÇÃO & MENTE



inexplicavelmente estamos sozinhos
para sempre sozinhos
e era pra ser
assim,
não era pra ser
de nenhum outro modo -
quando a luta contra a morte
começar
a última coisa que desejo ver
é
um círculo de faces humanas
pairando sobre mim -
prefiro meus velhos amigos,
e as paredes de mim mesmo,
que estejam somente eles ali.
tenho estado sozinho mas raramente
solitário.
satisfiz minha sede
no poço
de mim mesmo
aquele vinho era bom,
o melhor que já bebi,
e esta noite
sentado
olhando a escuridão
finalmente entendo
a escuridão e a
luz e tudo que está
entre os dois.
a paz da alma e do coração
chega
quando aceitamos como
é:
ter nascido
nesta
estranha vida
devemos aceitar
as inúteis apostas de nossos
dias
e nos satisfazer com
o prazer de
deixar tudo
pra trás.
não chore por mim.
não sofra por mim.
leia
o que escrevi e
então
esqueça
tudo.
beba do poço
de você mesmo
e comece
de novo.
Poema: Charles Bukovski
Arte: Tom Colbie

SETE ESTROFES PARA ALÉM DA FALA






















1.
para voltar a ser anjo
é preciso perder a alma
não há outra saída
a imortalidade
é tão cruel
quanto a vida

2.
minhas palavras
gotejam em tua boca
& por um momento
nuvens mínimas
umedecem
as asas íntimas
do teu pensamento
mulher do fim do mundo
que rega as roseiras da primavera
chama-me do sono profundo
livra-me de todos os infernos
& prende-me a esta era
em que teu canto noturno
é capaz de aquecer toda a terra

3.
não voltarei a ser anjo
prefiro essa alma ébria,
incompleta centelha
que se deixa arrastar
por metáforas incompletas
& bebe verbosa
nos bares da cidade velha

4.
sim! entorpeço-me de horror
& maravilhas
sim! entorpeço-me
pois preciso do teu calor
& do teu brilho
é nesse estado de coisas
que os verbos perdem o siso
& os substantivos ganham delírio

5.
enlevadas pelo teu olhar,
as pedras agora podem mostrar
sua verdadeira face
a nós dois, audazes
& também à manada dos normais.
elas se desprendem das ruas
& flutuam não muito alto
com engenhos tais
que formam novos becos, ágoras & vielas,
para que possamos enfim
de mãos dadas
caminhar sobre elas

6.
abraçadas a uma sombra única,
as nuvens se aproximam
& entram por tua boca úmida.
mas nuvens & sombras são incapazes
de deter o teu sorriso iluminado
ou de evitar o brilho esfomeado
desses teus olhos vorazes
olhos que atravessavam pelos cabelos
& sorrateiros miram disfarçados
como um felino de finos pelos
em meio à selva camuflado

7.
agora,
enquanto por tua boca falo,
na velocidade plástica do cinema,
percebes que meu sonho persiste
em seu sólido sistema:
quero em mim esse olhar que afeta
esse par de olhos que assiste
silencioso à escrita que me faz poeta.
musa, alma gêmea, fêmea dileta, noema
alitera-me a imaginação & me completa
com tudo que há do outro lado do poema







Poema de Marcello Chalvinski

Prêmio 1º Lugar - Festival de Poe
sia da AMEI - 2017

Arte: Tom Colbie

BELCHIOR BLUES










a paixão é uma coragem que vicia
& a mim não importa que você peça
meu coração numa bandeja
não quero o que a cabeça pensa
quero o que a alma deseja

aqui nessa canalhice, nesse bar
nada mais importa
o amor veio e bateu na minha porta
o amor levou o número dos meus sapatos
a minha cédula de identidade
expulsou os meus amigos
diluiu minhas amantes
o amor me deu dor de cabeça
o amor bebeu o meu uísque
fumou os meus cigarros
tomou minhas aspirinas

o amor viajou para o Tibet
galopou um camelo
dormiu em árvores à noite
tingiu os seus sapatos de azul
morou em um barril

o amor não partiu
mas levou todas as minhas dores
todos os meus temores
& sem pedir favores

acabou até com o meu medo da morte



POEMA: MARCELLO CHALVINSKI
ARTE: TOM COLBIE

ROMANCE RASGADO











Você não vai esquecer
dos tapas na cara
das mordidas na nuca
tantos poemas de amor

As farras, loucuras
as roupas rasgadas
tuas unhas cravadas
nos lençóis de cetim

Você vai lembrar
de coisas discretas
& das juras secretas
que ninguém sabe, não
enchi tudo de poesia
pra chamar tua atenção

Você vai lembrar
dos nossos afagos
dos corpos suados
do uísque & do gim
das manchas roxas
nas tuas coxas
gemidos enfim...

Você vai lembrar
dos nossos lugares
das festas, dos bares
das noites sem fim

E quando a saudade chegar
não precisa esperar
venha correndo pra mim




Poema: Marcello Chalvinski
Música: M.Chalvinski/Jacob Vianna
Foto: Flávio Sousa



OS TRÊS MAL AMADOS



Joaquim:

O amor comeu meu nome, minha identidade, meu retrato. O amor comeu minha certidão de idade, minha genealogia, meu endereço. O amor comeu meus cartões de visita. O amor veio e comeu todos os papéis onde eu escrevera meu nome.

O amor comeu minhas roupas, meus lenços, minhas camisas. O amor comeu metros e metros de gravatas. O amor comeu a medida de meus ternos, o número de meus sapatos, o tamanho de meus chapéus. O amor comeu minha altura, meu peso, a cor de meus olhos e de meus cabelos.

O amor comeu meus remédios, minhas receitas médicas, minhas dietas. Comeu minhas aspirinas, minhas ondas-curtas, meus raios-X. Comeu meus testes mentais, meus exames de urina.
O amor comeu na estante todos os meus livros de poesia. Comeu em meus livros de prosa as citações em verso. Comeu no dicionário as palavras que poderiam se juntar em versos.

Faminto, o amor devorou os utensílios de meu uso: pente, navalha, escovas, tesouras de unhas, canivete. Faminto ainda, o amor devorou o uso de meus utensílios: meus banhos frios, a ópera cantada no banheiro, o aquecedor de água de fogo morto mas que parecia uma usina.

O amor comeu as frutas postas sobre a mesa. Bebeu a água dos copos e das quartinhas. Comeu o pão de propósito escondido. Bebeu as lágrimas dos olhos que, ninguém o sabia, estavam cheios de água.
O amor voltou para comer os papéis onde irrefletidamente eu tornara a escrever meu nome.

O amor roeu minha infância, de dedos sujos de tinta, cabelo caindo nos olhos, botinas nunca engraxadas. O amor roeu o menino esquivo, sempre nos cantos, e que riscava os livros, mordia o lápis, andava na rua chutando pedras. Roeu as conversas, junto à bomba de gasolina do largo, com os primos que tudo sabiam sobre passarinhos, sobre uma mulher, sobre marcas de automóvel.

O amor comeu meu Estado e minha cidade. Drenou a água morta dos mangues, aboliu a maré. Comeu os mangues crespos e de folhas duras, comeu o verde ácido das plantas de cana cobrindo os morros regulares, cortados pelas barreiras vermelhas, pelo trenzinho preto, pelas chaminés.  Comeu o cheiro de cana cortada e o cheiro de maresia. Comeu até essas coisas de que eu desesperava por não saber falar delas em verso.

O amor comeu até os dias ainda não anunciados nas folhinhas. Comeu os minutos de adiantamento de meu relógio, os anos que as linhas de minha mão asseguravam. Comeu o futuro grande atleta, o futuro grande poeta. Comeu as futuras viagens em volta da terra, as futuras estantes em volta da sala.
O amor comeu minha paz e minha guerra. Meu dia e minha noite. Meu inverno e meu verão. Comeu meu silêncio, minha dor de cabeça, meu medo da morte.



POEMA: JOÃO CABRAL DE MELO NETO
ARTE: TOM COLBIE

ROSA GALEGA







só uma rosa há
estilizada & tua
com o perfume
que exalas nua

princesa grega
delgada & leve
Rosa Galega
branca de neve
tua flor-poema
paixão se escreve

há em torno de ti
um calor que flutua
feito canção
& nem mesmo
a mais bela lua
abala tanto
meu coração


ORIGINAL É O POETA








Original é o poeta
que se origina a si mesmo
que numa sílaba é seta
noutro pasmo ou cataclismo
o que se atira ao poema
como se fosse um abismo
e faz um filho ás palavras
na cama do romantismo.
Original é o poeta
capaz de escrever um sismo.



Original é o poeta
de origem clara e comum
que sendo de toda a parte
não é de lugar algum.
O que gera a própria arte
na força de ser só um
por todos a quem a sorte faz
devorar um jejum.
Original é o poeta
que de todos for só um.



Original é o poeta
expulso do paraíso
por saber compreender
o que é o choro e o riso;
aquele que desce á rua
bebe copos quebra nozes
e ferra em quem tem juízo
versos brancos e ferozes.
Original é o poeta
que é gato de sete vozes.



Original é o poeta
que chegar ao despudor
de escrever todos os dias
como se fizesse amor.
Esse que despe a poesia
como se fosse uma mulher
e nela emprenha a alegria
de ser um homem qualquer.







POEMA:
ARY DOS SANTOS
ARTE
TOM COLBIE

O HOMEM COM BELOS OLHOS

  


Quando éramos crianças
havia uma casa estranha,
as cortinas estavam
sempre
fechadas,
nós nunca ouvíamos uma voz
dentro dela.
O jardim se arrepiava todo
em bambus altos,
nós gostávamos de brincar
no bambuzal.
Fingir ser
Tarzan
(embora não tivéssemos
Jane).
E havia um
tanque de peixes,
um dos grandes,
cheio dos
mais gordos peixes dourados
que você já viu.
Eles eram
mansinhos,
vinham para a
superfície da água
e comiam farelo de
pão
em nossas mãos.

Nossos pais disseram:
“Nunca cheguem perto daquela
casa”.
Portanto, é óbvio,
nós fomos para a casa.
A gente se perguntava
se alguém vivia ali.
Semanas se passaram e
nunca vimos
ninguém.
Então um dia
ouvimos
uma voz.
Vinha da casa:
“SUA PUTA
DESGRAÇADA!”
Era a voz de um
homem.
Em seguida
a porta de tela
da casa
foi aberta
num só puxão,
e o homem
caminhou
para fora.
Ele carregava uma
garrafa de uísque
em sua
mão direita.
Tinha uns
30 anos.
Um cigarro
em sua
boca.
Precisava se barbear.
Seu cabelo era
selvagem e
despenteado.
Pés
Descalços.
Camiseta simples
e calças.
Mas seus olhos
eram
brilhantes.
Eles ardiam
de tanto brilho.
E ele disse:
“Hey, pequenos
cavalheiros,
tendo bons
momentos, eu
espero.”
Então ele deu um
curto riso
e andou
de volta para dentro
daquela casa.
Nós saímos, voltamos
para o jardim dos meus pais,
e pensamos
sobre o ocorrido.
Nossos pais,
decidimos,
queriam nos
manter afastados
daquela casa
porque eles
não queriam que nós
víssemos um homem
como
aquele.
Um forte e natural
homem
com
belos
olhos.
Nossos pais
tinham vergonha
por
não ser
como aquele
homem,
eis por que eles
queriam
nos manter
afastados.
Mas
nós voltamos
para aquela casa
para o bambuzal
para os mansinhos
peixes-dourados.
Nós voltamos
muitas vezes
durante muitas semanas,
mas nós
não vimos
ou ouvimos
o homem
outra vez.
As cortinas estavam
fechadas
como sempre,
e somente se ouvia
o silêncio.
Então um dia
quando voltamos da
escola,
nós vimos
a casa.
Ela havia sido toda
queimada,
nada tinha restado
intacto.
Eram apenas cinzas e a fumegante,
retorcida e negra
fundação.
E nós fomos para
o tanque de peixes.
Dentro dele
não restava água,
e os gordos
peixes alaranjados
estavam mortos
ali,
secando.







Nós voltamos para
o jardim dos meus pais
e conversamos sobre
o ocorrido.
E decidimos que
nossos pais
queimaram aquela casa,
mataram
quem nela morava,
mataram
os peixes dourados,
porque era
tudo muito
belo,
mesmo o bambuzal
havia sido
queimado.
Eles temiam
o homem
com os belos
olhos.
E
nós tememos
desde então
que
ao longo de nossas vidas
coisas como aquela
acontecessem,
e ninguém
quisesse que
alguém
fosse
forte
e belo
daquele jeito.
Tememos que
os outros nunca
permitissem.
E que
muitas pessoas
teriam de
morrer.



Poema: CHARLES BUKOWSKI

Arte: TOM COLBIE

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Um Poema ao Acaso

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