A NOITE NUNCA ESQUECE








No meio de uma noite que ardia,
teu olhar encontrou o meu
& todo o som que então havia
naquele exato momento desapareceu.
Em torno de nós, a Terra ficou vazia
O próprio relógio do tempo  parou
mas ainda era só o começo do show.

Só depois, quando você me beijou,
foi que o mundo novamente girou.
Mas, então eu queria que ele parasse.
Desejava que a noite nunca acabasse.
Afinal, por que precisava ser assim,
tudo que é bom tem que ter um fim?

Quando você me deixou na manhã fria,
desci do teu carro, acendi meu cigarro
& sorri, pensando, enquanto você partia:
amanhã certamente vai haver outro dia.

Hoje, no calor deste luar que anestesia
sei que a noite à paixão jamais esquece
& em meu coração também não te esqueço.
Foi uma noite linda & única, ao que parece.
Mas, por mim, poderia ser só um bom começo.







POEMA: MARCELLO CHALVINSKI
ARTE: TOM COLBIE

O VAGALUME





Eu fiz um pacto com a prostituição a fim de semear a desordem entre as famílias. Recordo-me da noite que precedeu essa perigosa ligação. Vi um túmulo à minha frente. Ouvi um vagalume, do tamanho de uma casa, que dizia: “Vou iluminar-te. Lê a inscrição. Não é de mim que parte essa ordem suprema.” Uma imensa luz cor de sangue, diante da qual meus maxilares bateram e meus braços caíram inertes, espalhou-se pelos ares até o horizonte. Apoiei-me a um muro em ruínas, pois estava quase caindo, e li: “Aqui jaz um adolescente que morreu tuberculoso: sabeis o motivo. Não oreis por ele.” Talvez muitos homens não tenham sido tão corajosos como eu. Enquanto isso, uma linda mulher nua veio deitar-se a meus pés. Eu, para ela, com uma expressão triste: “Podes levantar-te”. Estendi-lhe a mão com a qual a fratricida estrangulou a irmã. O vagalume, para mim: “Tu, pega uma pedra e mata-a.” “Por quê?”, disse-lhe eu. Ele, para mim: “Cuidado comigo, tu, o mais fraco, pois eu sou o mais forte. Esta ai chama-se a Prostituição.” Com lágrimas nos olhos, ódio no coração, senti nascer em mim uma força desconhecida. Peguei uma enorme pedra; com muito esforço, levantei-a até a altura do meu peito; com os braços, coloquei-a nos ombros. Escalei uma montanha até seu pico; dali, esmaguei o vagalume.




Excerto de "Cantos de Maldoror" - Conde de Lautreamont
Arte: Tom Colbie

VOCÊ QUE AGORA PASSEIA NA MINHA CABEÇA







Você,
que agora passeia
na minha cabeça
com seu corpo suave,
não esqueça que deixou
no meu peito uma ausência
& que essa ausência
se chama saudade.

Você,
que hoje mora
na minha vontade,
como na memória,
uma música que encanta,
não esqueça que agora,
na minha lembrança, seu beijo
é um desejo que dança.

Você,
que habita
& se faz senhora
do meu pensamento
como quem namora,
a cada momento,
a toda hora,
o próprio tempo,
por favor não esqueça:
meu coração está em festa.

& eu te quero. Apareça.



POEMA: MARCELLO CHALVINSKI
ARTE: TOM COLBIE

CÂNTICO NEGRO










"Vem por aqui" — dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...
A minha glória é esta:
Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?
Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.
Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...
Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.
Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!






Poema: José Régio


Arte: Tom Colbie



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