O VAGALUME





Eu fiz um pacto com a prostituição a fim de semear a desordem entre as famílias. Recordo-me da noite que precedeu essa perigosa ligação. Vi um túmulo à minha frente. Ouvi um vagalume, do tamanho de uma casa, que dizia: “Vou iluminar-te. Lê a inscrição. Não é de mim que parte essa ordem suprema.” Uma imensa luz cor de sangue, diante da qual meus maxilares bateram e meus braços caíram inertes, espalhou-se pelos ares até o horizonte. Apoiei-me a um muro em ruínas, pois estava quase caindo, e li: “Aqui jaz um adolescente que morreu tuberculoso: sabeis o motivo. Não oreis por ele.” Talvez muitos homens não tenham sido tão corajosos como eu. Enquanto isso, uma linda mulher nua veio deitar-se a meus pés. Eu, para ela, com uma expressão triste: “Podes levantar-te”. Estendi-lhe a mão com a qual a fratricida estrangulou a irmã. O vagalume, para mim: “Tu, pega uma pedra e mata-a.” “Por quê?”, disse-lhe eu. Ele, para mim: “Cuidado comigo, tu, o mais fraco, pois eu sou o mais forte. Esta ai chama-se a Prostituição.” Com lágrimas nos olhos, ódio no coração, senti nascer em mim uma força desconhecida. Peguei uma enorme pedra; com muito esforço, levantei-a até a altura do meu peito; com os braços, coloquei-a nos ombros. Escalei uma montanha até seu pico; dali, esmaguei o vagalume.




Excerto de "Cantos de Maldoror" - Conde de Lautreamont
Arte: Tom Colbie

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Tira-gosto

Um Poema ao Acaso

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