O PLANO

  





O BEM SEMPRE VENCE

...MAS O MAL RESISTE



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SOBRE A SEGURANÇA DE LER ESTE LIVRO


Se o veneno, a paixão, o estupro e a punhalada
Não puderam bordar com seus curiosos planos
A talagarça vã dos destinos humanos
É que nossa alma enfim não é bastante ousada

Charles Baudelaire




            Certo dia, ainda adolescente, reuni alguns amigos de esbórnia, com o firme propósito de massacrar o tédio. O resultado, além da avassaladora ressaca alcoólica, foi um conjunto de lembranças confusas e, talvez, esta história. Tudo começou na praia. Entre o chacoalhar de um copo e outro, filosofávamos sobre comportamento humano, com a dionisíaca euforia do uísque. A variação de conceitos e a divergência de opiniões deveriam ter criado abismos entre nós. Mas, alguém teve a idéia e decidimos iniciar o jogo: testaríamos nosso caráter analisando supostas reações individuais diante de situações de extremo risco, inspiradas em livros, filmes ou simplesmente tiradas dos noticiários. Puro exercício de imaginação.
Combinamos as regras de pontuação a partir de um raciocínio assumidamente maniqueísta e, legitimados por condições hipotéticas suficientemente nobres para nos tirar o peso da culpa, partimos para a aventura cerebral. Um assalto a banco era o ponto de partida. Logo que a brincadeira começou, percebi que haveria vencidos. Mesmo assim prossegui, movido sei por quais intenções, trocando idéias mirabolantes que, aos nossos olhos, formavam magicamente o plano do crime imperfeito que iríamos executar.
Talvez esperasse algo positivo ao final. Mas o que sobrou daquela noitada etílica serviu apenas para trazer à luz o quanto de terrível e cruel pode irromper na mente de quem se acuado no jogo da vida. No fim de tudo, sem confessar, temíamos uns aos outros e eu temia pela minha descoberta. Não poderia mais confiar em ninguém. Havia experimentado, através daquela sinistra brincadeira, um exercício de maquiavelismos que jamais imaginara. Entretanto, rompendo a sinergia dos maus fluidos, minhas rotas no oceano da existência levaram-me para longe dos outros jogadores. Em ensolarados oito anos de Brasil, vivi um navegar intenso e quase sempre extasiante. Ao atravessar o asfalto entre uma praia e outra juntava em poemas os versos divertidamente loucos que a vida me ditava. Do jogo mórbido, na memória, quase nada sobrara. Eu respirava um verão de alma e me nutria de uma felicidade docemente despreocupada.
Por obra mais do ocaso que do acaso, um dos jogadores me apareceu ostentando um sorriso largo e luminoso debaixo do olhar bandido. Aquele encontro em São Luís fazia renascer uma antiga alegria e de pronto, como nos áureos tempos das grandes farras,  sugeri que fôssemos a certo bar da Praia Grande. Éramos dois viajantes do fim do mundo, com as naus lado a lado no porto mágico do fim da tarde. Assim que os uísques chegaram, contei a ela sobre o meu Anjo na Fauna, estendendo-lhe o mais rápido que pude um exemplar matreiramente autografado. Ancorados na mesa tosca, conversamos poesia, música, viagens e – devo admitir –,  resisti em perguntar-lhe sobre o jogo não mais que o tempo de três rodadas. Quando o fiz, fui dissecado por um olhar miúdo e informado de um jeito mudo que não falaríamos sobre o assunto.
andava às voltas com o quinto uísque quando, sem qualquer resistência, me deixei conduzir pelos escuros e tortos caminhos de uma narrativa assombrosa. As explanações da moçanão obstante o largo consumo de bebida –, eram feitas de forma absolutamente comedida e minhas reações, controladas por cuidadosa embriaguez. O quadro, contudo, fazia-se complexo, com imagens sobrepostas e situações recorrentes.
Não tardei a ser fisgado pela essência diabolicamente literária de sua históriaainda que me inquietasse uma terrível relação com o jogo da juventude. Decidido a escrever sob inspiração de suas narrativas, engendrei outros encontros para ouvi-la e durante dias me entreguei às suas histórias. Sem esperança nem temor, juntei em anotações tudo que retive, não me importando padrões de comportamento, princípios éticos ou morais ou seja o que for. Tudo é para ser dito. Realidade e imaginação. Mentira e verdade. Insanidade e razão. É assim que escrevo. É assim que quero escrever.
Instigado pelo delírio, O Plano bebeu abundantemente no copo da vida, antes de tombar embriagado e manchar a brancura virgem das páginas que advêm. E, tendo eu acrescentado às impressões resultantes de minhas estranhas audições, as pinceladas mais cintilantes e cruéis da fantasia, sinto-me no dever de precaver o leitor quanto aos possíveis abalos. A maldade está por toda parte, descaradamente explícita ou maliciosamente oculta. Tudo quanto é humano conspira. E, se não o é, também. As trilhas em que os episódios se sucedem são escorregadias e obscuras, embora permitam viajar a partir de qualquer ponto, em qualquer direção, dispensando a linearidade. Quase sempre é noite e quase sempre chove, mas, mesmo sob o sol, cada história leva a uma armadilha e cada armadilha, a uma nova história.
Logo à frente, revestida de enigmáticos ímãs, está a trama que gira. Nem tudo que se diz é verdade. Nem toda verdade faz sentido. Uma virgem sodomita e um suíno gordo apaixonado. Uma cantora de blues e um terrorista desmemoriado. Potestades em conflito, loucos, bandidos, aflitos... Para juntar as peças e saber no que vai dar, é preciso, antes, superar as flechas geladas do medo. Por trás desta página, rangem os portais dos reis do inferno e marcham contra nós os seus estandartes. Vencidos os embargos, lasciate ogni speranza voi ch’entrate! (1)







MC




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O FOSSO

Quem se eu gritasse, entre as legiões de anjos
me ouviria?”
Rainer Maria Rilke


                        Aos setenta e sete anos, no dia comemorativo à entrada do revolucionário Policarpo na Capital, a ex-cantora Zeth fez estacionar sua luxuosa limusine, no pátio de um gigantesco shopping center, nas proximidades da Avenida Pecorame. A chuva incessante acentuava-lhe a serenidade de alma, embora o motorista tenha relatado que a advertiu com gravidade quanto à iminência de alagamento. Seus olhos avermelhados fitavam os finos fios de fumaça que subiam do cinzeiro, onde um cigarro solitário ardia sua condenação às cinzas. Os entrelaçamentos da fumaça azulada traziam à sua memória impressões tão distantes quanto a vivacidade elétrica de sua juventude. Músicas, poemas, amigos e pelo menos duas grandes paixões passeavam em sua mente enevoada causando uma sensação íntima de quase satisfação.
Zeth encheu lentamente uma taça com seu cabernet favorito e deu ordens expressas ao velho motorista para que permanecesse no interior do veículo e não a incomodasse. Ato contínuo, despiu-se de toda roupa e calmamente meteu-se pelo teto solar, indo sentar-se no alto da limusine. Sentia o que estava por acontecer e alargou os braços sob a chuva impetuosa. Seu corpo bem cuidado de mulher rica resistia à água fria como uma estátua milenar. Nada a incomodava naquele momento de indescritíveis lembranças. Nem o frio, nem a chuva, nem a morte iminente. Sorriu com um cinismo levemente adocicado dos gananciosos amantes que ora sustentava e quase chorou pelos filhos que jamais teve. Logo, todo seu patrimônio iria para instituições de caridade.
Em sua mente, as lembranças se moviam como patinadores no gelo, coreografando uma vida de muitas loucuras e nenhum arrependimento. Com determinação titânica, rechaçou os apelos de seu motorista para que deixassem o local. Estava certa de que seu lugar era ali, sob a chuva de agulhas cortantes, no teto do carro, cercada por seus anjos e seus demônios. Histórias infantis e filmes idiotas bailavam embalados por uma música desconhecida e ao mesmo tempo nostálgica.
Quando os raios começaram a se aproximar e a água formou uma camada mais espessa sobre o asfalto, Heliogábalo, o velho motorista, tentou desesperada e inutilmente convencê-la a deixar o local. Zeth jamais renunciava a uma vontade repentina, por mais estranha que fosse. Acreditava nos presságios. Acreditava no destino. Acreditava e encontrava muitas razões para isso. Não que fosse religiosa, ainda que lesse os livros sagrados. Era que tinha convicções muito próprias e não escondia um certo esoterismo. De alguma forma, naquele momento, o seu destino estava ali, invencível sob a chuva, em pleno aniversário da revolução que derrubara o Comitê.
De um lago de águas calmas ao Sul do País, onde costumava acampar para se entregar às delícias de vaporosos cigarros de haxixe, veio a lembrança de tagarelar horas sem fim. O vento forte e frio trazido pela tempestade ruidosa, não lhe furtou a nostalgia de momentos doces junto à fogueira. Tocou de leve a vulva, aquecendo-a com dedos e pensamentos longos. A chuva lançava em ondas a liquidez de seus espinhos translúcidos. Mas as praias ensolaradas da memória faziam-se escudos para protegê-la.
Haveria, por certo, uma batalha entre demônios e anjos, mas Zeth não precisava se preocupar. Conhecia o nome daquele que lhe conduziria a alma. Estava certa que, de tempo em tempo, o universo inteiro reiniciava seu curso num ciclo fantástico e infinito chamado destino.
– Ah, tempos sem deus! – gritou sob as agulhas cristalinas que se despejavam das nuvens. Foi seu último gesto.
Pelo inquérito, porém, o que se soube é que Zeth fora puxada à força para dentro do carro por Heliogábalo. De fato, o velho motorista admitiu o fato e justificou sua atitudedevido ao perigo iminente. Testemunhas que se encontravam na parte externa do shopping, entre elas dois religiosos, relataram com alguma congruência que uma intensa luz azul se projetou do chão e tragou o carro, tão logo ele partiu. Todos os depoentes descartaram qualquer possibilidade de raio ou explosão. Os tais religiosos insistiram em dizer que tudo ocorreu sem ruído algum e que isso era um sinal de falha no pleroma. Contudo, Vlad Malescu, um respeitável empresário que se encontrava próximo ao local, explicou de forma extremamente convincente que o asfalto cedera naturalmente sob o veículo e que a luz que se viu surgiu depois, devido a estragos nos faróis. Quanto aos ruídos ou à falta deles, observou que por conta da tempestade e da distância seria muito difícil que alguém conseguisse ouvir fosse o que fosse.
De todo modo, as águas foram impiedosas e permitiram que o veículo fosse resgatado trinta e seis horas após o ocorrido. Havia-se enfiado no que seria uma antiga garagem, provavelmente utilizada como abrigo durante o bombardeio moslemk. Heliogábalo, embora ferido, fez questão de acompanhar os trabalhos. Diante da imprensa, lastimou dolorosamente a morte de Zeth e considerou-se feliz por ter escapado com vida. Declarou não ter qualquer conhecimento sobre o coquetel alucinógeno, posteriormente apontado pelo laudo como a causa da morte da cantora. Seu comportamento parecia correto. Sustentou repetidas vezes que seguiu pela saída N do estacionamento sob intensa chuva e que uma forte luz azul era sua última lembrança do acontecido. Todos acreditaram nele.
            O caso Zeth foi encerrado rapidamente, mas como acontecimentos estranhos parecem acompanhar sempre a morte de artistas famosos, fatos novos deram combustível à mídia. Dentro da velha garagem foram encontradas ossadas pertencentes a quinze corpos o que, junto com outros achados, como restos de pequenos animais, equipamentos de sobrevivência em confinamento e um velho candeeiro agitaram a imprensa e acenderam a curiosidade do povo. Para completar, descobriu-se sob a lama que recobria as paredes internas, pinturas de caráter religioso, salmos apocalípticos e deturpações dos mandamentos sagrados. Vários objetos de uso infantil, como berços, banheiras e brinquedos, também foram encontrados no local.
Os restos mortais jamais foram identificados e somente dez anos depois a imprensa voltou a comentar o fato. Justamente quando iniciaram as gravações de “Báratro Barato”, filme sobre a vida de Zeth. No mesmo ano, surgiu nas mãos de um historiador estrangeiro chamado Joey Schatten o manuscritoManual da Alma Feminina”, publicado e admitido como sendo da autoria de cantora. Alguns fãs chegaram a contestar a obra, mas isso pouco repercutiu. Afinal, o livro quase não vendeu e acabou caindo num esquecimento triste e mofado. O filme, por sua vez, foi sucesso de público e de crítica. A atriz que interpretou Zeth, Beatrix de Averno,  revelou-se excelente vocalista e tornou-se mundialmente famosa. Até morrer, manteve-se fiel à música e à imagem que copiara de Zeth. Jamais voltou às telas, a não ser em videoclipes. Curiosamente, conta-se que, em seu leito de morte, repetia sucessivas vezes a frase “Ah, tempos sem deus!”, maneando negativamente a cabeça.
Em Murghab, apesar da paz aparente, era uma época de terror, onde os mais fracos atormentavam os mais fortes, numa inversão de papéis possível pela democracia. A Terra, indiferente a tudo, girava na velocidade de sempre e as coisas que sempre existiram continuavam simplesmente existindo, como parte de um plano superior ou de um destino completo e inexorável.


BLUES, UÍSQUE & OS DENTES DA MORTE

“– As árvores, meu filho, não têm alma!
E esta árvore me serve de empecilho...
É preciso cortá-la, pois, meu filho,
Para que eu tenha uma velhice calma!”

Augusto dos Anjos



                        A música reinicia. Um anjo alvoroçado pousa na janela e observa com minuciosa atenção. Pelo chão do apartamentocopos abandonados, cigarros de haxixe queimados, canudos de papel, garrafas, comprimidos, lâminas e outros objetos danados. Aqui e ali, as sedutoras lingeries de Zeth roubam atenção das paredes povoadas de fotos esvoaçantes. No quarto, a moça de cabelos vermelhos se espraia sobre os lençóis, deixando à mostra a beleza cruel de suas nádegas de vinte anos.
            Súbito, a porta se abre. Miro discute violentamente com Adelar – gangster de estilo pedante e gestos cinematográficos, que impõe e financia o assalto. Ele quer a qualquer custo que a ação se realize no prazo de dois dias. Miro, todavia, considera a precipitação injustificável e exige tempo para aguardar os acontecimentos. O País está na iminência de um novo golpe e isso, a seu ver, é favorável ao plano. Os outros dois, Chicó e Candô, conversam entre si, num tom de voz amiudado, conveniente para quem não quer se expor à ira do gangster abrutalhado. Quando Zeth chega à sala, abotoando a blusa diminuta, Miro e Adelar estão em ebulição:
Esperar mais é besteira! Pra que ficar marcando? – diz Adelar, antes de engolir um punhado de aspirinas.
Besteira seria agir agora. Acho ótimo que você tenha trazido mais armas, mas não tem a menor condição. Temos que agir na hora certa...
Qual é, porra? Vai dar uma de bunda-mole, seu merda? Tá esperando que o cofre se abra pra você?
            Adelar abre com estardalhaço a maleta repleta de armas e ergue-a à altura dos olhos de Miro.
– Tá tudo aqui. Um verdadeiro arsenal. No armário tem equipamento suficiente pra despachar todas as milícias do mundo e vocêcom frescura, porra? Perdeu o culhão, tá a fim de morrer? Esqueceu que vocês devem à Organização? Querem pagar com a vida ou o quê?
Pega leve, Adelar. Vamos fazer a coisa funcionar pra todo mundo. Ninguém tá fugindo do serviço...
Escuta aqui, seu merda. Você tá amarelando...
Os gritos de Adelar prenunciam a desgraça. Candô, que é malandro sestroso e dono de uma vivacidade inata, cuida de não se meter na encrenca e escolhe o silêncio como guarida. Chicó, entretanto, decide interceder por Miro e entra na conversa tentando parecer firme:
Ninguém tá querendo amarelar não, compadre. O Miro tá dizendo que fazer nas coxas não dá. O lance é brabo. Tu tem que entender isso , maninho, tá sabendo? Tem que entender...
Eu tenho que entender? – vocifera Adelar, sacando de uma automática, que enfia entre as sobrancelhas de Chicó. – Eu tenho que entender, sua bichona filha-da-puta? Eu tenho que entender o quê? Que tu é uma bonequinha? Quem te deixou falar comigo, seu bosta? Quem te mandou abrir a boca? Bicha abre a boca pra chupar pau. E é isso que tu tá querendo, não é, seu merda? Não é?
Candô, diante da cólera de Adelar, tenta contornar, com alguma brandura:
Qual é Adelar, porra. Deixa o cara, mai bróder. Vamos resolver na conversa, usando a palavra, xará...
Palavra, é? Eu não preciso de palavras pra ensinar respeito a este infeliz filho de uma égua...
Despertando da letargia em que se mantinha, Zeth tenta uma conversa macia, mas é repelida com um golpe que a atira ao chão. Miro não demonstra qualquer emoção quanto à atitude de Adelar e deixa a sala, silencioso. Adelar prossegue despejando impropérios e põe Chicó de joelhos à base de coronhadas. O anjo alvoroçado testa com os dedos etéreos o fio de sua foice prateada. Candô se move de um lado a outro da sala. Sem saber o que fazer para ajudar o companheiro, ele passa a tagarelar como um louco, implorando a Adelar que poupe a vida do amigo. As palavras, entretanto, não têm mais importância. Quadro após quadro, o dedo de Adelar no gatilho, seu perfil adunco, sua pistola apontada para a têmpora de Chicó, tudo enfim, se desenrola como um filme terrivelmente angustiante. Adelar sua às bicas exalando odores complexos e desagradáveis. Com os dedos grossos retira a saliva espumante do canto da boca e, sem tirar os olhos de Chicó, avisa:
– Vou matar esse merda!
Um silêncio gelado de insuportáveis toneladas desaba sobre o grupo e o tempo se concentra, deixando tudo mais lento, frio e pastoso. Zeth leva as mãos às têmporas. O estampido súbito e exato de um tiro faz com que seus olhos se fechem. Agora, tudo é escuro e há, no ar, o tilintar interminável de uma cápsula de metal contra o granito do piso. O anjo, antes alvoroçado, move-se serenamente e conclui seu trabalho.
Os olhos de Zeth estão abertos de novo. Na parede à sua frente, sobre dezenas de fotos, escorre ainda grande parte da gosmenta massa cefálica de Adelar. Saindo da imobilidade transitória, Miro coloca a arma sobre a mesa e enxuga o suor da testa com o dorso da mão. No velho aparelho, a música mais uma vez reinicia.
Os acordes alucinantes parecem formar uma nuvem de cifras entre os rostos estupefatos. Nenhuma palavra. O sangue exposto faz emudecer. Miro senta-se de frente para o morto e coloca a cabeça entre as mãos. A troca de olhares que se segue parece servir de explicação para o ocorrido e sobrevém uma sensação de entendimento entre os quatro companheiros.
Porra, esse cara era foda. Tinha que dar nisso mesmo, Miro. Não te grila não, mai bróder – diz Candô, enfrentando a tremedeira para acender um cigarro de maconha. – Tu quase desencarnas, hein Chicó? Abelhudo, metido a macho... Se não fosse o Miro, tu tava fodido...
            Chicó, colorido de hematomas e encharcado pela própria urina, vai para o banheiro sem dizer palavra. Tem os olhos arregalados e mal acredita estar vivo. Zeth o acompanha com o olhar e aguarda que ele feche a porta antes de falar.
– O coitado se molhou todo. Eu não consigo acreditar. Não dá. Eu acordo, com “essa” ressaca, quer dizer, eu estou bêbada ainda... eu acho... rola essa discussão, essa porra toda... Chicó tá todo fodido... é assassinato... matamos um cara da Organização... e agora? Como é que é? A gente apagou o...
Eu apaguei o cara – interrompe Miro, gerando uma estiagem de palavras. A música, de tanto se repetir, perdera todo e qualquer significado aos ouvidos ou, talvez, nem fosse percebida. Num gesto rápido e inesperado, Miro saca de um papelote e espalha uma grossa fileira de cocaína sobre a mesa. Aspira quase tudo, com um pequeno tubo de metal, e fala ironicamente grave, enquanto limpa o nariz:
Eu apaguei. Mas nós vamos ter que dispensar. Ninguémfora dessa.
            Depois de muita discussão e uma dúzia de ataques histéricos, Zeth, Candô e Chicó – sob as ordens de Miro –,  põem mãos à obra. Plásticos, cordas, serras e outros apetrechos são reunidos por eles. Zeth pede a Miro que traga à cena as duas malas incrivelmente velhas que possuía e acende incensos por toda parte. Há muito sangue entornado e o odor desagradável paira no ar, compondo com asco o clima horripilante. Em busca de forças para a tarefa repugnante, os comparsas bebem e se drogam a não mais poder. Chicó, tendo que partir o tronco de Adelar, por força de serras, é  acometido de fortes náuseas e vomita copiosamente sobre as vísceras expostas.
            Horas depois, cuidadosamente apartado e embrulhado, o corpo de Adelar é disposto nas malas puídas. O apartamento está limpo e, por trás do cigarro trêmulo, Zeth tenta aparentar tranqüilidade. Miro, copo de uísque na mão, passa roçando-lhe as nádegas e desastradamente derruba a maleta de Adelar. Sob olhares atentos, Candô toma-a nas mãos e examina o seu conteúdo.
Alta tecnologia, mai bróder... Esse desgraçado era quente mesmo. Não é qualquer um que consegue equipamento assim. Se a gente não fizer tudo certinho... Ih! Olha essas fotos! O cara era a maior bichona, mai bróder... Dá pra crer? Masô e tudo. Olha o tamanho do cara atrás dele, quem diria mai bróder, quem diria...
            Mudando o rumo da conversa, após um vigoroso gole, Miro se dirige a Candô e Chicó, explicando-lhes minuciosamente como devem se livrar do corpo. Em seguida, marca hora para acertar os detalhes finais do plano e conclui:
Sem furo. Comigo não tem essa de vacilar. Esse merda desse Adelar meteu a gente nisso e agora não tem volta. É fazer na boa, pra se dar bem e sair fora voando. Vou plantar essas fotos por . Talvez a gente ganhe tempo com isso, mas... Depois eu explico. Muita confusão vem por . O Comitê deve cair e nós temos que usar isso a nosso favor. Quando o pau cantar, a gente: Se dando bem, na manha do gato.
            Candô e Chicó saem com as malas. Estão zangados e cansados, mas não questionam a decisão de Miro. Sabem que é melhor obedecê-lo. Com tranqüilidade, Miro encobre com massa acrílica o local onde a bala havia se encravado e garante à namorada que a “operação” vai ser mais fácil sem o Adelar. De fato chega convencê-la e, percebendo isso, começa a sonhar:
– É fazer direitinho e pegar a grana. Depois, a gente se livra destes dois bundas-moles e se manda pro paraíso...
– Ah, Miro! Eu nem gosto de falar disso.
Eu também gosto deles, Zeth. Mas, na situação que a gente tá, não tem disso. Nada de sentimentalismos. hotéis de luxo, praias, iates, farras e farras e farras e farras...
            Zeth sorri, tentando afastar seus temores. Sabe que a sorte está lançada e que aqueles que fraquejarem serão os derrotados. Com mãos habilidosas, conduz o namorado e a garrafa de uísque para sua cama. Desvencilhada de todas as roupas e de todas as tensões, inicia um luxurioso jogo de prazer, em que ora é caça, ora é caçadora. A música, que mais uma vez recomeçava, misturava-se agora ao som da chuva, que estilhaçava suas hastes transparentes contra a janela. Íncubos e súcubos aguardavam preguiçosamente a hora da diversão.
Fora dos limites da capital, depois de dirigir por horas angustiantes, Chicó e Candô acabam encontrando o lixão clandestino, recomendado por Miro. Após dar fim ao que ainda havia de bebida, retiraram as malas do porta-malas e avançaram sobre os monturos desafiando o vento e a chuva.
– O trabalho sujo tinha que ficar com a gente – gritou Chicó, para ser ouvido – É foda. Vai ser a vida toda assim? E o pior é que se havia chance de sair vivo, tá indo pro lixo com esse bosta desse Adelar filha-duma-puta. Depois de tanta merda ter rolado. Dá pra acreditar?
– Fica frio, mai bróder, o Miro sabe fazer as coisas. Nãopra ficar, nem pra fugir sem grana. A única coisa que a gente pode fazer é seguir o plano. No primeiro sinal de ataque do Movimento, a gente age. Vai dar tudo certo e daqui a pouco, não vai mais ter puta pobre do outro lado da fronteira, mai bróder!
Chicó, entre lamurioso e amedrontado, resmunga:
– Sei não, maninho. pensou se o Miro vacila e pinta merda braba? Hummm...
            Neste momento, com os olhos no lixo, Chicó assiste ao desastroso filme criado por sua imaginação: Zeth e Miro caem à sua frente, atingidos pelas balas da polícia. Ele e Candô correm numa fuga desesperada. Do lado de fora do banco, a sombra ruidosa de um helicóptero paira sobre eles. Candô, ignorando os avisos, tenta subir na motocicleta e é alvejado na cabeça. Com o gosto do medo amargando a boca, Chicó chega a ir um pouco mais longe, mas logo se cercado. Em total desespero, enfia a arma na própria boca e... bang! Volta à realidade.
            A cabeça empacotada de Adelar ainda rolava monturo abaixo, quando os dois deixaram o lixão. Candô abraçou o receoso companheiro, tentando encorajá-lo:
– Fica frio. Vai dar tudo certinho, certinho. Pensa no monte de buceta que a gente vai comer e bota , meu chapa. Se o mafiosão fosse mais esperto que o Miro, ele não tinha dançado, morou?
– Sei não. Eu sinto que tem alguma coisa estranha no ar. Alguma coisa que eu não consigo entender, mas eu sei que existe e acho que quer me dizer que eu devia sair dessa. Esse cara era muito grande. Alguém deve ficar sabendo e...
Deixa disso, bróder. Esses caras aparecem e desaparecem a toda hora. Vamos andar pra frente, rapaz.
– É. Vamos . Vamos pra frente. Ainda tem muita coisa pra resolver. Tudo por conta desse desgraçado desse Adelar. Que o diabo o carregue.
            No horário combinado, os dois chegam ao apartamento de Zeth.  Ela e Miro estão em trajes mínimos, rodeados de uma enorme quantidade de latas de cerveja. Uma planta pouco detalhada está sobre a mesa e o rapaz, falando muito, aponta aqui e ali, calculando possibilidades. Candô e Chicó reclamam estar com fome, mas, para não ficarem por fora, acomodam-se e prestam atenção às palavras de Miro. Zeth, ao contrário, delira com a idéia do assalto. Ela se com a turma mascarada, de arma em punho, no meio da agência, gritando: “Todo mundo no chão!” Os guardas estão rendidos. Há choros, explosões histéricas, desmaios e o principal: ouro, jóias e dinheiro enchendo as sacolas. Sua imaginação flutua no éter. volta à realidade, quando percebe haver alguém à porta.
A razoável delicadeza das batidas não é suficiente para evitar o sobressalto do grupo. Tensos, Miro, Candô e Chicó se combinam com gestos e ficam ocultos de armas em punho. Zeth, com um trêmulo vai”, incumbe-se de atender à porta. Alívio. É Jeoffrey de Averno, o “Golinho”,  um dos garçons do Overdose, clube onde Zeth se apresenta. Muito atrapalhado com mulheres e gago em qualquer situação, o rapaz quase não consegue falar, em face da estonteante e pouco vestida beleza da moça:
– O-o-o Ma-Maurinho ma-mandou avi-vi-sar pra-pra vo-você nã-não se a-atrasar que-que o sho-show hoje co-co-meça ma-ma-ma-mais cedo e ve-vem a-aquele pe-pessoal... os gri-gringos. Fa-fa-fa-fa falou?
            Lembrando-se do compromisso logo no ato, Zeth voou para o quarto, antes que o rapaz terminasse a frase. Miro fechou a porta com rispidez e, cheio de gingado, falou enquanto exibia um avolumado pacote de cocaína:
Moçada, vamos cheirar um pouquinho, que tá começando a festa. Esse show eu não perco nem à bala, sacou?!
Chicó e Candô, com ar imperativo, viram-se simultaneamente um para o outro e falam em uníssono:
– Vá esquentar o prato!
As gargalhadas explodiram desafogando angústias, enquanto a música reiniciava outra vez.
– Estou levando teu carro e teu uísque – avisou Zeth, en passant, deixando Miro atônito. – A gente se por . Beijo. Fui.
            Apesar de estar situado em plena Praia d’Oblio, o Overdose Bar não era dos clubes mais afamados da cidade. Porém, a incerteza da situação pública diante da conturbação do país garantia uma vida noturna agitada, com bares, clubes e cabarés cada vez mais lotados. Mesmo com as chuvas, o público daquela noite superava as expectativas.
A voz metálica de Zeth emprestava ao lugar uma atmosfera de densa sensualidade. Miro, Candô e Chicó chegaram no princípio da estiagem. Passaram pelos leões-de-chácara, driblaram os travestis, mexeram com algumas prostitutas, esbarraram em casais exibicionistas e foram para perto do balcão. Fazendo graça, Miro pediu ao Golinho, alto e bom som:
Três uísques na mesa oito! Duplos, que hoje o dia foi de matar.






























O VELÓRIO E AS FOTOS

“levanta e vem (sempre num claro dia):
acende, para secar a aniagem da alma,
quará-la, em linhos de um meio-dia...”

João Cabral de Melo Neto



                        Embora não pareça, Adelar está no luxuoso escritório da revenda de automóveis El Madero – uma das fachadas para os negócios escusos da Organização. Acomodado em confortável poltrona, deixa que a cabeça penda até o punho, assemelhando-se a uma escultura tosca. Tem o olhar frouxo e os ouvidos pouco atentos ao seu interlocutor, Luigi Garbini. Sujeito de fala mansa, dono de razoável polidez, il capo Garbini é amante de charutos e grande apreciador de vinhos. Quase sempre se esforça para ensinar o que chama de bons modos para o velho e incorrigível Adelar. Mas hoje não é dia para isso. Garbini quer a companhia de Adelar apenas para poder se gabar de como vem conduzindo os negócios no exterior.
Mal fingindo prestar atenção na conversa, Adelar mergulha os olhos no vermelho alaranjado do vinho em sua taça e recorda comoamizade entre os dois foi selada. Garbini, que à época era conhecido apenas por Luigi, acabara de completar 20 anos e velava o corpo do pai, o velho Schifoso, brutalmente assassinado por um grupo rival. Como era tarde e fazia frio na pequena capela, alguns membros da família decidiram levar suas inconsoláveis irmãs para a casa do primo Carmelindo, deixando-o em vigília, na companhia de seu tio Geco, o alcoólatra, de dois ou trêshomens” e de Adelar – um dos mais importantesgerentes” da Organização.
            Tentando ser gentil, Adelar chegou-se ao jovem Luigi e ofereceu-lhe bebida. Diante da constrangedora recusa, tratou de desculpar-se rapidamente e, aproveitando, avisou que abandonaria o velório por alguns instantes, a fim de comprar aspirinas. Um descuido? Um erro? Não se sabe. O fato é que na sua ausência um grupo de matadores invadiu a capela, desencadeando grande tiroteio. Garbini viu todos os que o protegiam e mais uns cinco agressores tombarem sob as balas. Resistiu bravamente até o momento em que lhe faltou munição. Vendo-se na obrigatoriedade da fuga, saltou atravessando o vitral da capela, a fim de embrenhar-se na noite. Teria funcionado se, na queda, não houvesse partido um perônio. Sem qualquer chance de correr, devido à gravidade da fratura, Garbini logo teve uma visão assustadoramente frontal das armas de seus rivais e sentiu a mão glacial da morte acariciar-lhe a espinha. Porém, não seria aquele o seu fim. Adelar haveria de chegar no instante exato e em posição ideal para aniquilar os inimigos.
O alívio foi tão grande no coração de Garbini, que a dor da fratura quase deixou de existir. Com pequena ajuda de Adelar, levantou-se e foi cuidar do ferimento, fazendo pouco caso de sua gravidade. Muito tempo depois, Garbini ponderaria que o próprio Adelar, diante da imprevisível situação, poderia tê-lo matado. Afinal, se o fizesse a culpa recairia sobre o inimigo e, com o prestígio e a força que possuía, seria ele a assumir o controle dos negócios. Mas isso foi apenas uma ponderação. Garbini assumiu com serenidade o comando da Organização, substituindo o pai e, em dívida com a lealdade de Adelar, decidiu torná-lo seu braço direito.
Para alguns dos mafiosos, Adelar era o legítimo vice-presidente. Para outros, apenas uma espécie de conselheiro. O fato é que ele e Garbini se tornaram muito ligados e poucas vezes, no mundo do crime, se ouviu falar de tamanha fidelidade. Porém, se o correr dos anos traria o apogeu de Garbini, com Adelar ocorreria o contrário. A ligação quase paternal com o chefe tornou-o cada vez mais conselheiro e cada vez menos vice-presidente. A grande derrocada, todavia, era recente: uma operação de entrega arranjada por ele e considerada simples acabou levando pelos ares cerca de seis milhões em armas e cocaína.
Com menos poderes, menos dinheiro e ameaçado pela idade, Adelar palmilhava a escorregadia ladeira da decadência. Sentado na poltrona confortável do escritório de Garbini, ele sonhava com uma longínqua ilha paradisíaca, onde pudesse viver incógnito pelo resto de seus dias. Para concretizar seus sonhos, tramava em segredo um grande assalto e torcia para que o destino colocasse uma oportunidade a mais, à sua frente.
Você é como um filho para mim, Garbini. Como um filho. – disse ele, erguendo os olhos, numa estratégia para iniciar uma nova conversa. Então, num gesto inesperado, Garbini estala os dedos e exige total atenção. Ato contínuo, abriu o cofre e confiou a Adelar uma grande quantidade de diamantes, para que ele os negociasse com determinados compradores estrangeiros. Era uma ação grandiosa em favor de seu prestígio dentro da Organização.
Adelar, ao ter as gemas na mão, acreditou que o destino lhe sorria. Abriu cuidadosamente a maleta e, ao esconder os diamantes sob um fundo falso, calculou que Garbini jamais se daria conta do que tramava. Entre um gole de vinho e uma eructação, Adelar imaginava cada um dos prazeres que teria, desfrutando a vida na confortável condição de milionário anônimo, sob o ardente sol dos trópicos.
Ao receber instruções de Garbini, Adelar manteve-se em silêncio e tomou nota de tudo que era preciso. então disse ter conhecimento de compradores que poderiam pagar mais. Garbini demonstrou preocupação com uma possível demora na transação. Contudo, não foi além disso. Desprezando os acontecimentos recentes, Garbini tinha na fidelidade histórica de Adelar, a confiança de que necessitava para apoiá-lo.
Depois de acertados prazos e valores, brindaram, beberam e se despediram com beijos. Adelar levou consigo alguns charutos e uma garrafa de Corvo. O destino dos charutos, do vinho e o seu eram um : o voraz apetite de Patrícia, uma das mais cobiçadas dançarinas do Marinero. Prostíbulo disfarçado de casa de espetáculos, o Marinero era mantido pela Organização, há anos. Adelar, quetempos apadrinhava a garota, tinha o hábito de passar no camarim, depois da apresentação, para “visitá-la”. Naquele dia não seria diferente.
No horário de costume, após ter saciado seus instintos sexuais, Adelar abancou-se em seu camarote exclusivo. Solicitou, como de praxe, a companhia de outras mulheres da casa. Com seu jeito pedante, fuma muito e bebe muito, acompanhando as espirais de fumaça com os olhos turvados pelo vinho. Vez em quando, apalpa maliciosamente uma ou outra garota, fazendo comentários de péssimo gosto. Pensa viver um dia inquebrantavelmente comum e rotineiro, à exceção, é claro, de suas ricas perspectivas.
Bêbado mais que o de costume, Adelar prepara-se para sair mais cedo e antecipa mentalmente o seu reencontro com Luciana. Desde que a colocou sob seu controle, tirando-a das ruas, Adelar cumpre um ritual de sadismo diário, submetendo-a a abusos e humilhações. Órfã e vítima da prostituição, a jovem Luciana vive o drama de servir como escrava sexual a um dos homens mais perigosos do país.
            Interrompendo os pensamentos de Adelar, o garçom apresenta-lhe uma garrafa de vinho, enviada como presente por um dos freqüentadores do lugar. Adelar faz um gesto de agradecimento, manda guardar o vinho e se arruma para sair.
Realmentepensa elemais um dia se vai e tudo corre como deve correr...
            Adelar chega em casa com o dia clareando e há uma nuvem de demônios estrábicos a segui-lo. Grosseiramente, dá ordens aos seguranças, dispensando-os. Embriagado, atrapalha-se muito com as chaves e Luciana acaba aparecendo para abrir-lhe a porta.
– Vai entrar? – pergunta ela, timidamente.
Sorte você estar , sua puta! – grunhe Adelar ­–  O dia que você sair... O dia que você colocar o fora desta porta sem a minha autorização eu juro que...
Você o quê, seu puto de merda?
            Adelar tem um choque de adrenalina e fica paralisado ao ouvir a voz de Caio. Desconhecido para ele, Caio é um jovem atlético, que havia sido estrategicamente seduzido pela frágil, porém astuciosa Luciana. Movido de verdadeira paixão e totalmente manipulado por ela, Caio está disposto a tudo para livrá-la do jugo de Adelar. De arma em punho, ele aperta os testículos e se retorce, sem parar de desafiar o desafeto:
Você pensa que pode tudo, que pode foder com a vida de todo mundo, hein? Mas é você quem tá fodido, sadomasô de merda. Posso acabar com tua raça agora mesmo e ninguém vai poder fazer porra nenhuma. Posso te deixar cego, te cortar o pau, fazer qualquer merda quefeito e pronto. Mas não esquenta não, filha-da-puta. Eu não vou te machucar muito não. Na verdade, acho que nem vai doer...
Você era, seu merda! – gritou o embriagado Adelar, levando a mão à arma. Porém, antes que pudesse sacá-la, recebeu um golpe que o pôs a nocaute. Ao acordar, depois de horas, seu estado era lastimável. Sofria dores terríveis por todo o corpo. Virou-se com dificuldade, mal percebendo que estava vestido em trajes sadomasoquistas idênticos aos que impunha à Luciana. Ao seu lado, encontrou fotos obscenas, em que protagonizava atos indizíveis. Havia dezenas delas, explorando grotescamente diversos ângulos e posições.
Adelar tentava não acreditar no que via, mas era impossível. Levantou-se e correu enfurecido em direção ao espelho. Mirou-se e misturou no peito as mais ácidas sensações. Quando sobreveio a ira, quebrou o espelho e tudo que estava por perto. Engendrou uma gama de vinganças capazes de lhe aplacar a revolta e até tentou acalmar-se. Porém, ao despir-se dos trajes de couro, encontrou entre as próprias nádegas um bilhete que pôs por terra suas cruéis intenções, roubando-lhe os últimos resquícios de serenidade:
            “As melhores fotos estão muito bem guardadas. Se alguma coisa acontecer com a gente, elas vão estourar nas paradas. Entendeu, otário? Até nunca mais.”
C. e L.
            Impotente diante do maior ultraje de sua vida, Adelar tem um violentíssimo acesso de fúria e quebra tudo quanto suas forças permitem. Exausto, chora amargamente sua honra destroçada, até adormecer entre os cacos. Dorme um sono ruim, povoado de capirotos bêbados e girafas cobertas de agulhas.
Ao despertar, fita suas mãos envelhecidas sentindo que precisa reunir forças. Após engolir uma dezena de aspirinas, sai para articular os detalhes do grande assalto com o qual pretende mudar a vida. Deixa para trás a casa dilapidada e leva consigo um séquito de demônios insatisfeitos.











O SORRISO DA ENFERMEIRA


“Duas vezes os anjos, descendo dos céus,
Reembolsaram-me de minhas provisões.”

Emily Dickinson



           
                        Miro acorda. A sala vazia e mal cheirosa lhe é completamente estranha. Em seu rosto estão grudados fragmentos de argamassa umedecida. Confuso e imóvel em sua terrível amnésia, observa cada detalhe em seu campo de visão, como um cego a tatear por uma loja de horrores. O lugar é enorme e sujo, uma construçãomuito abandonada.
Um medo gigantesco rodeia sua alma, como um mar bravio a uma ilha oceânica. Aturdido, ouve um ruidoso movimento de tropas e levanta-se com aflição. Diante da aproximação de soldados armados, teme pela vida e foge como um louco. Atira-se pelo vão do ar-condicionado. Passa janelas, enfia-se em tubulações e atravessa salas até dar numa espécie de terraço, onde tomba de pavor, sob uma saraivada de balas.
Detectado por um helicóptero, nada pôde fazer. Em segundos foi capturado e algemado. Sem entender absolutamente nada do que acontecia, mas presumindo algo terrível ocultado de sua mente pela amnésia, Miro observava mudo o enorme contingente envolvido na operação de sua captura. Ao ser retirado do prédio, que há uma multidão de manifestantes, aproximando-se em marcha. Os soldados que o cercam recebem ordem de repelir a aproximação e se reposicionam. Há tumulto. Chovem paus e pedras sobre os escudos transparentes dos policiais, que respondem com bombas de gás e tiros de efeito moral. Arrastado desajeitadamente em meio à confusão, Miro acaba atingido por um calhau e desfalece.
            Após três dias de prisão em total incomunicabilidade, foi levado às cegas para o D.A.P.U. – o mais temido órgão do Regime. Algemado a uma cadeira no centro de uma sala mal iluminada, Miro foi submetido a interrogatório por uma equipe de oito pessoas desengonçadamente instaladas em mesas dispostas ao seu redor. Indiferente às perguntas, preocupava-se em observar os restos de pizzas e os copos de água mineral que estavam sobre as mesas.
Como alguém pode ser tão excêntrico a ponto de comer pizza e beber água? – Perguntava-se. Sua mente, como nuvens turvas, ocultava-lhe toda memória, à exceção do estranho lugar onde fora capturado e de algo que o fazia associar pizza com refrigerante.
– Estamos fartos! – grunhiu Olga Wurtz, a única mulher do grupo.
– Sabemos com quem estamos falando. Você pensou que ia ficar na sombra para sempre? Enganou-se! O Departamento colocaria as mãos em você de qualquer jeito. Com cara de bobo, sem cara de bobo... O Serviço de Inteligência pode ser uma gaiola de maricas incompetentes, mas nós agimos com precisão e firmeza. Logo, logo não vai sobrar nenhum sabotadorzinho de merda pra te fazer companhia. Verme assassino. Pústula...
            A ira derramada por Olga tinha origem em fato recente. Uma bomba incendiária causara a morte de dezenas de milicianos, durante uma ação fracassada de despejo em massa. O atentado fora atribuído Policarpo – o mais procurado e bem sucedido sabotador do Regime. Um terrorista para o Comitê de Gestão e um ídolo para as classes oprimidas pela ditadura. Sabia-se que Policarpo havia trocado de rosto algumas vezes e que poucas eram as chances de identificá-lo. No entanto, Olga Wurtz estava certa de ter o inimigo diante de seus olhos.
– Confesse, vermezinho – gritou ela, esbofeteando Miro. – Confesse de uma vez. Eu garanto que é bem melhor morrer por injeção letal do que me enraivar com esse seu silêncio idiota.
Os sete outros membros da comissão observavam atentamente, trocando olhares secretos de regozijo com Olga Wurtz que, mais se envaidecia, mais agressiva se tornava. Cuspia, batia e humilhava o rapaz com uma maestria possível pela longa experiência adquirida nos porões do Regime. Prestes a espumar de cólera, a obesa e iracunda “Doutora” decidiu pôr fim àquele interrogatório. Fez com que Miro fosse levado a uma outra sala, num traslado à base de pancadas de cacetete, protagonizado por quatro homens truculentos vestidos em fardas incrivelmente patéticas.
A tortura era realmente uma prática corriqueira do Departamento. Assim, nenhum dos presentes expressava qualquer sentimento que não fosse de deleite face à crueldade que assistiam. Ao atingir o recinto desejado por Olga, Miro percebeu o que lhe aguardava e gritou com todas as forças do seu desespero. Um velhíssimo elevador de treliças metálicas pairava sobre um tanque cheio d’água. O “confessionário”, como era conhecido o engenhotinha um funcionamento simples: descia com o interrogado para dentro do tanque até que este precisasse se comprimir contra o teto para poder respirar. A partir daí, começavam os choques.
            Miro resistiu muito até ser inserido no talconfessionário”, o que lhe rendeu muitos hematomas e algumas costelas quebradas. Mas isso foi o começo de seu sofrimento. Do lado de dentro, o medo e a dor acabaram com ele. Depois de vinte ou trinta descargas, quando a “Doutora” anotou a última tomada de tempo em suaficha de controle”, Miro havia parado de gritar e, a cada choque, apenas estremecia grudado às treliças, vendo um mundo de cores diante de si. Em seus ouvidos, embora Olga não parasse de inquiri-lo e atormentá-lo, apenas o ruído da descarga elétrica persistia. A morte rondava-lhe o peito, como um cardume de tubarões. Era impossível suportar mais. Sua alma então, transpondo os limites carnais da garganta, desprendeu-se da matéria agônica e afastou-se em grande velocidade. Uma grande viagem através de nebulosas e quasares levou-o à presença magnífica de dois estranhos espíritos. O primeiro, a quem os mortos vindos de Jerusalém pediram conselhos, disse-lhe:
Assim é o terrível Abraxas. Ele é o mais poderoso ser manifestado e nele a criação torna-se temerosa de si mesma. Ele é o terror do filho, que ele sente contra a mãe. Ele é o amor da mãe por seu filho. Ele é o prazer da terra e a crueldade do céu. Diante de sua face o homem fica paralisado. Ante ele, nãopergunta nem resposta. Ele é a vida da criação. Ele é a atividade da diferenciação. Ele é o amor do homem. Ele é a fala do homem. Ele é tanto o brilho como a sombra escura do homem. Ele é a realidade enganosa.
A alma enfraquecida de Miro entendeu tratar-se de grande sabedoria e agradeceu ao primeiro espírito pela confiança que lhe fora depositada. O segundo espírito, porém, não brilhava com luz própria. Tinha a forma de um homem esquálido, alto e recurvado, com o topo da cabeça careca e, no resto, cabelos compridos, tão brancos quanto sua barba. Com suas mãos magras e seus braços longos sustentava um candeeiro de luz estranha e intensa. Era uma luz como a que vêem os cegos durante o sonho e pôs a alma de Miro em estado de aflição. Com grande velocidade, repetiu por três vezes o segundo espírito: “Um homem que lidera uma nação de homens não pode temer a própria morte”. Em seguida, partindo em azulado redemoinho de luzes, a alma de Miro regressou ao corpo fazendo seus olhos se abrirem novamente.
            Olga Wurtz, confortavelmente sentada, lixava as unhas com imenso preciosismo, até que, num rompante, fez erguer totalmente o “confessionário” e aproximou-se de Miro falando num tom de voz excessivamente baixo, quase sussurrante:
Você pensa que é muito esperto em resistir, não é? Pois se enganou. Aliás, é bom que você comece a pensar na sua confissão para o diabo. Porque, agora, vermezinho você vai fazer sua grande viagem de volta ao inferno. Quanto ao seu último desejo... Esqueça.
            Com desdém, Olga fez sinal para que descessem o confessionário até o fundo. Rindo-se às mais esganiçadas gargalhadas, aguardava que as últimas bolhas de ar deixassem a superfície da água. Porém, nenhum anjo iria surgir para conduzir a alma de Miro. A vida ainda continuaria costurada à sua pele. Olga, inquieta, pareceu prever isso, quando parou subitamente de rir, voltando-se instintivamente para a porta que se abriu. Sob seu olhar sebento de rabugem, adentrou a sala o poderoso Franz Schüman – homem forte do Serviço de Inteligência.
– Libertem este pobre diabo – ordenou ele em tom brando para, um segundo depois, esbravejar:
– Suspendam isso, disse, idiotas!
            Os guardas que pareciam estar esperando a aquiescência de Olga cuidaram de obedecer rapidamente e Franz Schüman dirigiu-se à Doutora, com tanta soberba quanto pôde:
Vocês, incompetentes, prenderam um junkie de oitava categoria. A Força Especial acaba de capturar Policarpo. Sua confissão es-pon-tâ-ne-a está assinada e o porta-voz do Comitê vai anunciar o fato em cadeia de TV, dentro de uns quinze minutos.
– E este verme? – retruca Olga Wurtz – Com certeza é comparsa...
– O nome deste imbecil é Valdomiro Luna, um reles estudante de Química, viciado em tudo quanto é droga que possa existir. Foi dado como desaparecido há dois meses.
Mas...
Nem mas, nem meio mas, Doutora. O glo-ri-o-so Serviço de Inteligência, além de localizar o verdadeiro Policarpo, provou mais uma vez a inépsia do D.A.P.U. em ações desta natureza.
Com todo respeito, Dr. Franz, não acredito que...
– O quê a senhora acredita ou o quê esse departamento idiota deixa de acreditar não me in-te-res-sa. A ordem é soltar o rapaz.
Mas, Dr. Franz, ele vai começar a falar e...
Você sabe muito bem como lidar com isso, não é Olga? Ele é um viciado. Dê-lhe um pouco de ácido e solte-o num pasto de cogumelos, ora. O resto é com a Providência.
            Bastou. Miro foi arrastado para fora do recinto sob resmungos amargos de Olga Wurtz. Estava salvo. Em estado deplorável, mas salvo. Amarrado a uma cadeira de rodas assustou-se ao ver, na palma da mão esquerda, um sinal tatuado. Parecia tratar-se de um anagrama. Nahtriheccunde/Gahinneverahtunin/Zehgessurklach/Zunnus – estava grafado.
 Intrigado, mal percebeu quando a sorridente enfermeira espetou-lhe a veia. Assim que a droga entrou em sua corrente sangüínea, Miro mergulhou em um delírio que jamais havia experimentado. Em sua narcose louca, via homens chocando pedras, mulheres com olhos nos seios e um estranho pássaro com chifres na cabeça. Tudo aparecia e desaparecia ao seu redor. Via, como num velho filme em preto e branco, o Dr Franz ajoelhado atrás da enfermeira risonha, a levantar-lhe a saia e a sorrir como um louco. Via a imagem do velho e esquálido espírito a erguer o candeeiro e ouvia-o repetir: “Um homem que lidera uma nação de homens não pode temer a própria morte”. O interminável sorriso da enfermeira, porém, parecia manifestar-se em tudo, preenchendo com melodiosa sonoridade os mais ínfimos espaços de seu sonho caótico. Um sonho perdido entre o olhar da vida e o aleph da morte. Um sonho feito de reinvenções e deslembranças. Um sonho que lentamente é tragado pela infinita treva do coma.
Com a garganta seca e os mamilos eriçados, Miro acorda num bosque, sob a sombra silenciosa de uma figueira centenária. Debilitado e sem qualquer lembrança que lhe sirva de guia para reencontrar a memória perdida, experimenta profunda depressão. Tem, na cabeça, uma vida reduzida a suplícios e devaneios. Girando em torno do corpo, que está rodeado de árvores. Em silêncio, observa formigas, lesmas e caracóis, como quem descobre um novo universo. Mais que perdido no bosque, ele está perdido no vazio de si mesmo.
Todos os caminhos, nenhum caminho... – ecoou repentinamente uma voz trazida pelo vento. Miro buscou com os olhos, mas não viu ninguém. Levantando-se como pôde, pôs-se a andar a princípio com grande debilidade. Pouco a pouco, porém, foi tomando ritmo e logo se sentia melhor. Sob o fino sol da tarde, mesmo com os olhos ardendo, não conseguia deixar de fitar o brilho amarelado que se deitava sobre as copas das árvores. Era como ouro em . Um ouro puro. Um ouro sonhado. Uma tranqüilidade dourada a envolver-lhe o espírito.
Não sem dificuldades, transpôs uma pedregosa ribanceira e deu às margens de um lago pequeno e límpido. O enorme desejo de atirar-se na água, fê-lo crer que sabia nadar. A ação provou que sua crença estava correta. Após alguns mergulhos reconfortantes, desvencilhou-se das roupas e colocou-as a secar num arbusto próximo. Nu, deixou-se flutuar habilmente nas águas mansas, entregando-se ao sono, na esperança de um despertar renovado de energias. Caiu então num sonho leitoso, com imagens que tremulavam e com vozes que pareciam vir de muito longe. Via-se atado a uma cadeira, no centro de uma imensa sala vazia. Tão grande era o recinto, que lhe era impossível calcular a que distância ficavam as paredes. Começou então a ouvir um som crescente que logo seria como o ruflar de mil asas.
Pouco depois, vieram os gritos. Eram gritos de uma multidão de homens. A sala foi  tomada por dezenas de ratos, que se tornaram dezenas de soldados e se tornaram ratos novamente. Os grunhidos de Olga Wurtz vêm de um lugar incerto e enchem-no de terror. À sua frente, surge Dr. Franz. Com as calças arriadas até os tornozelos, ele esfrega o pênis murcho no rosto da enfermeira, que ri aos borbotões. Olga aparece à sua direita. Vestida de branco, gira entre os dedos um velho e enferrujado boticão. Sem perda de tempo ou maiores dificuldades, pinça-lhe um canino e força a extração, rindo a não mais poder. Alucinado, no ápice da dor e da aflição, Miro despertou.
O movimento brusco fez com que engolisse considerável quantidade de água. Não tardaria, contudo, a superar o engasgo. Impulsionado pelo frio, tratou de localizar o ponto da margem onde deixara as roupas. O véu estrelado da noite estendia-se sobre a superfície calma do lago e isso lhe trouxe alguma tranqüilidade. De fato, se sentia bem melhor e as únicas coisas que o incomodavam eram a fome e o perturbador sorriso da enfermeira, que não lhe saía da cabeça.
Nadando com destreza, logo avistou a fogueira de um acampamento, onde alguns jovens se esbaldavam em gargalhadas. Suas roupas – percebe quase de imediato –, estão próximas demais para que ele possa apanhá-las sem ser visto. Por isso, durante algum tempo fica observando os campistas, com os olhos e o nariz fora d’água. Há um garoto magrinho que toca um violão esquisito ao lado de quem lhe parece ser sua namorada. Há, ainda, outros três: duas garotas e um tipo barbudo, que bebe a fartos goles num garrafão de vinho.
Uma das garotas lhe pareceu belíssima, apesar da estranheza dos cabelos vermelhos. Fumava um enorme e vaporoso cigarro que, vez por outra, dava estalidos e espalhava brasa para todos os lados. Cada vez que isso acontecia, ela desatava em gargalhadas, as mais gostosas que ele ouvira. Talvez por isso, Miro sentiu-se encorajado a aparecer e tentar reaver suas roupas. Mas, para evitar maiores embaraços, dada sua nudez, manteve se parcialmente dentro da água e arriscou um tímido “Hei, pessoal!”. Fracasso. A garota das gargalhadas gostosas se assustou e lançou no ar um grito agudíssimo. O tipo barbudo avançou em sua direção empunhando um pedaço de madeira incandescente retirada da fogueira e disparou:
– Qualé, mermão? Tá querendo morrer ou fazer graça?
Calma, calma. Eu quero pegar minhas roupas, que estão ali atrás. Eu cochilei no lago e...
– Traz a lanterna , magrão – diz o barbudo, sem tirar os olhos de Miro – Se você estiver com onda, vai se ferrar. Cochilar no lago...
            Descofiadamente, o barbudo pegou as roupas de Miro no arbusto e, após minucioso exame, perguntou sem entregá-las:
Tu fazes alguma coisa na vida? Veio aqui roubar a gente, xará? Você não tem um documento mermão...
Calma, Brunão. – interveio a garota das gargalhadas gostosas. – Você não que ele tá assustado? A culpa foi toda minha. Pensei que fosse um fantasma ou sei o quê. Olha irmão, termine de se vestir e venha sentar aqui perto da fogueira, que a gente conversa, tá legal? Meu nome é Zeth. Tá tudo legal. Tá tudo tranqüilo. Vou te apresentar o pessoal e a gente vai curtir de montão. Você gosta de ácido?































AMOR, ESTRANHO HAXIXE


Cerro os olhos e cai morto o mundo inteiro
Ergo as pálpebras e tudo volta a renascer
(Acho que te criei no interior da minha mente)”

Sylvia Plath


                        – Hoje eu estava pensando mesmo que ia acontecer algo diferente. Quer dizer, eu sabia que ia encontrar alguém. não pensei que fosse assim, de um susto. Ah! Deixa pra . Deve ser esta coisa que faz isso. Eu simplesmente falo sem parar e fico dizendo coisas loucas. Bem, vocêaqui e afinal eu tenho cabeça suficiente pra saber e dizer o que eu ...
            ...Não me beije antes de eu acabar. Se depender de mim a gente fica um tempão junto, sabia? Eu também quero te amar e... É melhor a gente terminar de fumar este todo e, afinal quero dizer umas coisas...
            Eu sou virgem e... Ah,ah! Claro que eu tô brincando. Afinal, você não iria amar a minha virgindade. Bom, este lago e esta fogueira, que parece engolir a gente, fazem parte de um conjunto... Tá todo mundo dormindo, bêbado e chapado e euaqui doida pra ficar mais doida e trepar e dormir chapada com você que eu não conheço e que você também não conhece e afinal isso não tem nada a ver com porra nenhuma.
            Na verdade tudo que eu quero é te dizer umas coisas lindas e te fazer perceber que eu também sou linda e doida e que às vezes não sei o que dizer. Vou pegar um gravador e registrar tudo. Não. Não vou. Vou te fazer uma música. Uma música que vai fazer você lembrar quem é. Ou não. Acho que o grande lance ia ser mesmo... Você não quer fumar? Olha... Meum beijo. Eu quero muito você. Mas não diz nada. Fica quieto. Eu não preciso saber nada de você. quero que você me sinta e preciso enfim dizer o quero dizer.
            Eu tentei escrever um livro de contos uma vez. Ainda não sabia bem o que eu iria fazer da vida. Ainda não sei. Tentei escrever. Agora quero cantar... De qualquer forma eu escrevi um conto, imaginando a vida muito estranha de um homem louco. Um louco que eu no fundo queria pra mim e eu não sei bem porque...  O conto não ficou bom. Acho que ele vale pra mim.
Como eu ia dizendo o cara era muito louco e vivia na farra e se apaixonava, essas coisas e um dia ele caiu numa grande cilada, por conta de querer descobrir o significado do que ele fazia. Ele mergulhou num ciclo vicioso, numa confusão de fantasia e realidade de um jeito que nãopra explicar agora.
            Talvez eu esteja falando isso pra te impressionar ou pra me sentir inteligente e... Tome, nãoqueimar o dedo. Ah... Sim! O conto, a novela, a narrativa, a história ou seja o que for. Eu escrevi isso. Agora não escrevo mais. canções... O fato é que eu queria poder ler isso tudo pra você, mas eu sei que isso não funciona. Até porque eu ficaria comentando cada parágrafo e a gente não sairia daqui nunca.
            Tô falando demais, não é? Nem expliquei nada e tô falando pelos cabelos. Fiz bem em largar a faculdade. Não iria dar certo mesmo. Sabe garoto, apesar do susto, foi lindo você ter aparecido daquele jeito louco. Parece que você saiu do meu conto. Talvez, no fundo, você seja uma invenção minha. Um sonho que eu criei com esses meus neurônios eletrificados cheios de , haxixe e otras cositas más. Memais um beijo com essa boca de vinho. Bendito vinho...
            Viva o Supremo! Viva a doideira! Viva a vida! Viva a fogueira, este lago, esta noite, tudo. Essa coisa tá fazendo um efeito louco, daqui a pouco eu começo a falar tudo rimado. Mas, o que importa a uma mulher jovem, senão o momento? Sabe, eu nãonem pro futuro. Nem pro passado. A gente sempre tem coisas ruins no passado. Não fique chateado com o que eu vou te dizer mas acho que você tem sorte de não se lembrar de nada. O passado nunca vale a pena. O futuro... Bem, o futuro nunca chega. É uma babaquice. Coisa de quem não sabe viver. A vida é isso. É isso: a gente aqui, vivendo. Sem frescuras. Sem preconceito. Sem futuro. a nossa vida acontecendo pela força de um destino com D maiúsculo.
Ah, se tu soubesses...  Eu quero tantas coisas na vida. Qualquer um quer. Masalgo no meu querer que é diferente. Quero muito e quero com toda a intensidade. Quero qualidade. Quero sentir tudo. O que você deve estar pensando? Não diga. Deixe que eu me esbalde de tanto tagarelar. Assim fica mais fácil. Você sabe que eu te quero e que quando eu quero, quero tudo. Desde a minha infância foi assim.
Infância é algo diferente do que o que eu costumo chamar de passado. A infância é como uma outra vida. Uma vida mergulhada em luzes suaves. Até o que é opaco brilha. Uma lata pode valer mais que o ouro mais valioso. Mesmo assim não sei se eu gosto de lembrar. que tem umas coisas que a gente nunca consegue esquecer. Nunca me esqueço de uma traquinagem fantástica...
Eu tinha uns onze anos, eu acho, quando isso aconteceu. Meus pais eram recatadíssimos e, francamente, hoje eu sei o tanto de hipocrisia que havia nisso. Minha mãe, muito mais velha que meu pai, era quem comandava a casa e, na intimidade, vivia oprimindo e humilhando o coitado que ganhava bem menos que ela. Nós morávamos numa casa boa naquela época e tínhamos uns quatro ou cinco empregados. Minha mãe, toda cheia de problemas, vivia tomando remédio para dormir. Assim, era a velha pegar no sono e meu pai pulava da cama. Ia, ante , para o quarto de Ludmila, uma empregada bonitinha que ele comia toda noite.
            Eu sempre ia atrás bem escondidinha e ficava espiando por uma fresta que tinha na porta. Era um ritual. Ela chupava o pau dele. Ele se deitava por cima dela e depois de alguns amassos e sussurros, o sacana esticava o braço para o armário e pegava uma camisinha. Depois você sabe. Mas o negócio é que a camisinha tava sempre , no mesmo lugar. Um dia, na maior sacanagem, coisa de menina levada, com uma idéia digna dos melhores desenhos animados, peguei uma ratoeira enorme que eu tinha achado no sótão e armei bem onde ele pegava a camisinha. Nessa noite eu fiquei excitadíssima. Não era uma coisa pra punir ele, pois até acho que o que ele fazia era uma boa paga para a arrogância de minha mãe. O que me excitava era estar participando de um ato condenável... Quer dizer... Sei .
Aquela idéia de culpa, de crime, de maldade... Tudo me excitava e, enfim, era uma boa traquinagem. Não sei porque eute falando isso. É uma coisa tão...
Mas o fato é que aconteceu. Eu não pude dar uma gargalhada, pra não ser descoberta, mas até hoje morro de rir ao lembrar. Papai ficou desconfiadíssimo, foi até o meu quarto, mas me encontrou dormindo na maior naturalidade. De manhã, além de não poder perguntar nada pra mim, o coitado ainda teve que explicar pra minha mãe onde tinha machucado a mão. Foi nessa época que eu comecei a pensar em consciência. Consciência é uma coisa interessante. Todo mundo diz que tem, não é mesmo?
Escrevi um conto muito louco uma vez. Era sobre um cara, um poeta. Desses bêbados de rua, jogados... Ele foi um cara mais ou menos equilibrado, por um certo tempo. Tinha uma vida de pobreza, mas era considerado normal. Ele acreditava que tinha dois “eus” dentro da consciência. Um que falava, outro que respondia. Os dois lados fundamentais. Um meio ruinzinho, outro meio bonzinho, se é que nessa história tem “meio”. O que rolava é que os dois “eus” dele discutiam o tempo todo e, assim, a consciência do cara tinha um certo equilíbrio. Aí, num belo dia, ele acorda e descobre que o lado bom matou o lado mau e... acaba pirando. Ele vira mendigo e morre no lixo, devorado pela própria loucura. Dele não sobra nem um poema, nem uma lembrança, nada...
            Eu tô pirando e acho que é melhor parar de falar ou vou contar todas as besteiras loucas que já inventei na minha vida. Desse jeito você acaba me internando. Eu não quero isso. Quero que você leia meus contos... Acho que você saiu desse universo. Não sei bem porquê. Nem quero saber. Só quero você. Vem me beijar. Me agarra. Me ama...








































SOB O SIGNO DE AURÉLIO

“Da gargalhada atroz, sanguinolenta,
agita os guizos, e convulsionado
salta, gavroche, salta clown, varado
pelo estertor dessa agonia lenta ...”

João da Cruz e Sousa




                        O bairro onde Aurélio Francisco morava era de lascar. Havia de tudo entre o armazém bananeiro e os cabarés: tráfico, jogatina, terreiros de umbanda, igrejas evangélicas e Deus sabe mais o quê. Não bastasse lixo e esgoto a céu aberto, novas e enormes crateras se formavam a cada dia, estrangulando o tráfego e aumentando o caos na altura da Rua dos Turcos. Reclamar ninguém podia. Eram tempos de ditadura.
Homem simples, Aurélio ganhava a vida como eletricista de uma companhia privada e somava ao salário os rendimentos da sorveteria Azul Anil – um pequeno negócio que mantinha na parte da frente da casa, com a ajuda da mulher, Catarina. Moça meiga e muito bela, “Catinha” preparava os sorvetes, atendia com presteza os poucos fregueses e ainda dava conta dos trabalhos domésticos. Parecia viver a lírica alienação da vida na periferia, com suas rotinas inquebrantáveis e a inexorável companhia das músicas sertanejas.
            Aurélio definia-se como homem reto. “Di casa pru selviçu, do selviçu pra casa”, gostava de dizer com seu jeito capiau. Pouco dado a farras e à companhia de amigos, não saía nem mesmo nos fins de semana. Quando muito, convidava uns parentes pra comer um bode ou mesmo um pato, sob as árvores do seu imenso terreno. Era colocar as caixas acúisticas na varanda e pronto. A casa era seu maior orgulho – herança do pai, o velho Aurélio Chicó. O grande prazer de Aurélio era gabar-se da imponência de sua morada, ainda que invariavelmente acabasse por se aborrecer com os comentários de Catinha, sobre a péssima conservação do imóvel.
            O casal respirava uma atmosfera de razoável harmonia, mas o fato de não terem filhos causava incômodo ao sacerdote e dava assunto para os vizinhos mais afeitos a comentar experiências alheias. Todavia, Aurélio e Catinha não se perturbavam. Quando o assunto lhes chegava aos ouvidos, ela erguia as mãos para o céu e dizia que tudo dependia da vontade de Deus, renegando veementemente o fato de que fazia uso de contraceptivos. Aurélio, por seu turno, gostava de dizer: “O negócio é ardquiri patrimonho. Dispois a gente vê...” e logo mudava de assunto.
Numa segunda-feira cinzenta, porém, Aurélio pôs-se de pé mais cedo que o costume. Ligou a vitrola e, pela primeira vez na vida, sentiu o real desejo de ser pai. Indiferente à umidade e aos insetos, passeou lentamente sob a copa das árvores embalado por ensurdesedores decibéis de música brega. Parou subitamente ao fitar um rasgo de céu e, movido do que seria uma profética visão, idealizou o herdeiro: “Sementi forti. Um varão di dá inveja. Homi séro, corajoso, galanti e dominadô. Fio legítimo di gente lutadora e di respeito. Vai ser um cabra vencedô”.
Aurélio estava de fato decidido a engravidar a mulher. Fazendo pequenas contas de cabeça, planejou economizar o necessário para a chegada do primogênito. Já pensava até onde matricularia o menino, quando Catinha – surpresa ao vê-lo divagando àquela hora –, tratou de chamá-lo para o café. Atendendo a seus apelos saturados de meiguice, Aurélio não se fez de rogado. Nutriu-se de café e beiju e partiu para a labuta. Cruzou com prostitutas que voltavam ao cabaré arrastando sandálias ordinárias desafiveladas, esbarrou nos homens suados do armazém bananeiro e seguiu para o ponto do ônibus, sem parar de pensar na melhor forma de contar a “sua decisão” para Catinha.
            Após toda a manhã de um trabalho cansativo e irritante, Aurélio sentou-se com outros operários de marmitas à mão. Nem bem iniciou o almoço e o encarregado lhe comunicou que deveria comparecer ao departamento de pessoal. Estava demitido. Colérico, não terminou a refeição, nem quis se despedir dos colegas. Comprimiu-se no velho ônibus sucateado, perfeitamente resolvido a “tomá uns trago pra isfriá a muleira”.
No botequim do “Seu Irmão”, perguntado sobre o que fazia àquela hora “zangado e ainda por cima bebendo”, Aurélio acabou contando seu drama de desempregado. Bartô – o velho carroceiro que o inquirira –, bateu o copo no balcão e comentou com todas as farpas da ironia: “É, meu cumpadi. O negócio não tá bom pro teu lado não. Mais essa agora, hein? Se eu fosse ocê, abria dos óio e mandava batê um belo dum tambô, que é pra quebrá as urucubaca, tá me ouvindo? ”
            Aurélio fez pouco caso da conversa puxada por Bartô, mas decidiu que era hora de ir para casa. Pagou a conta e saiu apressado, com a boca recendendo a cachaça e a cabeça a esquentar-lhe as preocupações. A recessão que convulsionava o país arrastava famílias inteiras à miséria. Vitimado pelo desemprego em época tão hostil, via que o sonho do herdeiro iria escorrer como água entre seus dedos. Eram quase três da tarde e o mesmo calor que afastava as pessoas da rua ajudava a compor a inquietude que lhe torturava. Trocou passos aflitos, esbarrou nos homens suados do armazém bananeiro e passou pelos cabarés adormecidos. Teve um sobressalto ao se deparar com uns garotos que saíam correndo de sua casa, mas julgou que houvessem invadido à cata de mangas e relaxou.
Achou estranho o fato da sorveteria ainda estar fechada. Atravessou o jardim e seguiu apreensivo quintal adentro imaginando encontrar a mulher em alguma tarefa inesperada e urgente. Afinal, não havia desculpas para tamanho descuido. Driblando os pilares da caixa d’água ao som de uma melodramática música brega, Aurélio rumou para a lavanderia, que ficava ao fundo. Apesar do alto volume da música, pode distinguir uns gemidos abafados e o medo de que algo terrível estivesse acontecendo amargou-lhe a boca.
Esgueirou-se pelo poço observando atentamente. Súbito, o espanto branqueou-lhe a face. Por entre a folhagem, viu o rosto crispado da mulher, com a boca tapada por uma peça de roupa e fortemente comprimido sobre o tanque. Correu até ela aflito e tomou um susto ainda maior ao perceber o que de fato acontecia. Sua amada Catinha, a mulher que lhe daria o filho de seus sonhos, estava sendo violentamente sodomizada pelo quitandeiro Zé Dionísio. Possesso, Aurélio olhou para os lados e, encontrando uma estaca, partiu para cima de Zé Dionísio gritando alucinado.
– Feladaapuuuta!
Zé Dionísio, crioulo forte e sestroso, soube livrar-se dos ataques de Aurélio e na primeira oportunidade sacou do revólver e atirou sem hesitar. Catinha, destapando a boca, atirou-se em desespero sobre o peito ensangüentado do marido. Aurélio estava tomado de silêncio. Não sentia dor alguma. Não ouvia nem música, nem som algum. A histeria da mulher que se descabelava sobre seu peito não lhe inspirava qualquer sentimento. Tudo que havia para ele era a dança muda que o sol ensaiava nas folhas da mangueira. Depois veio o frio e, ao fim, a escuridão.
A vizinhança adentrou a casa tão rapidamente após os disparos, que boa parte dos intrometidos ainda assistiu a fuga de Zé Dionísio. Após um momento de estupefação, Dona Otília vestiu a mulher e o turco Farad tratou de levar o ferido para o pronto-socorro.
Muitos dias depois, sem que Catinha deixasse a casa para saber do marido ou para o que quer que fosse, Aurélio surgiu. Ombro enfaixado, braço na tipóia e entupido de remédios, retornava à casa envolto em silêncio. Apesar da gravidade do ferimento, havia se recuperado de forma excepcional. Trocou passos envergonhados, cuidou de não esbarrar nos homens do armazém bananeiro, cruzou com prostitutas que voltavam ao cabaré arrastando sandálias ordinárias desafiveladas e seguiu de olhos baixos sob os olhares maliciosos dos vizinhos. Logo que entrou em casa tratou de insultar a mulher. Vendo que ela não dizia palavra, irou-se ainda mais. Pegou o grosso cinturão de couro que usava no trabalho e bateu até vê-la coberta de hematomas. Chorando copiosamente, Catinha implorou para que ele ouvisse as suas palavras. Suado, ofegante e com o braço extenuado de tanto bater, Aurélio sentou-se para ouvi-la.
– Olha, eu sei que num é fácil pra ocê, mas ocê tem que deixar eu falar. Se eu num falar vai ser bem pior e dispois...
– Fala logo, qui já ta mi esquentando a muleira...
– Ta bom. Olha, olha... ocê sabe... eu tenho aquela minha irmã doente e... bom... ela tá pra morrer e os médico mandaram ela pra casa... ela num tem mais muito tempo e então eu queria que ao menos uma vez na vida ela tivesse um pouco de vida boa, de poder comer coisa boa e...
– Desembucha logo. Onde é que tu qué chegá?
– Calma, calma. Olha... eu comprei muita coisa pra minha irmã. Muita coisa mesmo, que eu mandei pra ela e...
– Fala logo disgranhenta!
– É que eu comprei tudo fiado no Zé Dionísio e num pude pagá. Se eu num desse pra ele, ele ia te conta tudo aí...
– Disgramada dos inferno, tu tem o quê nessa cabeça de merda? Puta de merda, égua filha-duma-puta, porra dum cacete...
Aurélio esbravejou, humilhou e agrediu a mulher por cerca de meia hora. Depois, ameaçando-a com uma faca, fez com que ela se despisse e expulsou-a de casa. Catinha correu para fora dos limites do bairro, histérica e nua, desaparecendo sem deixar qualquer indicação de seu destino. Para a vizinhança foi o prato do dia. As comadres lideradas por Dona Otília juntaram-se sob a sombra de uma mangueira e se persignaram repetidas vezes, entre comentários temperados de ácida hipocrisia. Alguns dos homens do lugar se aproximaram do conturbado Aurélio, quase na mesma hora. O velho João da Lapa foi quem falou, cumprimentando-o com a língua pesada e o hálito saturado de cáries:
– É isso aí Auréi. A rente tá do teu lado. Ocê fez o que quarqué um faria. Tomou uma atitude de macho. Se tu num faz isso, aí é que era pra ti... Corno consciente é o pior que tem. Tu pelo meno serrou o teu...
            As palavras de João da Lapa assombraram a mente de Aurélio durante os três meses em que se manteve isolado no interior de sua velha casa. Só se sabia que ele estava vivo, por conta de sua inquebrantável rotina de ouvir músicas sertanejas. Quando as chuvas começaram, o deslustrado Aurélio recebeu a visita de alguns parentes. Queriam que ele reativasse a sorveteria, que voltasse a trabalhar, essas coisas. Tudo em vão. Afundado em sua insuportável vergonha, Aurélio gastava os dias a beber e lastimar sua desgraçada “sorte de corno”.
Já pelo fim do período chuvoso, invadiu o bairro uma incontrolável nuvem de moscas. A praga foi tão grande que as igrejas e os terreiros não puderam realizar cultos por quatro dias. Os barbeiros eram obrigados a revisar várias vezes as barbas dos fregueses, pois mal tiravam a navalha, as moscas assentavam com velocidade vertiginosa. Os animais, em especial os cães e burros, pareciam negros devido ao moscaréu que os cobria. Comer sem engolir alguns insetos era tarefa impossível e a irritação tomava conta das pessoas. Por conta disso, pensou-se em pedir auxílio ao governo. Mas o simples fato de promover uma reunião poderia ser considerado conspiração e a hipótese de solicitar ajuda foi logo descartada. Muitas armadilhas foram desenvolvidas e muitos venenos foram aplicados sem que se notasse êxito. As pessoas já se viam obrigadas a adaptar-se à situação, quando os coaxos dos sapos sobrevieram e as coisas deram sinais de melhora.
O antigo comércio de Zé Dionísio reabriu, transformado em bar. Era lá, ironicamente, que Aurélio gastava agora a maior parte do tempo. Em geral, era atendido por Fábio – um garoto muito risonho que parecia se compadecer de seu alcoolismo decadente e tentava a todo custo animá-lo a mudar de vida. Pouca gente freqüentava o lugar, mas mesmo assim a música era de ensurdecer, dia e noite. O canto esquerdo do balcão, junto a uma pilha de armadilhas pega-mosca, era o sítio favorito de Aurélio. Sorvendo aguardente por entre os espaços dos dentes sujos, ele remoía a traição da esposa buscando justificativas que pudessem dar paz à sua alma. Bastava embriagar-se para cair em pranto. Contudo, pior era seu sofrimento aos fins de tarde, quando Boca de Cabelo, o dono do bar, chegava. Era um tipo grandalhão, dono de espessa barba negra e que, em seu cinismo manifesto, regozijava-se em despejar sobre ele toda sorte de zombarias e provocações. Aurélio nunca reagia, por mais que lhe doesse a agressão. Para ele, era como estar cumprindo um castigo merecido e, afinal, encarar Boca de Cabelo não era mesmo tarefa fácil.
Atravessando um meio-dia ardente, no mês em que os capirotos aproveitam o asfalto para fritar serpentes, Aurélio chegou até o bar. Tinha vendido um congelador e estava decidido a tomar umas cervejas para variar. Da porta, porém, estancou e assistiu à humilhante demissão de Fábio, protagonizada pelo truculento Boca de Cabelo. Sabia que Fábio não tinha parentes que pudessem ajudá-lo, nem lugar para onde pudesse ir. Consternado, atravessou a rua e aguardou a saída do rapaz sob a sombra de um poste. Assim que o viu tratou de convidá-lo a pernoitar em sua casa. O garoto aceitou sem hesitar e os dois seguiram atravessando as pinguelas da Rua da Vala. Num lampejo súbito, Aurélio animou-se. Queria reabrir a sorveteria e recomeçar a vida, contando com a ajuda de Fábio. De fato, resolveram consolidar um compromisso de auxílio mútuo e seguiram abraçados pela rua dos Turcos, sonhando dias melhores.
Na porta de entrada da casa, entretanto, estava Catinha. Indizivelmente bela, mantinha-se grudada à grade do portão com os olhos muito abertos e brilhantes. Durante algum tempo permaneceu calada, como se esperasse uma reação de Aurélio. Ele, por seu turno, trocou um olhar de grave cumplicidade com Fábio e tentou passar ao largo da ex-mulher. Inútil. Catinha atirou-se sobre ele, chorando copiosamente o seu amargo arrependimento. Dizendo-se preocupado com novos vexames, Aurélio pediu ao garoto que o aguardasse no jardim e conduziu a mulher para o interior da casa. Os dois conversaram horas a fio, enquanto Fábio com o apetite que lhe era peculiar comia uma manga após outra. Por fim, Aurélio chamou-o e, agarrado a Catinha, comunicou sua decisão de voltar a viver com ela. O garoto, acreditando que Aurélio declinaria da proposta que lhe havia feito, exalou um ar desconsolado. Aurélio, todavia, fez questão de manter de pé sua palavra e confirmou Fábio como seu fiel ajudante nos negócios da Azul Anil.
A alegria parecia iluminar a velha casa. Aurélio ordenou que Fábio matasse um bode e dois patos e preparou, ele mesmo, a lauta refeição comemorativa. Beberam uma aguardente violácea feita de mandioca, dançaram sobre os ossos descarnados do banquete e sucumbiram ao sono profundo imposto pelos corpos extenuados. A música brega atingia volumes ensurdecedores anunciando que a vida havia recuperado o sentido para eles.
Os comentários escabrosos dos vizinhos retomariam atividade, agora em escala industrial. Só se falava “lunado” e sua “esposa chifreira”. Ninguém podia aceitar que o sujeito reatasse uma relação tão violentamente destruída pelo adultério. “Grande é o castigo do corno!”, dizia Bartô. “Desavergonhada!”, repetia Dona Otília. O sacerdote tentou aquietar as fiéis mais revoltadas e chegou a fazer sermões sobre matrimônio, arrependimento e perdão. Mas isso de pouco resolveu. Consideravam a bela Catinha “mais indigna e repulsiva que as putas do cabaré”.
Sem se ocupar com as maledicências, o casal arregaçou as mangas e retomou o negócio da sorveteria, sempre com a colaboração irrestrita de Fábio. Aurélio tanto fez que arrumou emprego nas centrais elétricas do governo e voltou a sonhar com uma vida tranqüila e segura ao lado da esposa. Estava mais confiante do que nunca. Em pouco tempo, reformou a casa e ampliou a sorveteria, que finalmente passara a dar lucro, graças ao asfaltamento da rua. Os vizinhos, mantidos à necessária distância, não importunavam tanto. Comentários maldosos só chegavam aos ouvidos de Aurélio através de um ou outro bêbado desabusado. Mas ele já não ligava. O sacerdote, que voltou a freqüentar-lhe a casa, falava da necessidade de filhos no casamento e aquelas coisas que sempre falava quando, por instantes, conseguia ficar sem comer ou beber. Certo é que Aurélio voltou a sonhar com o herdeiro fabuloso. Numa quinta à noite, sentindo a vida estabilizada, confidenciou a Catinha o seu renovado desejo. A reação da mulher superou suas expectativas, fazendo com que vivessem momentos de intensa alegria. Antes de adormecer, já na sexta-feira, Aurélio teve a idéia: faria uso das férias que estavam vencendo e proporcionaria uma viagem de lua-de-mel para a esposa, a fim de gerar o filho desejado. Iriam de ônibus para o interior e Fábio ficaria tomando conta de tudo. Era perfeito. Seria uma grande surpresa.
            Oito dias depois, muito animado, assinou as férias, passou no banco e voltou pra casa, já com as passagens no bolso. Mal podia esperar para ver a reação da esposa. Esbarrou nos homens suados do armazém bananeiro, cruzou com prostitutas que voltavam ao cabaré arrastando sandálias ordinárias desafiveladas, e atravessou a rua dos Turcos sem tocar os pés no chão. Como a sorveteria estivesse fechada, voou para a cozinha a fim de surpreender a mulher. E surpresa foi o que teve ao encontrar Catinha sorvendo com gemidos de êxtase e boca gulosa as últimas gotas de sêmen do pênis de Fábio. Entorpecido pelo gozo, o garoto não percebeu a aproximação de Aurélio, que com uma cadeira desferiu-lhe violento golpe. Catinha, em seminudez, correu para a rua aos berros de “não me mata, não me mata...”, despertando a atenção das comadres mais e, desta vez, até das menos mexeriqueiras. Aurélio demorou a segui-la e quando o fez, percebeu que não iria alcançá-la. Incrédulo e desesperado, esfregava incessantemente as mãos no rosto sem saber que atitude tomar até que, diante da pequena multidão que se formara, subiu em um poste e tentou agarrar-se aos fios eletrificados. A descarga, porém, atirou-o ao chão. Com os olhos pregados no zênite, Aurélio pode ouvir, segundos antes de desfalecer, a voz de Bartô a repetir: “Grande é o castigo do corno!”.
Meses se passaram até que ele pudesse deixar o hospital. Tetraplégico, foi levado de volta à casa, pela própria Catinha que, sem nenhum rodeio confessou-lhe estar grávida do jovem amante. A raiva que sentiu pela traição era menor que a decepção de não ser ele a gerar o herdeiro. Aprisionado no próprio corpo, Aurélio não conseguia sequer articular palavra. Sua percepção do mundo e sua relação com ele reduziu-se a ver e ouvir. Paralisado, veria Fábio assumir a casa, dominar a mulher e executar transformações no imóvel, que ele jamais aprovaria. O menino, batizado com o nome de Fábio Francisco, ganhou o apelido de Chicó e desde cedo, se envolveu em inúmeras brigas e confusões por conta do aviltante tratamento que recebia dos colegas e vizinhos. Marginalizado e invariavelmente espancado pelo pai biológico, não tardou a delinqüir e a freqüentar institutos correcionais. O primeiro deles, logo após o golpe, quando foi formado um Comitê de Governo, responsável por conduzir a chamada contra-revolução. Na prática, era o esforço para reestruturar as antigas bases sócio-econômicas, garantindo os privilégios da burguesia, dos latifundiários e principalmente do capital internacional. Epidemias, fome e perseguição política marcariam o período. Por volta dos 20 anos, mais ou menos quando o Comitê criou o D.A.P.U. – polícia política responsável pela repressão ao inimigos do Regime –, Chicó juntou os pertences numa trouxa e fugiu com um circo de lona velha. Vitimado pela dengue, com o corpo em febre e a alma enregelada, deixava para trás a desleixada mãe que, em companhia de Fábio, manteria vivo o fantasmagórico Aurélio, pelo resto de sua triste vida. Levou consigo uma garrafa de aguardente, um rádio e a inexorável companhia das músicas sertanejas.








































ALEA JACTA EST

“Noite, irmã da Razão e irmã da Morte,
Quantas vezes tenho eu interrogado
Teu verbo, teu oráculo sagrado,
Confidente e intérprete da Sorte!”

Antero de Quental


                        – Tem uma estrada de terra, um pouco mais à frente. Você tem que virar à esquerda...
            – Me dá um trago do teu cigarro? Essa coisa parece boa... Viro aqui?
            – É. Não vejo a hora de chegar à praia. Este carro está me deixando com claustrofobia... É ali. Desce por ali. A gente vai ter que deixar o carro e atravessar uma pinguela. Pode ir que é bem mais na frente.
– Manda esse uísque pra cá. Ah! Acho que já estive por aqui. Não tem umas casas abandonadas lá na frente?
– É. Uns caras granados construíram do dia pra noite. Grilagem chique.
– Dá pra gente usar uma, não dá?
– Por quê você acha que eu te trouxe pra cá, bebezinho?
– Gata, é por isso que eu te curto. Segura a garrafa aí, que esta estradinha aqui... Temos gelo?
– Dois pacotes de gelo, um litro e meio de uísque e ainda uns sete gramas de pó. Ah! ...só temos dois litros de água...
– Com todo esse oceano?
– Água potável, espertinho. Ouça todas as minhas palavras para...
–...para que eu não seja mal compreendida. Já sei. E agora?
– É aqui. Estacione aqui mesmo. Não há outro lugar. Vamos descer e começar a festa. Me dá o telefone.
– Você vai ligar agora? Antes da gente...
– Calma bebezinho. Relaxe...
– Vou relaxar. Pode ter certeza.
            Entornando uísque garganta abaixo, Miro cerrou as pálpebras e tentou definir mentalmente os olhos de Zeth. Avaliou por um segundo o romance que viviam, loucos e livres em meio à agitação do país. Talvez incentivado pelo álcool ou pelas drogas, quis dizer que a amava naquele instante. Porém, ao assentar o copo sobre o painel do carro e antes mesmo que pudesse dizer qualquer coisa, a mão ardente da garota comprimiu seu pênis com lenta delicadeza. Ela, de olhar silencioso e dedos macios, desvencilhou-o parcialmente das roupas e ousou abocanhar-lhe o sexo, gemendo com indizível volúpia. Miro, cheio de zelos, segurava levantados os cabelos avermelhados da moça para melhor admirá-la. Sentindo o ar incendiar-se à sua volta, pediu a ela quase sussurrando que parasse. Beijou-lhe a boca com um beijo quente e saiu do carro arrancando o que restava de suas roupas.
Enquanto Zeth aproveitava o capô aquecido para inalar a cocaína, Miro afastou-lhe calcinha sob a saia e, com os dentes cravados em sua nuca, penetrou-a com delicadeza, direto até o fundo. Relaxada e úmida como uma bacante divinal, Zeth gemia uns gemidos fininhos e se contorcia suavemente,
– Vire-se um pouquinho...
– Ah, eu estou cheirando...
– Guarda isso, só um pouquinho.
– Tá bem, meu rei.
– Só um pouquinho...
            Presos pelo magnetismo dos desejos, Zeth e Miro atingiram o clímax e tombaram na areia, onde ficaram até que o suor lhes secasse da pele. A noite então sorveu os últimos rasgos de sol e fez com que uma multidão de grilos cantasse a ascensão da lua.
– Preciso me levantar...
– Gata, você é fantástica! Uísque na mesa oito!
– Aqui não tem mesa nem garçom, seu bobão...
– Onde eu estou, sempre tem uma mesa oito. Uísque...
– Toma. Fecha o carro e vamos embora.
– Ei! Você vai deixar seu lindo namorado jogado aqui, sozinho?
– Claro que não. Até porque meu lindo namorado vai ter que arrombar, quer dizer, vai ter que me dar de presente uma bela casa de praia já, já...
– Mulher, eu ainda vou te dar a lua.
– Impossível. Ela já me pertence.
– Quem sabe Vênus? Saturno? Faço tudo pra te agradar.
– Você me agradaria com coisas bem menores, meu rei. Diamantes, por exemplo. Agora jogue essa garrafa pra cá, que hoje eu quero beber todos os demônios da primeira região.
– É aquilo ali? É o mar? As casas... É uma estação de veraneio completa...
– Não te falei? Uns ricaços construíram, mas tiveram de abandonar. A Marinha...
– Então é só escolher?
– É. Devem estar todas vazias. Às vezes tem uns malucos passando a chuva. Mas é muito difícil alguém vir por aqui, depois da confusão que rolou. Afinal, dizem que vão derrubar isso tudo.
– Bem, antes que derrubem, diga-me qual a casa que a minha princesa vermelha deseja.
– Aquela. No alto da duna.
– É de madeira...
– Todas são de madeira.
– É... Você não ia ligar pro Orlando e pra Bichinho?
– Desisti. A gente tá com pouca coisa mesmo e... Bem eles são meio esquisitos. Outro dia a Bichinho entrou numa de que não conseguia respirar e você viu...
– Tudo bem. Mas a gente tinha combinado.
– E daí? Eles podiam ter ligado também.
            Repentinamente, o silêncio da praia sofreu a agressão de um ruidoso motor. Miro e Zeth viram assustados uma silhueta formar-se por forte contraluz, logo à sua frente. Era um espectro magro e cabeludo que, não menos repentinamente, disparou sobre eles dois velozes e coloridos rojões. Quando os acordes de guitarra começaram a soar, Miro compreendeu o que acontecia.
– Já vi tudo! – disse ele sorrindo, enquanto Zeth erguia comicamente as mãos aos céus. A dupla Orlando e Bichinho, em seu melhor estilo, tinha armado o espetáculo. Os dois eram festejados lunáticos da cidade e viviam aprontando toda sorte de maluquices.
– Feliz Dia das Bruxas! – gritou Orlando, manobrando a possante motocicleta – Aposto que nós matamos vocês de medo...
– Só se foi a Zeth, irmãozinho... – disse Miro, abraçando-o. – Eu sempre fui louco pra conhecer um alienígena que curtisse rock pesado.
            Felina,  Zeth já subia os degraus que iam dar na varanda, quando Bichinho fez soar sua voz aguda e crepitante:
– Hei, Zeth! Vamos fazer uma fogueira? Ahn... aqui! Bem aqui! É um bom lugar, eu acho...
– Veja isso com o Miro. – atalhou Zeth – E me mande o Orlando aqui pra cima, que é pra arrombar a porta. Esta madeira é de excelente qualidade, se é que você me entende...
Desprendendo o mínimo de esforço, Zeth moveu alguns caixotes que encontrou na varanda e engendrou uma mesa. Em seguida, acomodou-se de frente para o mar e passou a beber lenta e preguiçosamente. Depois de algumas doses, tempo suficiente para que a fogueira fosse acesa, ordenou a Orlando se apressasse. O grandalhão subiu as escadas com estardalhaço e mostrou-se possuído por uma legião de diabos tagarelas.
– Ah, que barato! Você viu aquilo? A-há! Nós roubamos de um iate a uns dez quilômetros daqui. São foguetes de sinalização. Você sabe, como naqueles filmes...
– A porta...
– Claro, claro... a porta. Eu sei. Você sabe. Orlando resolve isso. Nada de truques. Pura força. Muque, como dizia meu tio Jorjão...
Sem parar de falar um instante, Orlando deu início a uma série de mais ou menos quinze tentativas, mal sucedidas, de abrir caminho a ombro. Zeth, que assistiu à seqüência de golpes sem mover um músculo, a não ser para lançar seus olhares desaprovadores sobre Orlando, decidiu de súbito interromper o brutamontes com um assobiozinho maroto e apontou com jeitinho malandro uma grossa viga de madeira que jazia nas proximidades. Após alguns segundos mergulhado em reflexão, Orlando voltou à tona:
– Muito bem. Boa idéia. Porta filha-da-puta. Agora você vai conhecer o peso de Orlando Guindaste, o maior arrombador deste lado da galáxia. O poderoso, o destruidor, o dinamitador, o mão de aço, o mito, o terror, o...
– Abre logo esta porta, Orlando. Porrrrrrrrrra. Que saco. Miro! Miro! Não dá mais nada pra esse filha-da-puta aqui não, o cara tá babando...
            Zeth foi interrompida por algo que lhe trouxe à memória um salão de boliche. Jamais imaginaria que aquilo fosse acontecer. Orlando correu usando a viga como aríete, mas nem assim conseguiu vencer a porta. Miro e Bichinho subiram a tempo de vê-lo caído ao chão. Ninguém queria acreditar que o abrutalhado indivíduo, tão experiente na arte e na técnica do arrombamento, houvesse falhado daquela forma.
– Acho que vamos ter que entrar pela janela – resmungou Orlando, desolado como uma criança que acabou de derrubar o sorvete. De fato, ele demonstrava alguma lógica. Mas isso não evitou o derrame de gargalhadas. A farra havia começado.
Elétrica, Bichinho apresentou seu arsenal: três caixas de psicotrópicos injetáveis e uns duzentos comprimidos, que variavam de simples calmantes a pesados barbitúricos. Vivas e urras não faltaram.
Orlando, que tinha praticamente um bar no bagageiro da moto, procurou tranqüilizar Miro em relação à água, dizendo conhecer um poço nas imediações. De todo modo, Miro optou por sair sorrateiramente e esconder uma das garrafas, no intuito de garantir o necessário suprimento para a hora da ressaca.
Zeth tratou de convencer Orlando a uma nova investida, a fim de abrir a casa de uma vez por todas. Bichinho apoiou a idéia e o robusto rapaz mobilizou-se novamente. Entretanto, seus esforços se mostraram mais uma vez inúteis. Assim como a porta da frente, nenhuma janela quis ceder ao seu vigor físico.
Todos estavam a ponto de desistir, quando um som metálico anunciou o descerramento da porta frontal. Assustada, Bichinho agarrou-se à Zeth enquanto Orlando foi investigar.
– Bang, bang, bang! – gritou Miro, pregando o susto e caindo na gargalhada. – Tem uma entrada por baixo. – Continuou ele – É como um alçapão. Olha só isso aqui...Você não ia arrombar nunca.
– Porra, tá tudo lacrado a ferro – espantou-se Orlando, levando as mãos à cabeça.
– É, irmão – continuou Miro – Agora olha só o que tem aqui...
Orlando, assombrado, olhava à sua volta e parecia não acreditar. A casa estava abarrotada de armas e pacotes de cocaína.
– Cara...Meu...Isso aqui tá do jeito que o diabo gosta, Mirozinho. Olha aí, irmão, tem até granada. Vamos explodir umas só pra ver... Olha quanto pó. Me dá teu canivete aí que eu vou detonar a metade deste pacote aqui...
– Ainda não, Orlandinho – disse Zeth com calma imperturbável – Vamos sair daqui agora mesmo. A gente leva o que der e se manda.
– Mas, Zeth – tenta opor-se Orlando – isso aqui é o paraíso e você quer se mandar assim? De cara? Qual é, irmã?
– Acontece, ó grande cabeça pensante, que isso aqui tem que ter dono, você não acha?
– Humm... Aposto que é uma freira candidata ao Nobel da Paz e que ela vai adorar saber que você detonou seus pacotes e experimentou seus brinquedinhos – satirizou Miro, fazendo Orlando coçar o alto da cabeça.
– Olha lá – grita com voz ainda mais estrídula a apavorada Bichinho – Aquele barco tá vindo pra cá, gente. E se forem eles, o que vai ser? E se for a polícia?
Miro assume rapidamente uma postura séria e comanda sem pestanejar:
– Tá na hora! Esvaziem as mochilas e encham com o que interessa. Orlando, carregue uma “sub”. Depois deixe tudo no ponto pra gente detonar. Pegue aquele fio. Vamos. Rápido, rápido. Não vamos deixar nada que possa nos identificar. Rojões, fogueira... Já sabem que estamos aqui.
– Cara, olha isso aqui. É um lançador de granadas, meu irmão... Deixe vir quem quiser. Com isso aqui eu detono até o diabo. Você vai ver.
Orlando mal acabou de falar e uma chuva de balas se abateu sobre a casa. Com incrível reflexo, Miro conduziu Zeth pelos fundos do terreno, buscando fugir através da vegetação espinhosa. Bichinho, mesmo atordoada, cuidou de seguir o casal. Orlando, todavia, correu em direção à moto, mas uma segunda rajada fez com que ele desse vários passos para trás, antes de tombar com o peito dilacerado. Desesperada, Bichinho voltou correndo para socorrê-lo, lançando no ar um grito histérico ensurdecedor.
Zeth e Miro corriam com as mochilas cheias de cocaína, quando uma gigantesca explosão fez clarear os céus. Não tiveram coragem de se voltar. Apenas corriam. Corriam arranhando-se nos arbustos; corriam pisando em falso; fosse como fosse, corriam.
Quando Miro finalmente arrancou o carro, Zeth teve a impressão de ver, pelo retrovisor, a figura esquelética e descabelada de Bichinho, acenando para ela. Porém, ao olhar diretamente para trás, o que viu foi uma brecha mais escura no seio da noite. Com as mãos geladas acendeu um cigarro trêmulo, jogando inadvertidamente a caixa de fósforos pela janela.
O carro parecia afastá-los do perigo, apesar de Miro dirigir como um louco. Vítima de fortes reações nervosas, Zeth vomitava copiosamente pela janela do carro sem, todavia, deixar cair o cigarro. A turba de demônios que os acompanhava se dissiparia junto com a noite, que estava acabando.

RUMO AO AQUERONTE



“Em algum lugar há ainda povos e rebanhos,
mas não entre nós, meus irmãos: aqui há Estados”

Friedrich Nietzsche







                        Heliogábalo abriu a porta do carro, cerimonioso. Adelar, metido em sapatos e roupas ao mesmo tempo caras e de mau gosto, pisou a areia úmida sentindo o cheiro salgado que se evolava do mar. A chuva fina e ininterrupta aumentava-lhe a sensação de desagrado, que fluía em maus humores, deixando um gosto amargo em sua boca.
A enorme perda de dinheiro, por conta do ocorrido, abalara ainda mais o seu prestígio na Organização e, para piorar, a imprensa forjava um grande apelo popular, pressionando a polícia a esclarecer o caso. A Organização acabaria tendo que gastar milhões em suborno, por conta disso. Para ele, era o fim. Não dava mais para segurar a pressão. Não com a idade que tinha.
Desviando o pensamento por um instante, lembrou-se das homenagens que haveria de prestar naquele Dia dos Mortos. Engoliu algumas aspirinas e atravessou a pequena pinguela resmungando com grande rabugice. Desfilou seu andar arrogante pela praia até chegar ao depósito destruído, seguido a certa distância por seus guarda-costas.
Rodeou silenciosamente os destroços. Fez sinal para que Donato identificasse o que parecia ser um motor de motocicleta, voltou-se para observar o mar e logo seguiu pela vegetação espinhosa. Parou de súbito, como se intuísse algo. Acendeu caprichosamente um charuto e, após alguns minutos de contemplação, focalizou um pequeno pedaço de tecido vermelho, preso a um arbusto. Recolheu-o ao bolso do paletó e prosseguiu a caminhada até dar num lamaçal, muito próximo do ponto onde havia deixado o carro.
Fez-se carregar pelos guarda-costas a fim de não sujar os sapatos bicolores e voltou para junto do automóvel. No chão, entre seus pés, um pequeno objeto colorido chamou-lhe atenção: uma caixa de fósforos. Aproximando-a do rosto pôde ler “Overdose Bar”.
Com um quase sorriso, ordenou a Heliogábalo que o levasse ao jazigo da família. No caminho, parou para comprar velas e flores. A chuva persistente incomodava-o sobremaneira. Odiava aquela chuva, odiava aquela data, mas não conseguia deixar de cumprir suas obrigações de fé. Virou-se repentinamente na direção de Donato e falou-lhe em tom grave:
– A polícia vai levar dias para revelar a identidade dos corpos. Isso se o Comitê não cair antes. Segundo os turcos, havia mais duas pessoas atirando. Trate de descobrir quem eram esses filhos-da-puta, antes dos meganhas. Procure saber se tinham sócios, amigos, amantes, qualquer coisa. Veja que tipo de tecido é este. Quero saber onde é vendido, se é comum ou raro, se é usado por homens, mulheres ou bichas e... Ah! Quero uma lista das pessoas que freqüentam este bar – disse mostrando a caixa de fósforos – traficantes, ladrões, drogados enfim, qualquer um que possa estar metido nessa merda. Ligue pro Amaro e peça o que precisar. Não fale com mais ninguém e avise pra ele também ficar calado. Use este telefone e mexa-se.
            Donato assentiu com a cabeça e da beira da calçada aguardou o automóvel sumir pela avenida molhada. Acionou grosseiramente o telefone para falar com Amaro e, como a chuva aumentasse, decidiu atravessar a rua a fim de se abrigar em um café. Ao fazê-lo, porém, recebeu sobre o corpo um jato de lama. Seus gestos de raivosa indignação foram vistos através do retrovisor pelos ocupantes do automóvel.
– O rapaz parece que não gostou muito do banho que você deu nele – disse Zeth, em tom brincalhão.
– É. Ele deveria tomar mais cuidado.
– Quem precisa tomar cuidado sou eu. Bebendo e cheirando deste jeito não vou ter voz pra cantar hoje à noite.
– Que tal a gente ir pro motel? Podemos fazer uma sauna daquelas e depois relaxar, com espuma até o teto.
– É. Pode ser...Eu tô um caco. Até agora o barulho daquela explosão não me sai da cabeça. A Bichinho...
– Cara, você tem que esquecer isso. Foi uma bosta, mas a gente tem que esquecer. A culpa não foi nossa.
– E se descobrirem a gente? Aqueles caras não são de brincadeira. Você viu.
– Não tem como nos acharem. Ninguém viu a gente. Explodiu tudo. É só ficar na manha do gato, dar um tempo e ir passando esse pó devagarzinho, sem bobear...
– Não sei, não. Pensei até em fugir, sei lá...
– O melhor lugar pra se esconder do diabo é perto do inferno, minha linda.
– Tá bom, Miro. Só não fique muito confiante, que me dá nos nervos. Tu sabes como é. Desconfiado até hoje vive...
            Miro e Zeth trocaram um olhar malicioso e deixaram o assunto de lado. A chuva começava a diminuir e a claridade do sol impunha óculos escuros. Pelo caminho, observaram grupos de manifestantes, com faixas e camisas totalmente brancas. Eles surgiam de toda parte, a pé, de caminhão, de  ônibus, de todo jeito. Pelo visto, estavam se dirigindo à Piazza della Giustizia – lugar famoso pelas manifestações populares e pelos violentos confrontos com a polícia. Miro estava irritadíssimo com a situação. O grande número de pessoas tornara o trânsito irremediavelmente lento.
O carro estava a poucos metros de transpor a molhe humana, quando o casal avistou a movimentação do batalhão de choque.
– Fardados filhas-da-puta – rosnou Miro – o povo só recebe porrada faz oito anos, a vida tá um caos. É gente que morre, é gente que some e...
– Vamos andando, que logo a porrada vai comer – disse Zeth, com preocupação. – Outro dia eu vi uma confusão dessas. O negócio aqui é brabo pra caralho.
– Eu quero é que o governo se fôda, junto com polícia, com o diabo deste Comitê de merda. Bando de...
            Miro não pôde concluir o impropério. Uma imensa explosão lançou pelos ares quase todo batalhão e ainda atingiu parte do quartel, gerando fumaça, destroços e focos de incêndio. Zeth lembrou-se de um quadro de Goya. Os urros lancinantes dos feridos misturavam-se aos gritos exultantes e ensandecidos dos manifestantes, compondo uma sinfonia caótica. Mesmo com a fumaça, sentia-se no ar o cheiro inconfundível de porco assado.
Miro e Zeth ainda se entreolhavam atordoados, quando um tipo ruivo entrou pela porta de trás. Com impressionante tranqüilidade, o homem pigarreou e disse:
– Dirija.
            Miro não tardou obedecer. Pôs-se em marcha sentindo, através do banco, que uma arma estava às suas costas. Por ordem do ruivo, pararam numa loja de frutas, a uns quinhentos metros da Piazza. Ninguém por lá parecia ter-se dado conta do ocorrido. Algumas pessoas reunidas na calçada aventavam possibilidades.
Um homem negro, muito pequeno e esquisito, foi chamado pelo ruivo e entrou no carro. Sem  voltar o rosto um só momento, Zeth começou a falar, no firme propósito de compreender o que se passava e resolver a situação.
– Olha, eu não sei o que vocês fizeram. Não quero saber e nem olhei pra vocês...
– Cale a boca! – gritou o homenzinho negro, que tremia a ponto de se lhe poder ouvir os ossos chacoalhando. – Vamos pela saída Oeste.
– A gente só quer sair dessa vivo – continuou Zeth, fazendo de tudo para não lhes ver o rosto.
– É melhor você se calar – falou em voz moderada o ruivo.
– Olha, meu chapa, a gente não tem nada a ver com essa merda e tá querendo sair fora – emendou Miro.
– Fiquem quietos e façam o que digo, que tudo vai dar certo para vocês. – tornou o ruivo, pondo fim à conversa. Em seguida, com um gesto quase imperceptível, mandou que o companheiro observasse a fisionomia de Miro. O homenzinho voltou-se para o ruivo encolhendo os ombros. O ruivo repetiu o gesto, mas o baixinho continuou sem entender nada.
Já haviam rodado cerca de quinze minutos em total silêncio, quando o ruivo fez parar o carro e ordenou ao homenzinho que descesse. Deu a ele um envelope e, em seguida, indicou para Miro o caminho de volta à Piazza. Desceu do carro a menos de três quarteirões do local da explosão e desapareceu na escadaria do metrô. Miro e Zeth alternaram instantes de perplexidade e reflexão. Por fim, decidiram seguir para o motel, como era planejado.
Instalados na confortável banheira da suíte 33, assistiram estarrecidos à matéria sobre o atentado que haviam presenciado. Um porta-voz do Comitê declarou que o Movimento havia assumido a autoria do ato terrorista e que o Estado envidaria todos os esforços para a captura de Policarpo. Miro desligou a TV ao perceber que Zeth cedera à pressão do sono. Extenuado, subiu ao mezanino e atirou-se na cama. Mesmo sem conseguir dormir, manteve-se quieto e com os olhos fechados por bastante tempo.
            O sonho de Zeth desenvolveu-se turbulento e repleto de odores complexos. Presa a uma roda, via um anjo de aparência infantil ladeado por dezenas de velhos idênticos, terrivelmente decrépitos.
– Ouçam! Eis aqui suas palavras! – disse o anjo, exibindo uma esfera que brilhava como cristal. – Ouçam a canção da palavra vítrea, pois logo as palavras não mais serão lidas. Ouçam a canção que vem do Altíssimo. Ouçam a melodia que não é senão três.
            Quando o anjo libertou a canção que havia na esfera, tudo se tornou mole e os velhos idênticos desapareceram um a um. Algo como um vento viscoso e quente atravessou a alma rarefeita de Zeth, conduzindo palavras incompreensíveis.
Cortinas de ecos esvoaçaram e um intrigante espelho poligonal fixou-se à parede do sonho. Zeth examinou-o com mãos etéreas e olhos turvos. No primeiro vértice do espelho havia um signo que emprestava ao reflexo do seu rosto um bronzeado de verão. No segundo, mirava-se pálida, outonal. No terceiro, que se quebrava e se recompunha infinitamente, via-se entre flores de primavera. O quarto e recurvado vértice atraiu sua atenção com um imã invisível. Nele, viu projetado sobre seu rosto um poema carregado de raios e trovões.
Refletindo algum ponto distante, o centro do espelho mostrava claramente o anagrama:
Nahtriheccunde
Gahinneverahtunin
Zehgessurklach
Zunnus.
Zeth despertou assustada. Pulou da banheira de água quente, enxugando-se como se houvesse saído de um inferno gelado. Tentava elucidar o sonho recompondo-o mentalmente, mas sentia que a toalha, ao retirar-lhe a água do corpo, levava consigo o pouco que sobrara. Com as sobrancelhas içadas e a mente aturdida, prendeu a toalha sob as axilas e ficou a fitar o vazio. O súbito roçar gelado do uísque de Miro em suas costas, fez com que ela tivesse um sobressalto.
Erguendo o copo em sua direção, o moço disparou:
– Hora de voltar à vida!








































O CIRCO


“Video bona proboque
deteriora sequo”


Ovídio




                        – Bom pessoal, o negócio agora é dar um tempo. Amanhã, a gente termina de montar o que falta e sexta tome espetáculo. Francisco! Julián! , na minha tenda em cinco minutos. O resto tá dispensado.
            Nada poderia ter soado melhor aos ouvidos de Chicó. Exausto pelo árduo trabalho, tirou as luvas de couro para enxugar o suor do rosto e já atravessava distraído o picadeiro, quando uma mão pesada bateu-lhe às costas.
– E aí,  mai bróder, tá segurando o tranco? Aqui  não é mole não...
– É... Mas a gente vai levando...
– Porra. Se eu que vou empurrando tô achando ruim imagine tu, que vai levando, hein, meu chapa?!
– Olha o cara! Novato e só sacanagem... Que é que tu vai fazer por aqui, hein maninho?
– Fogo e facas. Eu atiro facas e também sou engolidor de fogo. Pirófago. Saca? E, por falar nisso, vamos tomar umas boas?
– Eu quero fumar um primeiro. Só pra relaxar... Como é teu nome, mesmo?
– Candô.
– Tá a fim?
– Rola a bola, mai bróder!
            Os dois deixaram os limites do circo rindo alto e fumando muito. Depois de alguns minutos de caminhada, descobriram o “Inferninho”, um local repleto de prostitutas, quase todas obesas. Animados por obra da diamba, sentaram-se à mesa com disposição para beber o que houvesse.
– Lonã ati Exu Odê ianlé rê ó! – Murmurou Candô, vertendo ao chão um pouco de sua aguardente para, em seguida, dar início à bebedeira. Logo as garrafas de cerveja passaram a disputar espaço com maços de cigarro, cinzeiros e a cachaça da terra. A esta altura, os diversos bares e cabarés que compunham o Inferninho vomitavam decibéis ensurdecedores, misturando música brega e sertaneja de tal arte que reinava uma confusão sonora dificilmente exprimível.
– Sabe, mai bróder, gente como a gente só tem a gente mesmo. – Disse Candô, ao ouvido do companheiro. – O negócio é assim e tá acabado. Se você não sacar isso, não vai viver nunca. Você só tem você mesmo. Você é quem se cuida, sacou? Amigo?! Amigo?! Ah! Esse papo de amigo... Isso é só conversa! Na hora H ninguém é amigo de ninguém. Você pode ter parceiro, no máximo um camarada. Amigo não existe. É lenda.
– Maninho, eu deixei tudo pra trás. Vou começar de novo. Eu quero uma vida sem chateação, sem encarnação. Cansei de ser saco de pancada, de ser filho-da-puta. Mudei de cidade. Mudei de vida. Mudei de cabelo. De tudo. Agora, se alguém der no meu saco, ah, rapaz...
– Deixa isso pra lá e vamos beber – disse Candô, fazendo sinal para o bodegueiro sacar de mais uma garrafa. Porém, antes que o homem pudesse servi-los, um grito ecoou em meio à zoeira do lugar:
– Tá lá o filho-da-puta!
            O homem que gritou parecia apontar na direção de Candô e estava com a mão visivelmente suja de sangue. Dois policiais, que o acompanhavam, partiram correndo. O bodegueiro acovardado deixou cair a garrafa e levou as mãos à boca diante da aproximação dos fardados. Chicó ficou imóvel, gélido, estupefato. Com Candô, entretanto, foi diferente. No susto, deu um salto para fugir e, sem querer, derrubou um homem que passava às suas costas. Os policiais agiram com extrema rapidez e imobilizaram o sujeito. Em seguida, algemaram-no com as mãos para trás e levaram-no preso, sem muita resistência.
Poucos minutos depois, Regina do Mocotó chegou-se até o bodegueiro para comentar o ocorrido. Tinham prendido o estuprador da Cidade Alta. Candô e Chicó, recuperados do susto, apressaram o bodegueiro em trazer-lhes mais bebida. Depois de um vigoroso gole, o atirador de facas falou ao parceiro, com um tom de voz que o fez sorrir:
– Ah! Mai bróder do céu! Esses filhos-da-puta fizeram o álcool evaporar de mim, xará. Eles deveriam ao menos pagar uma caixa de cerveja e um litro de conhaque, irmão...
– É meu camarada, tu tem é sorte de não tá no couro daquele infeliz. Eu pensei que era contigo...
– Eu, mai bróder?! Estuprador?! Com tanta mulher dando sopa?
– Sabe o que é que os caras fazem com estuprador que cai em cana? Raspam as sobrancelhas do filha-da-puta antes de jogar ele na cela. É o sinal de que todo mundo pode comer o desgraçado. Toda noite ele tem visita... Depois de um tempo acaba se acostumando, como o TJ, um cara que eu vi chegar no reformatório, da última vez. Ele tinha uns dezesseis e gostava de tomar grana de grã-fina. Vivia até bem nessa de programa. Um dia entrou numas de comer a filha de uma coroa e acabou rasgando a menina na marra. Pra quê! A mulher virou o diabo quando viu a filha pingando sangue e entregou o cara no ato. Quando ele pintou na ala, de sobrancelha raspada, o Dafé pulou do beliche e puxou a peruca loura debaixo do colchão. Todo mundo caiu na gargalhada. A moçada toda sabia o que ia rolar quando escurecesse. Não deu nem pra ouvir grito. E olha que foram mais de doze. No outro dia, de manhã, eu fiquei pedindo ajuda pra ele. Ficou quinze dias no hospital e quando voltou, sabe o que rolou? Foi logo se chegando pro Dafé e liberando geral. Hoje tá lá pelo Sudeste, travecando. Agora é Beatriz. Todo mundo saca. Vive de chupar pau em quebrada e não tem mais uma prega na bunda. Dizem até que tá doente...
– Qual é, mai bróder, vamos beber e mudar de papo. Se os caras rasgarem o otário lá, igual esse aí que tu falou, azar dele. Eu tô mais preocupado é que o meu fique inteiro, sacou? Tô nem aí. Nem vou. Olha, pra falar sério mesmo, o que a gente tem que fazer é achar umas boas putas e ó...
            Os dois riam extasiados pelo álcool e a chuva fina parecia convidá-los ao delírio. Sentiam-se únicos, felizes e ligados pelo estreito laço da embriaguez. Com a diminuição da chuva e a aproximação da madrugada, a movimentação dos boêmios atingiu o ápice. Candô, dono de uma verdadeira aversão a gordas, passou a ensaiar os primeiros movimentos à procura de sua presa. Seria realmente uma caçada difícil naquele ambiente de adiposidades hostis e ele, usando de ironia, desatou a fazer graça:
– Calma, mai bróder. Uma dose a mais e o meu infalível magnetismo animal vai atrair a vagabunda mais gostosa da cidade. Ela vem pelo cheiro. Pelo bodum. Vem cheirando o macho aqui...
            Chicó ria a ponto de perder o ar com os ufanos protestos de masculinidade do companheiro. As lágrimas que já lhe desciam pelo rosto assumiram proporções hidrográficas, quando uma belíssima mulher postou-se ao lado do pirófago e pediu fogo para o cigarro. Envolto em jactância, Candô não parava de falar que ia conseguir uma mulher fantástica e tudo mais, sem inacreditavelmente se dar conta da garota ao seu lado. Ela, de tão bela, resplandecia em meio à opacidade daquelas almas penadas. Percebendo que Candô não a notaria, a moça deu-lhe um tapinha no ombro e perguntou entre doce e displicente:
– Acende o meu cigarro?
– O cigarro e tudo que você quiser – respondeu Candô, transformando-se como por magia. Levantou-se, tratou de oferecer a própria cadeira e distribuiu ordens ao bodegueiro para que limpasse tudo e começasse nova rodada. A garota, fingindo surpresa, sentou-se com um “tudo bem” desembaraçado. Com habilidoso, ainda que pouco sofisticado bom humor, Candô arriscou pequenas piadas acabando por conseguir, não sem esforço, extrair alguns risos da moça. Empolgado demais, ele acreditava que todos os seus desejos estavam se realizando quando, de súbito, um carro subiu a calçada e freou bruscamente, parando ao lado da mesa onde eles estavam.
– Vamos nessa Zeth?! – falou o motorista, com certo nervosismo. A garota sorveu elegante o último gole e se levantou dando um tchauzinho desconcertante e debochado. Chicó teve que conter o riso com as mãos enquanto o parceiro expressava toda sua incredulidade. O bodegueiro de sobrancelhas arqueadas se aproximou e comentou com ares de advertência, ao abrir uma nova cerveja:
– Esse pessoal aí é pesado. Só vem aqui pra comprar pó...
            Chicó e Candô entreolharam-se pelo tempo de um raio e, fitando o bodegueiro, perguntaram a uma só voz:
– Pó?! Aonde???























OVERDOSE BAR



“...Nesta noite funda,
Fria e sem Deus.
Uma coisa branca,
Eis o meu desejo... ”

Dante Milano




                        Precisa e sensual, Zeth pincelou o batom sobre os lábios, deixando a boca exatamente no mesmo tom de seus cabelos, de suas unhas e de suas roupas, inclusive as íntimas. A poucos minutos do show, a maquiagem estava pronta. Bastava colocar a blusa e subir ao palco. Acendeu um cigarro e ficou a admirar-se frente aos espelhos. Verificou com satisfação a firmeza dos seios arredondados, a linha bem traçada dos quadris e a alvura dos ombros machadianos.
Já apagava o cigarro, quando uma rajada de ar frio lambeu-lhe a nuca. Então, uma pequena caixa de fósforos, com a marca do Overdose, juntou-se à bagana que fumaçava no cinzeiro.
– Sou um grande admirador do seu trabalho – disse Adelar, colocando sobre o toucador uma garrafa de Corvo. Diante do silêncio da garota, girou o charuto entre os dedos e prosseguiu:
– Gostaria de conversar, após o show é claro...
–...Olha, não sei o que você está pensando, mas...
– Negócios minha cara, apenas negócios – disse ele, se aproximando.
– Eu...
– Você pode me conseguir fósforos? Os meus acabaram...
Zeth sentia o odor amadeirado do perfume de Adelar penetrar-lhe pelas narinas. Ele se aproximara tanto que por pouco não lhe pisava os sapatos. Para não ter de encará-lo tão de perto, ela tomou impulso e se esgueirou. Evitando elegantemente ser tocada por ele, estendeu-lhe um pequeno isqueiro e ficou a fitá-lo, com olhos interrogativos. Porém, antes que voltassem a falar, a grande lâmpada vermelha piscou sobre os espelhos, indicando que era hora do espetáculo. Com gestos e palavras leves, Zeth desculpou-se e apontou a saída.
– Depois do teu show, a gente conversa. – Disse ele, antes de se retirar. Desceu as escadas com estardalhaço, engoliu algumas aspirinas e, como sentisse imediata necessidade, dirigiu-se ao sanitário.
            Sensual e por vezes obscena, a música de Zeth logo eletrizou o público, provocando uma ebulição de doideiras. Abancado na sua “mesa oito”, Miro sorvia quantidades oceânicas de uísque. Embora estivesse excitado com o movimento e com a música, ele pouco se movia e quando o fazia era para acender um cigarro ou levar mais uma dose à boca. Gostava realmente da sensação que a bebida lhe causava. O calor no corpo, o ardor nos olhos e a sensação de controlar a própria loucura faziam com que se sentisse pleno de vida. De um estalo, resolveu ir ao banheiro a fim de inalar cocaína. Antes, porém, encomendou outra dose e deixou o maço de cigarros junto com o copo sobre a mesa, fazendo um sinal para que o garçom lhe mantivesse o lugar reservado.
Do lado de fora, dois inseparáveis companheiros desciam de um táxi em meio a uma roda de belas mulheres.
– Essa noite vai ser demais, mai bróder! Hoje a cobra vai fumar, assoviar e chupar cana. Só quero tomar umas duas e me danar com uma diabona destas até o dia amanhecer. Vamos nessa, mai bróder. Vamos nessa...
Rapidamente, passaram pelos leões-de-chácara, driblaram os travestis e convenceram duas prostitutas a acompanhá-los. Instantes depois, postaram-se ao lado da mesa, onde repousavam os cigarros e o copo de Miro. Sempre tomando a frente de tudo, Candô mandou que Chicó e as moças se acomodassem, sem perceber que a mesa dava sinais de estar ocupada. Aproximou-se do balcão para fazer o pedido, no intuito de ser atendido mais rápido e, olhando para trás inadvertidamente, assistiu Adelar tomar a frente de Chicó e sentar-se à mesa. Indignado decidiu tomar satisfações com o desconhecido. Antes que isso acontecesse, porém, Miro se aproximou e, com razoável delicadeza, explicou que já ocupava a mesa desde o início do show, apontando a carteira de cigarros, para provar o que dizia.
– Escute aqui, fedelho – retrucou Adelar – vou ficar sentado aqui até essa merda barulhenta acabar. Procure outro lugar se quiser manter seu traseiro inteiro, entendeu?
– Você não está sendo educado – disse Miro, imaginando partir a socos a cara de Adelar. Candô, vendo o clima esquentar, decidiu passar de fininho entre os dois e procurar outro lugar para ficar. Pegou sua garota pela mão e fez um maneio de cabeça sinalizando para que Chicó o acompanhasse. Irritadíssimo, em meio à sua discussão com Miro, Adelar deu um forte empurrão em Candô, fazendo-o desabar sobre a mesa. Foi o começo do tumulto.
A partir da reação de Candô, garrafadas, socos, pontapés e cadeiradas sobraram para todos que estavam por perto, alastrando a briga. Dois seguranças do clube chegaram ao local no momento em que Adelar, caído, sacava de uma pistola. Um deles, muito forte e alto, tentou evitar o disparo, mas acabou alvejado no ombro. Menos sorte teve o outro que, ao empunhar um revólver, foi baleado na cabeça e morreu instantaneamente. Uma grande correria se formou e várias pessoas se feriram.
Adelar, aproveitando o momento de extrema confusão, apontou sua arma para as costas de Miro, mas, no exato momento do tiro, Candô desfechou-lhe um violento golpe, colocando-o por terra. O rock ainda soava em poderosos acordes, na hora em que Donato e Heliogábalo entraram atirando.
Miro saiu correndo para os fundos, seguido de Candô e Chicó. Movidos pelo medo, os três conseguiram transpor a minúscula janela do banheiro das mulheres e caíram na praia. Miro gritou para que eles o acompanhassem até o carro.
Com as mãos trêmulas e muito ofegante, quase não conseguiu abrir a porta. Mas, ao volante, a adrenalina serviu para aprimorar-lhe os reflexos. Saiu em alta velocidade numa manobra precisa e já ia desaparecer pela avenida, quando avistou Zeth, pelo retrovisor. Retornou imediatamente transpondo o canteiro, enquanto os truculentos capangas de Adelar carregavam o patrão desmaiado.
Zeth abriu a porta e se atirou no banco traseiro do automóvel, que partiu em grande disparada. Candô e Chicó pareciam ter perdido o sangue.
– A gente tem que voltar pro circo, mai bróder, já tô ficando com medo de andar nesta cidade aqui. Pra todo lado que a gente vai rola uma merda, porra.
– O circo tá do outro lado da cidade. Não acho que seja uma boa ir pra lá agora. – argumentou Miro – Se vocês estiverem a fim, a gente pode ir pro apê da Zeth. Tenho umas coisas e... Bem, se não fosse aquele teu soco eu nem ia poder cheirar mais...
– Candô, mai bróder. Candô. – disse o pirófago, estendendo a mão. – Este camarada aqui é o Chicó, morou? Gente fina. Circense. Gente da gente...
– Miro. Meu nome é Miro.
– Ô, mai bróder – disse Zeth, imitando Candô – enfia a mão nesse porta-luvas aí e pega um uísque pra mim. Afinal, que merda foi essa que rolou, com bala pra todo lado?
Miro e Candô cuidaram das explicações, reconstruindo os momentos dramáticos por que passaram, com ligeiras interferências de Chicó. A cada detalhe contundente, Zeth levava a mão à testa e cuidava de anestesiar o coração com mais um gole.
Talvez em função do nervosismo provocado pela agudeza do ocorrido, somente quando chegaram ao apartamento é que Candô e Chicó se deram conta de já terem visto o casal, em outra ocasião. Indiferente ao fato, Miro abriu uma garrafa de vodca e pôs a cocaína no prato.
Todos passaram a falar muito em função da droga e um sem-número de canudos de papel foi paulatinamente se amontoando pela sala. Falou-se de dinheiro, de sonhos e do que cada um teria coragem de fazer para conseguir realizá-los. Até mesmo o tímido Chicó tagarelava como um louco. Cinco gramas, dez gramas e mais uma garrafa de bebida, agora um conhaque. Vez por outra, um capiroto travesso derrubava talheres na cozinha. Zeth chegou a brincar que eram seus fantasmas de estimação e arrancou risos além do normal.
A tensão parecia ter-se dissipado. Tudo agora era euforia. A euforia do pó. Miro e Zeth sentiam-se como verdadeiros amigos de infância da dupla circense. Risos, brindes, abraços. Era uma festa.
            Era. Sem que nenhum som estranho fosse notado, Adelar e seus capangas surgiram, empunhando poderosas escopetas.
– Vamos logo ao assunto, seus merdas – rosnou Adelar, babando-se todo. Ato contínuo, entregou a arma para Donato e virou violentamente a mesa, surpreendendo a todos. De dedo em riste e espumando como um cão hidrófobo, prosseguiu:
– Vocês se meteram numa grande bosta...
– Foi só uma briga, um mal entendido – disse Miro querendo acalmá-lo – a gente pode resolver de outro jeito...
– Ah! Você não sabe do que eu estou falando, não é fedelho? Vou facilitar pra você. Na noite de 31 de outubro, você, esta putazinha de merda e o resto da tua gangue de filhas-da-puta acenderam uns foguetinhos na praia e foderam com uma transação minha. Deu pra lembrar?
– Não sei do que você está falando – sussurrou Zeth.
– Cale a boca! – gritou raivosamente Adelar, aproximando-se tanto, que Zeth pode sentir-lhe o hálito asqueroso. Passando a mão pelos cabelos oleosos, Adelar fingiu acalmar-se e prosseguiu com voz moderada, carregada de sarcasmo:
– Vocês causaram um grande prejuízo à Organização. Isso irritou algumas pessoas e elas reclamaram pra mim. É preciso que vocês saibam que isso não se faz. Vocês foram maus meninos. E ainda por cima me agrediram. Logo eu, um homem de respeito. Uma pessoa que nunca fez nada a vocês...
– Olha eu não sei dessa história de foguetinho nem de nada disso aí que você falou mai bróder, eu nem moro aqui e...
– É melhor calar a boca, seu bichinha de merda. Já enterrei muita gente por menos que isso.
Intuindo que Miro seria o líder do grupo, Adelar passou a dirigir-se exclusivamente a ele:
– A Organização perdeu alguns milhões nessa jogada, por exclusiva culpa de vocês. Isso significa que vocês têm um grande débito. Um débito que nós viemos cobrar. O correto seria que vocês pagassem com a vida. Mas, para mim, a vida de vocês não vale nada.
– Ainda bem – deixou escapar Chicó, enfezando Adelar, que com um violento puxão atirou-o ao chão e pisou-lhe o pescoço. Candô, angustiado, o interpelou:
– Aí, mai bróder, vai logo dizendo o que é que tu quer, compadre. Se fosse pra matar a gente, a gente já tava morto. É ou não é?
– O menino é inteligente. Que beleza! Assim você facilita. Eu gosto disso. Gosto de verdade.
            Alinhando o paletó, Adelar deu as costas, passou em meio aos capangas e depois de algum tempo voltou-se dizendo:
– Vocês vão fazer um servicinho para a Organização. Se fizerem tudo certo, deixo vocês viverem e ainda arrumo um dinheirinho pra vocês passearem. Mas, se vocês falharem, era uma vez... Deu pra entender? Ótimo! Estejam aqui, às três da tarde, sem ressaca e sem paranóia. Não tentem nenhuma besteira. Pode ser pior.
            Com um olhar, Adelar comandou seus capangas e saiu sem mais nada dizer. Zeth, Miro, Candô e Chicó entreolharam-se estupefatos. Incitado pelo capiroto travesso, o medo os mastigou com suas impiedosas mandíbulas de mármore.

































O ESPÍRITO DE OCTUS


“O lombo é um pouco roxo. E tudo larga um cheiro
Estranhamente horrível. Coisas singulares
Requerem que uma lente ajude ao olho nu...”


Arthur Rimbaud

           


            Por todo País, contam-se inúmeras histórias sobre o revolucionário Policarpo. Comprovar a veracidade dessas narrativas não é, contudo, tarefa fácil. Nas rodas de dominó, nos botequins e, principalmente, entre os mais idosos, há sempre alguém com uma versão diferente para o mesmo fato. Trata-se, portanto, de acreditar, ou não, no que se diz.
Joey Schatten, no seu polêmico “Diário da Revolução”, traçou um retrato do período mais obscuro da vida de Policarpo. A obra, muito contestada, acabou por render as mais variadas versões e causos populares. O mais aceito deles, talvez seja o que nasceu na Região de Orabutã. Segundo ouvi, o herói, muito jovem ainda, teria sido preso por divulgar panfletos considerados subversivos. As sevícias e as humilhações a ele infligidas, em decorrência disso, forjaram o motor de sua revolta contra o Estado.
Conta-se que o jovem Policarpo era um rapazola franzino e idealista. Os panfletos, elaborados por ele mesmo, professavam idéias mutualistas, que não se alinhavam com nenhum partido da época. Rebeldia juvenil, ingenuidade ou predestinação, o fato é que Policarpo foi levado aos porões do 8º Batalhão, onde sofreu toda sorte de torturas. Porém, nada tendo a confessar além de seu pensamento anarquista, com o tempo passou dos suplícios ao trabalho forçado. Limpava latrinas, podava árvores, engraxava botas e ainda era obrigado a alimentar aquele que seria, tempos depois, o símbolo maior do Regime: o porco Octus.
            Sem nada que o diferenciasse dos de sua raça, Octus tornou-se ídolo das forças policiais, num golpe do acaso. O fato se deu durante uma solenidade que reuniu vários oficiais e um grande contingente de homens. No auge das celebrações, um telefonema trouxe a ameaça de bomba. Policiais do esquadrão especial, presentes ao evento, vasculharam todo o quartel, mas só conseguiram localizar o artefato quando o contador indicava 45 segundos para a explosão.
A evacuação, que se processava com disciplina militar, tornou-se então uma louca correria. Naquele instante, porém, surgiu um enorme suíno, tão alvoroçado e faminto, que literalmente comeu a bomba. De fato, a mordida do animal foi tão certeira que partiu os fios na seqüência exata, desarmando o detonador.
Um tenente, de nome Otávio Carrera, aproximou-se cautelosamente e constatou, pela parte que sobrara, que o mecanismo fora desligado a oito segundos da explosão. Foi dele a idéia de adotar o porco como mascote e de batizá-lo com o nome de Octus. A vida do animal mudaria radicalmente após este episódio. A TV Estatal passou a bombardear a população com inúmeras matérias que o definiam como um verdadeiro símbolo de heroísmo. O 8º Batalhão abriu concurso e elegeu um novo brasão de armas, com a figura do suíno em destaque. Octus estava famoso. Sua figura cartunizada freqüentava todos os jornais e revistas pró-Regime, gerando uma onda de sucessos romanescos, que serviu como luva para afastar a população das discussões sobre os impostos e a intolerância do Regime. Porém, em pouco tempo, uma série de confrontos e chacinas no campo poria por terra o fútil patriotismo pré-fabricado e levaria ao ostracismo o herói-suíno.
Nada de câmeras, nem clarões repentinos. Nada de visitas estudantis, nada de medalhas. A fama do chancho desapareceu tão veloz quanto a glória do mundo. Ele, que se acostumara a passear, fertilizando livremente os gramados do quartel sob a mira das objetivas, passou a condição bem menos satisfatória. Agrilhoado, era mantido sobre uma laje semelhante a um pedestal, de onde nunca saía.
A pontapés e coronhadas, Policarpo cumpria a missão de mantê-lo alimentado e limpo. De tudo que era obrigado a fazer, cuidar do suíno era o que mais lhe repugnava. Sua aversão não residia na natureza do animal, mas no que ele representava. Para aumentar seu infortúnio, um sargento conhecido como Zóião, percebendo o terrível asco que sentia em relação ao artiodátilo não ruminante, tramou contra ele uma cruel humilhação. Diante de quase todo batalhão, num fim de tarde chuvoso, obrigou-o a alimentar-se junto com bicho. Ao final do espetáculo vergonhoso, que protagonizou sob ameaça de armas, Policarpo disse ao sargento: “Eu posso comer ração, mas são vocês os verdadeiros porcos”. Por conta disso, apanhou muito e passou quatro dias confinado na solitária.
Enquanto a mente atormentada de Policarpo se digladiava com a loucura, por trás dos olhos negros e arredondados, o pequeno cérebro de Octus mergulhava em lembranças descoloridas, para fugir à amargura da vida atada a ferros. Recordava as tetas quentes em que mamava e até podia sentir a lama dos manguezais e odor dos lixeiros onde fuçava por alimento, junto aos urubus. Era nessas lembranças que encontrava forças para se manter vivo. Seu sono conturbado, na contramão de suas recordações, constituía-se numa fábrica de horrores. Revia impotente a cruel morte da mãe, espancada e sangrada entre grunhidos altíssimos. Corria em meio a cães ferozes que o mutilavam a poderosas dentadas e não raro acordava com a sensação de sentir o cheiro de sua própria carne queimada.
            Ao despertar de tais pesadelos, Octus rolava nos restos de comida e nas próprias fezes, até adquirir uma coloração escura. Feito isso, mantinha-se de tal forma parado que, quem o avistasse de longe, imaginaria estar vendo uma estátua, acorrentada ao seu pedestal.
De fato, grande era a dor de seu padecimento. Seu corpo animal ferido pelos grilhões e sua mente suína cheia de lembranças impulsionavam seu espírito de porco a desejar o fim de tudo. O que mais o irritava, porém, era o contato com Policarpo, principalmente após a pena na solitária. Não gostava do seu cheiro e odiava o tratamento que ele lhe dispensava. Tentou mordê-lo várias vezes, algumas com relativo sucesso, mas nada era suficiente para aplacar sua ira.
Foram meses de aflição sobre a laje, até que Policarpo deixou de aparecer. Um soldado, cujo rosto era parcialmente coberto de sinais escuros e rugosos, foi incumbido de ser o novo tratador. Octus animou-se tanto que, como conseqüência, desatou a comer e engordar literalmente como um porco. Deu de sujar-se menos e logo tornou-se rosado ao extremo. Os pesadelos diminuíram em freqüência e intensidade e seus dias e noites estavam cada vez melhores.
            Nessa época, a formação de uma nova guerrilha revolucionária chamada Movimento colocava em risco a ditadura do Comitê. Estrategistas do Regime, numa manobra maquiavélica, planejaram e executaram um atentado contra a escola pública da capital, atribuindo culpa à guerrilha recém-formada. Dezenas de crianças morreram e centenas ficaram feridas na explosão. Incentivados pela imprensa, milhares de cidadãos foram às ruas em protesto contra os atos terroristas. Bandeiras e camisetas com a figura do porco estampada foram estrategicamente distribuídas pelo Departamento de Propaganda. A “Era Octus” estava às portas do apogeu.
            Com o passar dos anos, os ativistas políticos contrários ao Regime foram presos, deportados, exilados ou simplesmente mortos. Porém, o Movimento prosseguiu em sabotagens e ataques cada vez mais ousados, tendo como alvo principal os chefes das milícias repressoras e os membros do Comitê. O 8º Batalhão foi transformado em D.A.P.U. e entregue a um comando especial, com o objetivo maior de combater a guerrilha de Policarpo.
            Entre os membros dirigentes do D.A.P.U. estava a temida Olga Wurtz, conhecida por ter preparado para o Regime um requintado manual de torturas. Olga e sua equipe tinham verdadeira adoração por Octus e se redobravam em cuidados para com o suíno. Era sabido que todo final de tarde eles se reuniam em torno do porco para acariciá-lo e atirar-lhe sobras de pizza. Octus não se fazia de rogado e devorava rapidamente o que lhe ofereciam. Sentia um grande calor no peito e em seus órgãos genitais quando era tocado por Olga Wurtz. Seus olhos ficavam repentinamente úmidos e incrivelmente brilhantes quando isso acontecia.
            Numa manhã de quinta-feira, Olga ordenou que Octus fosse levado para um galpão nos fundos do D.A.P.U., afim de que fosse banhado, escovado e tratado por veterinários especializados. O objetivo, explicou ela, era uma sessão de fotos para imortalizar o herói-suíno. Porém, quando o bicho já estava devidamente preparado, Olga fez com que todos se retirassem e ficou a sós com o rechonchudo animal. Certificando-se de que ele estava bem preso e de que ninguém a poderia observar, Olga tirou sob o vestido sua larga calcinha e esfregou-a nas ventas do bicho.
A sensação de Octus foi de extremo agrado ao aspirar o forte cheiro que manava da peça gigantesca. Lembrou-se de sensações olfativas antigas, experimentadas nos lixões onde costumava fuçar e emitiu uns grunhidos gentis, demasiado baixos para serem ouvidos fora do galpão. Olga, intuindo a satisfação do animal, tratou de apalpá-lo no pênis, com movimentos lentos e fortes. Excitava-se muito fazendo isso. Quanto mais seus dedos masturbavam o porco, mais sentia a vagina umedecer. O porco grunhia baixinho e ela sentia o muco escorrendo pelas coxas. Num gesto incontido, colocou-se por baixo do animal e, com sofreguidão, pôs-se a sugar o membro enrijecido, masturbando-se violentamente até o orgasmo.
Após recompor-se, partiu com o bicho solto, para o esperado ensaio fotográfico, o qual fez questão de acompanhar em cada detalhe. O fotógrafo encarregado do serviço, Alfredo Potato, tentava manter uma postura profissional, mas aborrecia-se demasiadamente, com as excessivas recomendações de Olga.
Ao final da longa sessão de fotos, Octus foi novamente levado para o seu pedestal e acorrentado sem mais delongas. Olga Wurtz, por seu turno, suspendeu os trabalhos e foi para casa suspirando de felicidade. A liberação dos desejos e os secretos prazeres gozados com o suíno eram motivos de comemoração. Sozinha, em seu gigantesco apartamento, abriu uma garrafa de licor de fruta e deitou-se ao centro do grande tapete da sala. Entre um gole e outro, lembrava do contato com o porco, comparando as recentes emoções vividas com o que sentiu quando pela primeira vez foi possuída.
Rolando de lá para cá, ora buscava o cheiro untuoso de Octus em seu corpo, ora relembrava o odor nauseabundo do banheiro onde fora violentada. Do estuprador não lembrava o cheiro. Podia, contudo, lembrar-se de seu tipo alto e recurvado, com o topo da cabeça careca e, no resto, compridos cabelos, tão brancos quanto sua barba. Lembrava também que o que houve foi uma dolorosa penetração anal, como todas as outras que pode experimentar em sua deprimente vida sexual, pois, apesar de contar quase sessenta anos, ainda sonhava encontrar aquele que a desvirginaria, com o nobre intuito de tomá-la em casamento, pondo fim à sua maldição.
            Ainda àquela noite, elegantemente vestida e discretamente bêbada, Olga Wurtz pronunciaria um de seus mais famosos discursos: Pátria, governo e as hostes da moralidade. Meses depois, convertido em livro, esse manifesto pró-Regime tornou-se notícia em todo país. O fato se deu, principalmente, porque na noite de lançamento, Octus foi mandado pelos ares por uma bomba acionada à distância.
Olga Wurtz, sob impacto emocional, sofreu violento ataque cardíaco e por pouco não morreu. Tudo havia acontecido debaixo de seu nariz. Enquanto ela autografava pomposamente dezenas de exemplares de seu opúsculo, Policarpo furava o pesado esquema de segurança e plantava, em pleno D.A.P.U., o explosivo que rasgaria o porco em centenas de pedaços.
            Um vulto negro, um objeto colorido, uma explosão. Esse foi o fim de Octus. Seu espírito animal se projetou no espaço através de nebulosas e quasares até atingir um ponto indefinido, que aos poucos foi se tornando um novo mundo, incrível, oleoso e maravilhosamente suíno. Um paraíso babélico cheio de lama, fezes e grunhidos felizes, onde os urubus celebravam o lixo e o caos. Uma espécie de céu dos porcos.
Octus tinha, agora, todos os seus desejos magicamente realizados. Sonhava intensamente e sentia, em sua alma de porco, os dedos firmes e a boca calorosa de Olga Wurtz, sempre que queria. E queria muito, a toda hora. Talvez porque os porcos carreguem fortes lembranças ou quem sabe algo de paixão em seus gordurosos espíritos.





























UMA COISA, OUTRA COISA.


“Margot, mira mi verga
Ama, todo convida
Que mañana la juerga
Acaba, con la vida...”

Maynard





            Algumas noites antes do terrível bombardeio moslemk, ao se aproximar dos lupanares de costume, Candô avistou seu amigo Chicó. Os informes do rádio não paravam de anunciar que a guerra civil, antes iminente, estava estancada. Uma estratégica proposta de coalizão levara o Comitê a um salvador (e quase inacreditável) acordo com o Movimento.
No afã de combater o inimigo comum, homens se mobilizavam ao modo de formigas. O desespero habitava quase todas as casas e a fome já sentava à mesa de muitas famílias. Na fronteira, assassinatos e estupros faziam-se comuns e a tensão social transpunha os limites do suportável. Prognosticavam-se catástrofes hídricas, além de tudo, e toda a confusão em que o país estava mergulhado parecia servir apenas para ampliar a freqüência nos bares e prostíbulos, principalmente os da capital. A vida boêmia, em fim de festa, embriagava-se de prazer.
Candô desceu do táxi num raro momento de estiagem, libertando-se do ruidoso e perturbador noticiário. Ainda a certa distância, percebeu que Chicó conversava muito animadamente. Sua interlocutora era uma loura de pujança babilônica, daquelas que costumam cheirar a lavanda e lançam risos estrepitosos a todo instante. Inspirado pela roupa da moça, que semelhava uma pele de onça,  Candô disparou o verbo com a habitual malandragem:
– É, mai bróder, não adianta cutucar onça com vara curta. O negócio é deixar aqui com o velho Candô que tem o instrumento na medida certa e sabe tudo de domar fera...
– Ruuaauuuuuuuuu! – fez a garota, juntando à imitação um gesto lascivo.
– E você, seu bosta? Vai virar bicho hoje de novo? – quis saber Chicó, enquanto apertava a mão do amigo.
– Maninho, hoje eu bebo até chumbo derretido, principalmente se você me apresentar a irmã gêmea desta felina...
– Gêmea eu não tenho, meu bem – interrompeu ela –,  mas se você quiser o negativo da gatona aqui é só falar que te apresento aquela pantera ali.
Candô alongou a vista até a garota indicada, avaliou suas proporções com um olhar inclinado e fez sinal para que ela se aproximasse. Iria ponderar que ela se equiparava em dimensão, forma e intensidade à bela loura que acompanhava seu amigo Chicó. Porém, ao inalar o calor de seus seios achocolatados, convencer-se-ia de ter encontrado o que buscava. Em meio à bebedeira que se seguiu, houve um colapso no sistema de transmissão de energia. O blecaute não foi tão rápido que evitasse a fuga de fregueses decididos a não pagar suas contas, nem tão lento que permitisse a evolução das carícias de Candô rumo às intimidades mais secretas de sua Vênus abissínia.
Pouco se bebeu até que fosse restabelecido o fornecimento de energia. Candô se entediava secretamente por não poder observar melhor a beleza da garota, devido à baixa luminosidade. Mas, com a volta da luz e da música, veio a euforia. Novas rodadas se seguiram impulsionando desejos ocultos e fantasias tangíveis. Chicó, à hora que tratavam do preço do programa, propôs uma troca de casais. As garotas, às quais cognominaram Chocolate e Copo de Leite,  não expressaram qualquer resistência à idéia. Candô, todavia, recusou a proposta peremptoriamente e tentou de pronto encerrar o assunto. Foi inútil. A insistência de Chicó parecia não conhecer limites. Depois de um quarto de hora, Candô – sem disfarçar o aborrecimento com o companheiro –,  convidou-o ao banheiro para uma conversa em separado.
– Meu amigo, uma coisa é uma coisa. Outra coisa é outra coisa. Se você reparar bem, vai ver que tenho razão.
– Mas puta é tudo puta, porra. Tu tá procurando casamento?!
– Preste atenção no que eu vou te dizer. Eu como a negra primeiro. Isso é uma coisa. O que vier depois é outra coisa. Vê se entende, mai bróder.
– Mas não tem nada a ver, maninho. É puta. Puta é tudo a mesma coisa...
Súbito, um sujeito abre a porta com grande estardalhaço. Percebendo que havia chamado atenção, ergue o indicador amarelado pelo tabaco e pronuncia em voz anasalada e bêbada:
– Arre! Já celebrei mulheres em três cidades, mas é tudo a mesma coisa...
– Você pode até dizer que é tudo a mesma coisa – prosseguiu Candô, virando-se para o companheiro –,  mas eu te digo: é diferente. Primeiro eu. Isso é uma coisa. O resto é outra coisa. Afinal, mesma coisa é uma coisa que não existe.
– Maninho, vê se deixa de coisa...
– As pessoas têm dificuldade em perceber a diferença nas coisas, Chicó. Por isso quase não conseguem compreender coisa alguma. E coisa alguma não é nada.
– Arre! Já celebrei mulheres em três cidades, mas é tudo a mesma coisa... – repetia a todo instante o bêbado fanhoso.
– Muito embora “nada” seja maior do que “tudo” – insistia Candô, tomado de incontrolável verborragia – Quer dizer... Bem.. É... Preste atenção: Você sabe que a maior parte do universo é o vácuo. Entre uma estrela e um planeta e qualquer merda que seja existe o quê? O vácuo. Nada. Logo, todas as coisas que existem estão contidas no nada, que é a maior parte de tudo, mesmo que não seja porra nenhuma. O vácuo, entende?
–?
– É isso aí, mai bróder! Não adianta nada insistir nessa coisa de mesma coisa. Isso tudo tem que ser entendido à luz da razão. Uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa. Você se diverte com a Copo de Leite que eu faço a festa com a Chocolate, certo? Depois você pode até experimentar com ela pra ver se é a mesma coisa ou não, mas, por agora...
            Completamente atordoado pela velocíssima metralhadora verbal de Candô, Chicó fez um sinal abobalhado de assentimento, maneando lentamente a cabeça. O bêbado fanhoso, que já estava a urinar os próprios dedos, não cessava de repetir:
– Arre! Já celebrei mulheres em três cidades, mas é tudo a mesma coisa...
Os dois voltaram à mesa. Uma garçonete comprimida entre uma saia escassa e um decote generoso servia uísque, enquanto Chocolate beijava languidamente a boca de Copo de Leite. Quase sem respirar, por conta do ar que lhe roubavam os súcubos, Candô pediu a conta. Minutos depois chegariam ao motel, munidos de tudo quanto necessitava a orgia.
Ao centro da gigantesca suíte havia uma pista de dança ladeada por um bar onde os dois amigos se instalaram de copos e baseados à mão. À medida que se desnudavam, num luxurioso strip-tease as garotas mostravam ser, de fato, duas fêmeas formidáveis, adestradas nas artes de Salomé e providas de recursos eróticos fenomenais. Com habilidade única, aproximaram-se de seus parceiros e retiraram-lhes as roupas sem deixar de dançar. Íncubos febris rondavam as sombras e moviam cortinas. Chocalate sugou longamente o pênis de Candô, antes de encaixá-lo na entrada do ânus e sentar-se sobre ele fazendo-o penetrar até o fundo. Copo de Leite postou-se à frente dela e passou a beijá-la sofregamente, emitindo gemidos roucos e ganidos sensuais. Sem qualquer delonga, Chicó penetrou-a por trás iniciando um coito alucinado. As garotas fizeram de tudo para não pararem de se beijar, mas o furor masculino sobrepujou suas intenções.
Quase seis horas depois, mal conseguindo mover-se, Chicó foi o primeiro a acordar. Esforçou-se para arrastar o enorme peso que se constituía sua cabeça, desviando de garrafas, cigarros e preservativos usados. A música soava como uma tempestade terrível e a suíte assemelhava-se, agora, aos restos de um naufrágio. Candô roncava abraçado pelas mulheres, segurando uma garrafa de vinho doce que entornara sobre os lençóis. Atordoado pela ressaca avassaladora, Chicó decidiu meter-se na sauna enevoada. Procurou deitar-se para fugir ao vapor que lhe provocava tosse e ficou imóvel, tentando lembrar o que havia acontecido. Mal sabia ele onde estava. Mesmo assim, tranqüilizou a alma vagabunda e fechou os olhos para mais um cochilo.
            O segundo despertar foi mais fácil, apesar do vapor sufocante. Pulando fora da sauna, Chicó apanhou uma garrafa de água mineral e atirou-se na piscina, sentindo-a como uma bênção refrescante. Permaneceu sob a pequena e barulhenta cascata tempo suficiente para sentir frio. Depois, pôs-se a beber em pequenas garrafas de uísque, observando o sono de seus companheiros desnudos. O pênis avantajado de Candô causou-lhe algum espanto, mas não lhe reteve a atenção. Moveu-se rumo às pernas roliças da loura, para apreciar-lhe as intimidades. Constatou que tinha uma vulva pequena e rosada, de lábios delicados e clitóris surpreendentemente protuberante. Aproximou o nariz para sentir-lhe os cheiros e, tendo aprovado tais odores, provou de seus fluidos com um beijo.
De um arroubo, direcionou seu ímpeto investigativo para Chocolate. Esta era mulher bem dotada, com um monte de Vênus elevado, coberto de finos pelos muito bem aparados. Os grandes lábios e também os pequenos eram naturalmente escuros e tão extraordinariamente volumosos que se enrugavam comprimindo-se uns contra os outros, de tal arte que foi preciso separá-los com a ponta dos dedos para que pudesse avistar o clitóris diminuto.
Sentindo o membro ereto, Chicó molhou-o com abundante quantidade da própria saliva e penetrou a moça com uma quase-delicadeza. Ato contínuo suou, gemeu e fornicou tanto que acabou por acordar a Candô e à Copo de Leite. A mulher em que satisfazia seus instintos não dava, todavia, sinais de despertar da narcose. Isso pouco lhe importava, já que não pretendia parar, houvesse o que houvesse.
            Candô levantou-se, pegou uma garrafa e, puxando Copo de Leite pelo braço, dirigiu-se à piscina dizendo:
– Vou escovar os dentes com uma cerveja. Pode curtir a necrofilia numa boa, viu Chicó? Entre nós não tem coisa, mai bróder.
Copo de Leite parecia divertir-se mais em companhia de Candô. Fizeram grande quantidade de espuma com sais extras solicitados pelo interfone. Riram e brincaram pelo tempo de seis latas de cerveja. Copularam sob a cascata e gozaram abraçados, num mergulho que quase lhes tira a vida. Na cama revirada, entretanto, Chicó não parava de copular com a negra, um instante sequer. Curiosos, Candô e Copo de Leite foram conferir de perto o que acontecia. Candô fez piadas inacreditáveis tentando desconcentrar o rapaz, mas não obteve êxito, pois Chicó sequer lhe dava ouvidos. Copo de Leite, prometendo a Candô uma “brincadeirinha sacana”,  muniu-se de um falo de borracha e partiu para cima do garanhão insaciável. Penetrou-o com o objeto, no exato momento em que Candô, com maestria, introduziu o pênis em seu ânus.
Uma complexa sinfonia de urros, sussurros e gemidos misturou-se ao ar, fazendo íncubos e súcubos ansiarem os sonos de suas vítimas. Candô, a certa altura, pôs a loura atrás de si, puxou para fora o consolo colocado no amigo e tentou substituí-lo pelo próprio pênis. Num movimento brusco, porém, Chicó virou-se e empurrou o companheiro, gritando com voz irada:
– Peraí, meu chapa. Tá pensado o quê, porra? Tá pensado o quê?
– Pô, mai bróder, você tava até gostando...
– Nada disso, irmão. Nada disso. Uma coisa é uma coisa. Outra coisa é outra coisa.
            Muito tempo depois, ao deixarem o motel, Candô e Chicó ririam divertidamente ao ouvir a voz fanhosa que bradava ao longe:       
– Arre! Já celebrei mulheres em três cidades, mas é tudo a mesma coisa...





































A FEIRA

“Porque pensar é não compreender...
O Mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo...”


Alberto Caieiro


                        As ações de confisco do Regime haviam provocado grande revolta em Murghab. Vultosas manifestações tinham lugar em frente às sedes do poder e, principalmente, na Piazza della Giustizia, onde os confrontos com a polícia eram inevitáveis. No interior, a crise era ainda maior. Guerrilhas recém-formadas juntavam-se ao Movimento, criando uma grande frente contra as tropas fiéis ao Regime.
Instalara-se no País uma censura de guerra. Os presídios, abarrotados de presos políticos, haviam iniciado mais uma rebelião simultânea, e quase ninguém sabia. Enquanto blecautes, saques e assaltos ocorriam por toda parte, jornais eram impedidos de circular; emissoras eram fechadas e o Serviço de Inteligência tentava exercer controle absoluto sobre todo e qualquer tipo de informação.
Buscando o bálsamo da alienação, Miro conduzia seu carro pela cidade. Ao acaso, captou uma emissora pirata, que anunciava para breve a Marcha pela Libertação de Murghab. Fechou os vidros, estacionou na Piazza e ficou a ouvir a propaganda revolucionária, enquanto observava ao longe o Monumento a Octus. Ponderava que, tão logo ocorresse o levante liderado por Policarpo, teriam que agir sem demora. O plano, que havia sido mudado tantas vezes precisava, agora, adquirir os contornos finais. Se tudo corresse bem, em pouco tempo estaria livre da Organização e teria dinheiro suficiente para escapar do país. Bebeu uísque no gargalo e, ao perceber que alguns guardas se aproximavam, partiu em velocidade moderada, para não chamar atenção. Apagando da face a expressão aflita, Miro procurou não pensar em nada que o angustiasse e decidiu se embriagar num bar de praia.
Dirigiu alguns quilômetros pela extensa faixa de areia, até optar pelo Babilônia, um dos poucos bares em funcionamento. Lá, em meio a uma intensa agitação, encontrou Joey Schatten, guitarrista que tocara com Zeth algumas vezes. Era um garoto baixinho, de sotaque carregado e fala excessivamente melodiosa, a quem sempre achava em estado de avançada embriaguez. Pareceu-lhe excelente companhia para a esbórnia e, como o rapaz estivesse sonolento, foi com ele até o banheiro, para que inalassem cocaína.
Joey prometeu pagar algumas doses de uísque e, assim que tomou assento, passou a contar longas histórias repletas de obscenidades. Miro ria a não mais poder. O dono do bar, contudo, não se agradava nem um pouco das histórias cabeludas do baixinho tagarela. Por volta das sete da manhã, percebendo que a situação iria se agravar, Miro convidou Joey para beber cerveja no Mercado das Tulhas, que àquela hora já deveria estar aberto.
– É já! – disse Joey, erguendo a voz propositadamente acima do necessário – Deixa só eu te contar mais uma que aconteceu comigo lá no Norte, que é pra acabar de encher o saco desse bicha filha-da-puta que tá a noite inteira me olhando com cara de cu.
– Você tá falando comigo, rapaz? – perguntou o dono do bar aproximando-se ameaçadoramente.
– É contigo mesmo seu merda. Tá pensando que é macho pra mim, seu bosta?
            O dono do bar, extremamente ágil apesar da volumosa barriga, esticou-se velozmente por cima do balcão, pegou Joey pela camisa e socou-o pelo menos duas vezes, antes que Miro o pusesse a nocaute, com uma violenta cadeirada. Quando os garçons perceberam o acontecido, Miro e Joey já estavam em fuga. Cerca de vinte minutos depois, chegavam ao mercado. À essa altura, o esmurrado nariz do baixinho já parava de sangrar e ele contabilizava quanto havia deixado de pagar.
Indiferente a qualquer agitação política, a enorme feira exibia os cheiros e a agitação típica do horário. Havia carregadores pobres, meninos pobres e vadios pobres circulando por toda parte. Os fregueses que chegavam eram disputados a grito pelos barraqueiros. Miro e Joey pararam para observar uma grande quitanda, onde um gorducho engraçado falava alto e rápido, enquanto aviava pedidos de arroz, farinha, cigarros e principalmente cachaça. Sempre que se aproximava um bêbado, ele apregoava:
– Bota o dinheiro, bota o dinheiro, bota o dinheiro. Pode vir que aqui tem. Você pode vir bêbado, caindo ou se tremendo que na hora mesmo eu te atendo. Põe trinta centavos no balcão, que avexado a dose tá na mão. Agora, se vier sem a moeda, pode procurá outra bodega. Bota o dinheiro, bota o dinheiro, bota o dinheiro. Aproveita que eu estou desocupado. Vamo lá meu filho. O dinheiro tá trocado?
            Ao redor era tudo zoeira. Decidiram então adentrar um pouco mais, passando pelos açougues e pelos abatedouros de galinha, até uma pequena barraca, que parecia ter acabado de abrir. Uma velhinha faceira e, por assim dizer, bem arrumada, cuidava de pôr panelas ao fogo, junto com a jovem filha.
– Tem cerveja gelada aí, não tem tia? – perguntou Joey, sem tirar a mão do nariz.
– Bem geladinha, meus filho. E, se vocês quisé pode incostá aqui, que eu coloco uns banquim pra vocês.
            Miro e Joey sentaram-se no local indicado e logo em seguida brindaram o reinício da pândega. Ao primeiro gole, o incidente da praia estava superado e os dois farristas, alheios a qualquer problema possível, danaram a rir e beber. Já se iam umas seis ou sete garrafas, quando um velho forte, descalço e descamisado, aproximou-se da barraca.
– Dorinha... – disse ele docemente, apertando um pouco os olhos esverdeados, para melhor observar a velhinha.
– Você de novo? Dá um tempo, vai. Você não cansa?
– Dorinha. Esta noite iô dormi aqui. Acordei abraçando um cachorro. Me levaram tudo.
– Não adianta, homem. O que tu qué que eu faça?
– Dorinha, tu sabe por que razão iô tô deste jeito...
– Eu não posso fazer nada, Zé. Já te disse isso.
– Dorinha, você é o meu amô...
– Mas tu num é o meu. Eu tenho um homem que é sério, que mi respeita...
– Aquele cachorro num presta Dorinha. E já tem mais de cinqüenta...
– E tu? Quantos ano tu tem? Já passou dos sessenta faz é tempo.
– Dorinha, tu sabe. Todo o dia, até o último da minha vida, iô vô vim aqui pra te dizê...
– Zé, procura teu rumo. Caça um jeito pr’essa tua vida, homem...
– É... Tu sabe bem o que iô vou fazer, né minha Dora? Você me mata mais uma vez. É mais um dia que iô perco na minha vida. Tu sabe bem, minha Dora. Tu sabe...
            Com ar triste, porém resoluto, o homem se voltou para Miro e falou o mais grave que pôde:
– Meu caro amigo, me perdoe a ousadia de lhe dirigir estas palavra. Se assim iô faço é por pura necessidade.
– Pode falar na boa, irmão – disse Miro, movido pela sua profunda e natural comiseração pelos tipos bêbados.
– Eu gostaria muito, porque iô fui roubado, que o senhor pudesse me consegui uns trocado...
– Se for pro ônibus, eu tenho passe aqui – sugeriu Joey, ao que o homem de imediato retrucou:
– Não senhor. É para bebê. Tudo que iô quero é me embriagá...
– Zé, vai perturbá noutro lugar. Vê se larga minha freguesia, vai, vai...– disse a velhinha, com intuito de afastá-lo. Miro impediu-a com um gesto leve. Ato contínuo, enfiou a mão no bolso, pegou uma nota de dez e entregou-a ao homem, dizendo:
– Tome. Compre uma garrafa pra você, um maço de cigarros pra mim e me traga o troco. Não precisa agradecer. Mas... – disse puxando a cédula de volta quando o homem já ia pegá-la – tem uma condição: Você não bebe aqui, tá falado? Não quero perturbação.
            O homem fez que sim com a cabeça, pegou a cédula e saiu. Joey satirizou a boa fé de Miro mas, alguns minutos depois, o Homem estava de volta com os cigarros, o troco e uma profusão de agradecimentos prontamente dispensados.
Dorinha procurou assunto para levantar os ânimos, trouxe uma cerveja muito gelada e sugeriu a colocação de uma grade, para organizar as muitas garrafas que se acumulavam desordenadamente. Após o assentimento dos fregueses, incumbiu a jovem filha da tarefa. Enquanto a garota acondicionava os vasilhames inocentemente, Miro inalava com grande apetência o cheiro que manava de sua pele branca e lustrosa. Gostou de sua forma recatada de se mover, para evitar que a saia lhe subisse pelas coxas e arriscou um olhar mais incisivo, sob o qual a moça ruborizou. Joey, que perdera os lances iniciais, encolheu os ombros e arregalou os olhos em direção a Miro para saber o que se passava. Porém, naquele momento um outro homem se aproximou da barraca, dirigindo-se a Dorinha.
Era um tipo insípido, metido num paletó descolorido, cujo bigode lhe acentuava a aparência idiota. Joey sinalizou para Miro, mostrando o péssimo estado da bíblia que ele portava sob a axila. Notando que olhavam para ele, o homenzinho rechonchudo volveu o olhar e cumprimentou-os. Os dois responderam com dissimulada cortesia e deram seguimento à bebedeira.
– Vamo logo, Dora, senão nóis vamo perdê o culto das nove. – disse o homenzinho apertando o nó da gravata puída – Não te esquece que hoje é dia de tu dá teu dízimo...
            A velhinha saiu como pôde, dando instruções à filha para que não esquecesse disso, daquilo e de tudo mais que, enfim, a garota – chamada Marina –,  parecia saber de cor. Joey começou a ficar sonolento novamente e avisou Miro que iria “desligar um pouco”. Em menos de trinta segundos já estava ressonando.
Miro pediu mais bebida, explicando a Marina que, ao contrário do amigo, estava totalmente desperto. Com a simpatia própria do conquistador inveterado, esticou conversa, ganhou a confiança da garota, ofereceu-lhe cerveja e fez com que ela sentasse à sua mesa. Simpática e relativamente bem-falante, Marina advertiu que sua mãe jamais poderia saber que ela agia fora dos padrões doutrinários de sua religião. Em função disso, foram para o balcão, onde ela podia manter o copo às escondidas e conversar, furtando-se aos olhares mais intrometidos. Com todo jeito, o rapaz perguntou a ela sobre Seu Zé, o sujeito a quem tinha dado dinheiro. Depois de conferir o esmalte das unhas, Marina bebeu de um gole o copo de cerveja e satisfez a curiosidade de Miro:
– Minha mãe, quando nova, foi casada com Eugênio Moraes, que é meu finado pai. Que o Supremo o tenha, se for possível. Este Zé Marinho, o Seu Zé, que estava aqui, foi um namorado dela na adolescência e... Bem, ele teve um romance com ela e foi descoberto pelo velho Eugênio que, apesar de ter sido meu pai,  era um canalha espancador de mulheres, mais ruim que o diabo. Que a Chama me perdoe por falar assim. Ele quebrou quatro costelas de minha mãe. O que ele queria mesmo era matá-la mas, por graça divina, foi ele quem acabou morrendo. Teve um ataque e morreu a caminho do hospital. O mesmo hospital onde mamãe ficou internada quase um mês, por conta dos maus-tratos dele. Bem. Isso passou, graças aos céus.
            Marina persignou-se, refletiu um instante, bebeu e deu prosseguimento à história, sem esconder o sentimento de desabafo:
– Seu Zé era dono de cinco das maiores barracas daqui. Ganhava um bom dinheiro e assim, ele logo propôs casamento à minha mãe, que aceitou, só que quase um ano depois do velho ter morrido. Os dois foram morar na Zona Leste, onde levaram uma vida bastante feliz por mais ou menos três anos. Foi até ele se envolver com uns caras do armazém bananeiro e começar a chegar tarde em casa. As brigas foram aumentando até que um dia ele dormiu fora de casa. Minha mãe foi atrás e descobriu que ele tinha passado a noite no cabaré. Foi o fim. Ela não quis mais ele de jeito nenhum. Saiu de casa comigo, botou um tabuleiro de laranjas e hoje nós estamos aqui, com este restaurantezinho que não é muita coisa, mas dá pra gente viver.
Miro, que ouvia atentamente as palavras da garota, fez um sinal para que ela pegasse mais uma garrafa. Atendendo-o, ela percebeu que não lhe satisfizera a curiosidade e prosseguiu:
– Quando eu concluir a faculdade talvez seja mais fácil pra gente. Sei que é difícil, com tudo que está acontecendo por aí. Mas, pelo menos, eu sonho. Já pro Seu Zé, que sonha é com a mamãe, tá mais complicado. Ele fez jura e vem todo dia dizer pra ela que a ama, implora pra ela voltar. Como ela não volta, ele bebe até cair. Já perdeu tudo que tinha, menos a barraca grande, que o irmão dele toma conta e não deixa nem ele entrar, porque senão...
– E sua mãe não liga mais pra ele de jeito nenhum? – inquiriu Miro.
– Claro que liga. Só que não assume. Mas, basta ele ficar doente ou qualquer coisa assim que ela é quem cuida...
– Porque ela não o perdoa o cara, se no passado ela mesma traiu o marido?
– Minha mãe diz que ela traiu um homem que não a amava e ainda por cima batia nela.
– É... Mas acho que ela podia dar uma chance pra ele. Ele parece ser bem mais legal do que aquele outro...
– Eu também acho. Até porque Seu Zé era um pai de verdade pra mim. Mas ela não quer acordo e a novela se repete todo santo dia.
Bêbado e pensativo, Miro pagou a conta por volta das duas. Despediu-se de Marina com um beijo furtivo, jogou o inerte Joey sobre o ombro e seguiu em direção à saída principal. No meio do caminho viu alguns moleques atirarem tomates e outras coisas podres em  Seu Zé, que jazia como um brinquedo desmantelado, ao lado da garrafa vazia. Um pouco mais adiante, notou outros bêbados que começavam a dar sinais de seguir o mesmo caminho.
Um homem negro, tão alcoolizado que sequer podia abrir os olhos, tentava em vão trocar um ovo por uma dose de conhaque. O bodegueiro, ignorando-o, deslizava pelo interior do balcão, apregoando:
– Bota o dinheiro, bota o dinheiro, bota o dinheiro. Pode vir que aqui tem. Você pode vir bêbado, caindo ou se tremendo que na hora mesmo eu te atendo. Põe trinta centavos no balcão, que avexado a dose tá na mão. Agora, se vier sem a moeda, pode procurá outra bodega. Bota o dinheiro, bota o dinheiro, bota o dinheiro. Aproveita que eu estou desocupado. Vamo lá meu filho. O dinheiro tá trocado?





GABRIEL LAZARILLO

“Venha, agora iremos para casa, para Deus!
Para que permanecer neste mundo sublunar?“

Novalis


                        Quando as chuvas se intensificaram, as tropas fiéis ao Regime amargaram derrotas expressivas para o Movimento, que avançava decisivamente rumo à capital. A queda parecia inevitável. Contudo, dentro de uma noite tenebrosa, em que vinte e cinco pessoas morreram devido às enchentes na Zona Leste da Capital, o comandante Madobolsi Lampenfieber reuniu às pressas os membros do Comitê e apresentou o plano: Uma esquadrilha composta por cinco caças da força secreta bombardearia a refinaria Ômega 5, localizada no extremo Norte, simulando um ataque surpresa do País de Moslemk.
O revide teria que ser imediato e obrigaria o deslocamento de um grande contingente para a fronteira, abrindo uma enorme brecha para a ação do Movimento. Entretanto, apostava-se na destreza do Departamento de Propaganda para fazer o país deixar de lado os conflitos internos e unir forças contra o inimigo comum.
Os  líderes calcularam com facilidade que a guerra levaria a nação à ruína. Intuíram as reações da comunidade internacional e contabilizaram o saldo de mortos empilhando cadáveres matemáticos em seus cérebros, até chegarem ao preço exato de manter o poder. Debitada ao povo, a conta haveria de ser paga com sangue, lágrimas e arroubos de amor à pátria.
Durante a reunião, que atravessou a madrugada, algumas escaramuças foram geradas por Ricardo Strebsam, do Módulo Industrial, mas, ao final, todos concordaram com a fraude. O comandante Lampenfieber exultava. A unificação nacional e a desgraça da nação pela via da guerra, estavam a caminho.
Longe do palácio, na desafortunada Zona Leste, o dia amanheceu cor de chumbo, impregnado de uma umidade impura e sufocante. Famílias inconsoláveis carregavam seus mortos, unidas em pranto e revolta. As sete igrejas angélicas haviam sido destruídas pela enxurrada e não se encontrava um só sacerdote para as encomendas. Um casal ateu quis sepultar o filho pequeno, mas o único cemitério local estava completamente alagado. Muitos caixões, desprendidos da terra, boiavam num espetáculo funesto. Nas áreas mais duramente atingidas, desabrigados ocupavam o telhado das casas mais altas ansiando um socorro que nunca chegava. Pelas esquinas, capirotos cozinhavam serpentes aproveitando as águas turvas. Onde quer que houvesse gente, havia infortúnio, choro e ranger de dentes.
Pela tevê, veio a notícia do ataque aéreo à Ômega 5, atribuído ao País de Moslemk. O incêndio e a sucessivas explosões compunham uma visão desgraçadamente dantesca. Numa das imagens mais assustadoras, chamas imensas sugavam o céu através de uma caótica espiral de fumaça. Entre falhas de transmissão, uma repórter de voz estrídula relatava que dezenas de operários estavam desaparecidos e que trinta e cinco mortes já haviam sido confirmadas. Porém, antes que pudesse concluir a matéria, o comandante Madobolsi Lampenfieber entrou em cadeia nacional.
A declaração oficial de guerra levou cerca de duas horas. O porta-voz do Comitê, logo depois, conclamou a nação a se unir contra “o povo do mal”, propondo imediata coalizão com as forças dissidentes. Lacrimejante, terminou o discurso com a máxima: “Nenhum de nós pode nos proteger melhor que todos nós”.
Depois que os raios clarearam os céus, seis horas de aguaceiro foram suficientes para que o Rio Vérité desse prova de que iria romper a velha represa Gazapo. A já inundada Zona Leste estava a ponto de desaparecer sob as águas. Apavorados, os moradores empreenderam fuga afunilando-se pela única saída possível: o túnel de rocha da Avenida Pecorame. Apesar de tudo concorrer para a catástrofe, praticamente todos conseguiram transpor a passagem alagada. Houve, também, quem se mantivesse no bairro, a despeito do perigo. Eram saqueadores, loucos e gente que, não aceitando de modo algum a perda de seus bens, lutava para salvar fosse o que fosse.
Por volta de onze da noite, a represa Gazapo fendeu, à altura da terceira comporta. No desconcerto do bairro, alguns quilômetros abaixo, formou-se uma pequena multidão de rostos terrificados. Rostos que navegavam e rebocavam balsas improvisadas, apinhadas de indizíveis objetos. Rostos que carregavam trouxas sobre a cabeça. Rostos que se moviam nas águas escuras. Rostos que expressavam o anseio de escapar, levando consigo o produto de seus desesperados esforços. Vinte ou trinta já o estavam conseguindo, quando sobreveio o dilúvio. Uma onda carregada de destroços projetou-os violentamente pelo túnel. Em seu refluxo, a água levou consigo os rostos que jamais tornariam a ser vistos.
No alto da Avenida Pecorame, os atordoados sobreviventes foram pouco a pouco se reerguendo. Juntaram-se sob as agulhas da chuva, agarrando-se uns aos outros sem dizer palavra. Intermináveis minutos se passaram sob o temporal até que, num instante exato, seus olhos se voltaram para observar o estranho homem que surgia. Viram que ele trazia um candeeiro nas mãos muito finas e que seus pés descalços, de dedos muito compridos, pareciam mover-se acima da camada de água que cobria o asfalto. Era um sujeito alto, recurvado, com o topo da cabeça careca e, no resto, compridos cabelos, tão brancos quanto sua barba.
– Não temais! – gritou ele, levantando o candeeiro acima da calva – Os tormentos que hoje vedes, compõem os ciclos que o mestre vem ensinar.
            Como névoa que sai dos pântanos, a turba correu até o velho e quedou-se hipnotizada, repetindo:
– Papeh! Papeh! Papeh!  
– Ó mortos que vêm do Oriente – seguiu ele, no mesmo tom –  o vazio de vossas bolsas é como o oco de vossas almas. Vós que adorais o fácil tereis agora o longe e a miragem. É dado que por Gabriel Lazarillo sejais instruídos. Ouvi, pois, o velho poeta. Aquele que ri sobre os ossos do caminho. Aquele que ironiza tudo quanto é morto. Aquele que vos dará o grande tesouro, para comprardes a nova vida além do além.
        Papeh! Papeh! Papeh! – gritou novamente o coro fantasmagórico.
            Gabriel Lazarillo, com um gesto grave e lento, ergueu a mão esquálida, indicando o zênite. Ato contínuo, jatos cortaram o céu, perseguidos por baterias antiaéreas e uma sucessão de explosões foi espalhando pela noite o sofrido clamor das almas perdidas. Duas torres desabaram e “Papeh! Papeh! Papeh!”, gritou a turba. Fendas se formaram, vidas se apagaram, demônios revoaram e “Papeh! Papeh! Papeh!”, mais uma vez gritou a turba.   Com lentidão, o velho Lazarillo deslizou sua magreza em direção a um conjunto de edifícios condenados. Seguido de perto pelo que mais parecia uma legião de zumbis, adentrou a garagem do maior dos prédios e diante dos olhares magnetizados fez abrir pesadas portas de aço. Por trás delas, havia uma espécie de abrigo subterrâneo. Um complexo cientificamente desenvolvido, capaz de prover a sobrevivência de grupos humanos por longos períodos de confinamento.
– Designados – disse-lhes, com a voz retumbante – jamais ireis sucumbir à pobreza, pois se revelará para vós, a palavra que enriquece.
Erguendo o candeeiro acima da calva reluzente, Gabriel Lazarillo fez clarear uma parede, em cujo centro pendia um intrigante espelho poligonal. Refletindo algum ponto distante e não sabido, o centro do espelho mostrava o seguinte anagrama:
Nahtriheccunde
Gahinneverahtunin
Zehgessurklach
Zunnus.
            Ergueu-se um calor purpúreo entre as almas aturdidas. As enormes portas se fecharam, acentuando o incessante ruído de motores que percorria o ar. Gabriel Lazarillo acomodou cada um de seus seguidores em cadeiras que havia previamente disposto em semicírculo. Eram ao todo catorze pessoas, doze homens e duas mulheres. Falou-lhes sobre o círculo dos avarentos e dos pródigos. Depois, valendo-se de uma espécie de carrinho, serviu-lhes caldos quentes feitos à base de folhas alucinógenas. “Papeh! Papeh! Papeh!”, cantavam os pupilos entre uma colherada e outra.
Após o manjar, Lazarillo ordenou aos homens que dormissem e conduziu as mulheres através de secretos corredores até uma pequena capela de aspecto singular. A nave, revestida de sólida madeira, possuía entalhes ordinários representando orgias sexuais, homens a chocar pedras, mulheres com olhos nos seios e um enorme pássaro com cornos na cabeça, cujas asas envolviam a tudo desde a entrada até o santuário.
Entrelaçado por gestos enigmáticos, Lazarillo depôs o candeeiro sobre o altar, despiu-se e despiu as mulheres. Estendeu-as sobre uma gigantesca gravura medieval e entregou-se à sádica satisfação de suas perversões sexuais.
Na manhã seguinte, os doze homens despertaram ao mesmo tempo, com moedas de ouro sobre os olhos e sem saber quanto tempo havia decorrido desde o último instante de vigília. As mulheres, em avançada gestação, vertiam suor ao piso, com as mãos magras dispostas sobre os ventres dilatados e as bocas sonolentas a repetir: “Papeh! Papeh! Papeh!”.
– Muitos anos se passarão sem que vos seja permitida a luz do sol. – disse Lazarillo, chamando atenção de seus discípulos – Durante esse tempo, amparados pelo ar, pelo calor e pelo alimento da providência, recebereis da boca do poeta os ensinamentos para a reconstrução do mundo que ora se desintegra. A cada triênio, na noite do tributo, um homem será emasculado. Assim, o Grande Plano será cumprido sob a obediência da Escrita.
– Vá pro caralho! – gritou um dos homens, saído repentinamente do transe hipnótico – Vá pro caralho você e a puta que o pariu, seu velho filha-da-puta.
– Papeh! Papeh! Papeh! – gritaram os outros, pondo-se entre o mestre e o insurgente.
– Tá pensando que Lauro Doido vai entrar nessa, velho otário? Tu não me olha mais no olho, sacana. E nem vem com conversa fiada pra cima de mim. Vá capar o cão. Vá se foder. Vou sair dessa merda agora.
Lazarillo reagiu com um olhar de indescritível compaixão e nada fez, até que Lauro voltou ameaçando matá-lo, caso não abrisse as portas que bloqueavam a saída. Então, com os olhos fechados, Gabriel Lazarillo pôs os braços em cruz e levitou entoando o cântico do Dragão de Sidonay.
Lauro sentiu-se possuído por uma grande emoção e tombou genuflexo, gritando “Papeh! Papeh! Papeh!”, em total adoração ao mestre. Seria ele, entre os doze, o primeiro a ser castrado. Tornou-se depois disso o encarregado de controlar o ar, regular a temperatura e preparar a comida, afim de que Gabriel Lazarillo pudesse ocupar-se apenas em transmitir suas revelações. Durante a reclusão, as duas mulheres deram à luz vários natimortos, até que vieram as gêmeas. Ninguém jamais tornou a desafiar o velho poeta.

ZETH – MANUAL DA ALMA FEMININA
Organização Joey Schatten



“Há um espelho que me viu pela última vez,
Há uma porta que fechei até o fim do mundo.
Entre os livros da minha biblioteca (estou vendo-os)
Há algum que já nunca abrirei. “

Jorge Luis Borges




Prelúdio




            Depois da morte do Supremo, houve o grande êxodo dos anjos, quando as regiões celestiais se tornaram sete. Bruxos, profetas e padres dividiram a terra em milhares de religiões. Mil religiões buscavam a primeira potestade, cultuando o Vazio por acreditar na ressurreição do Supremo. Outras mil cultuavam a Plenitude e buscavam a harmonia com o Contrário. De resto, cada região disputava almas apenas para obter capital político e cumprir o jogo das profecias.
Sobre a terra, os homens foram submetidos a experiências sem igual. Como parte de um jogo mórbido onde não há regras, diversas almas foram experimentadas por anjos obsessivos. Sem a existência do Supremo, as faltas e os pecados não podiam mais ser estabelecidos com precisão e até mesmo os mais fiéis agiam como quem canta uma música sem conhecer-lhe a letra.
Desespero, ambição, prazer e obsessão perseguiram várias almas antes livres de tentações. Demônios e anjos moviam com dedos etéreos seus títeres sombrios, soldados da sorte insondável. No meio de toda turbulência, entretanto, sempre haveria alguém a quem o Destino iria permitir eternamente o reinício do jogo.
Bem ou mal, sorte ou azar, vida ou morte, paraísos ou infernos pareciam não dizer muita coisa a estes jogadores sem deus. No seio lascivo da boêmia, entretanto, um deles surpreenderia o próprio destino confundindo anjos e demônios indiferentemente. Seu nome era Kadmon.










I



                        Kadmon era um espírito da noite. Incendiário e apaixonado, ardia numa fome bandida pelo êxtase da conquista. Loção de barba, baba e poesia engendravam seus gestos e batimentos cardíacos. Ele mesmo nunca soube quando, nem de que modo. Mas o fato é que adquirira forte obsessão pelos íntimos mistérios da alma feminina. Lobo das estepes urbanas era, por assim dizer, um caçador solitário que surgia da névoa do nada para sangrar suas presas mais ou menos indefesas e falsas.
            Seus sentidos freqüentavam paraísos artificiais, em viagens cada vez mais intensas na ida e mais fatigantes na volta. Bar em bar, esbórnia em esbórnia, mantinha-se preso a sedas, corações e lingeries de tal arte, que era de pensá-lo uma espécie de vampiro.
Kadmon atava-se a lençóis na luz do dia, urdindo sonhos alucinados. Foi assim que, ainda exalando uísque, acordou de um pesadelo envolto em insetos de verão.
Tinha se visto só, a caminhar por uma rua estranhamente próxima e totalmente desconhecida. Não identificava uma esquina sequer. No entanto, com a calma habitual, tratou de pôr um passo após o outro, molhando a garganta aqui e ali.
Um gato vadio que errava pela rua arrastou seu olhar até uma obscura vitrine. “Voz de Tântalo Livraria” – o nome lavrado no vidro, com letras esguias e intrigantes fez seus olhos brilharem num acesso de curiosidade quase infantil. O aproximar-se foi inevitável. Como uma seta que encontra o alvo, seu olhar cravou-se no título que emergia do mar de livros que se derramava das prateleiras. As letras, que via tatuadas na capa de finíssimo couro, faziam-no girar dentro de si.
Era um anjo colhendo espíritos. Era um vento que desafiava o tempo. Era o tempo que destronava deuses. E era santo, semideus, rei e demônio. Era o próprio destino inexorável na correnteza do pleroma universal.
            Enquanto seu corpo febril inundava os lençóis e se contorcia, sua visão viajava no delírio do sono e decifrava na capa do livro inatingível o letreiro que envolvia o bálsamo de todas as suas inquietações. Era um livro não muito grande, nem parecia muito pesado. E estava lá, à sua frente, separado apenas pela fina vitrine do sonho.
Manual da Alma Feminina era o título. Por mais que se esforçasse, porém, não conseguia ler o nome do autor. A curiosidade e o desejo se apoderavam dele como uma febre transbordante.
Tomado de tremores e calafrios dirigiu-se à porta, que estava trancada. Mesmo com o pensamento fixo no livro, não pôde deixar de observar a solidez da madeira escura cheia de entalhes ordinários representando orgias, homens a chocar pedras, mulheres com olhos nos seios e um enorme pássaro com cornos na cabeça, cujas asas envolviam a tudo.
Recuou por um momento. Esvaziou a garrafa com a alma ardendo e lançou-a contra a vidraça. Ato contínuo, os estilhaços cravaram-se em seu corpo causando dores e agonias tão intensas que, neste instante, ele acordou. Banhado de suor, em meio aos lençóis revoltos, Kadmon percebeu que estava coberto por uma nuvem asquerosa de insetos fétidos e avermelhados. Procurou manter-se calmo. Levantou-se lentamente, tomou um copo d’água e só então deflagrou o inseticídio.




II



                        Os dias se passavam e o sonho não lhe saía da cabeça. Como poderia ele possuir o Manual da Alma Feminina e dominar, assim, todos os segredos do íntimo das mulheres? Precisaria, talvez, mergulhar novamente no profundo desvario do sono, para tentar capturar o livro. Mas, ainda que o conseguisse, de que forma transporia a fronteira do real, mantendo em seu poder o cobiçado objeto? Não havia resposta plausível para nenhuma de suas perguntas.
            Enquanto o tempo arrastava seu manto pastoso, as noites se sucediam na rotina dos bares incendiados de poesia, amores e perdições. Entre um trago e outro, Kadmon tentava desenhar nos guardanapos as formas que vira entalhadas na porta, mas as farras roubavam-lhe as imagens da memória.
Ora aflito, ora deprimido, consolava-se no leito de suas amantes mais belas e fúteis. Durante o dia, ocupava-se de antigas fotos da cidade, tentando em vão descobrir a estranha rua que o levara aos limites do êxtase e da privação.
Certa noite, porém, saiu de casa de um modo diferente. Mais preocupado e cauteloso do que de hábito, caminhou lento e observador. Evitou as bodegas de sempre e foi dar numa espelunca azulada, onde, apelando para sua lábia, aproximou-se Nádia.
            Flor doce e exótica, a garota trazia consigo um feixe de conversas enigmáticas, seios rijos, baseados e um perfume inebriante. Ao dançar, fazia com que suas roupas de tecidos diáfanos espelhassem o brilho lascivo de sua alma indômita.
Kadmon desejou-a com tanta intensidade que o suor brotou-lhe do peito e o tempo, então, abrandou o caminhar. O ritual de sedução destilava luxúria, contagiando vampiros, boêmios e moças.
A espeluca azulada agora era palco de um bailado dionisíaco. Certeiro, Kadmon tomou a garota pela cintura, comprimindo-a fortemente contra si. Respirou fundo para sorver o cheiro que manava de seu corpo e num gesto ousado, reclinou-a para sugar-lhe o seio. Foi quando viu, incrédulo, a tatuagem de um pássaro, igual ao que vira em sonho, entalhado na porta da livraria.
Nádia cobriu-se com as mãos e afastou-se com uma expressão aterrorizada. Houve muita confusão. Estróinas e putas voaram sobre Kadmon atacando-o a chutes, socos e bofetões. Tonteando em meio à turba enfurecida, ele pôde ver, ainda no ar, a garrafa que se projetou contra seu crânio. No exato momento do impacto, ele desmaiaria.













III



            A espelunca vazia recebia um vento úmido e tedioso. O assoalho de tábuas corridas repleto de garrafas, copos e baganas testemunhava um despertar lento e penoso. Virando-se com as costas para o chão, Kadmon ponderou que a pequena dor que sofria, não correspondia ao enorme hematoma em sua testa.
Passou algum tempo sem se mover, reconstituindo cuidadosamente o mosaico de suas lembranças. Quando por fim se levantou, a madrugada anunciava o novo dia, que por certo lhe seria doloroso e depressivo. Catou um cigarro no chão, acendeu-o e sorriu ao encontrar, na saída, uma garrafa de seu uísque favorito.
Na rua deserta, entornou bebida sobre o ferimento e seguiu sentindo-se melhor, a cada gole. Subitamente feliz, atravessava poças d’água arrastando os pés numa dança demente. A camisa em farrapos ainda exalava o perfume de Nádia, que ele inalava com um prazer quase masoquista.
            Esmou pelos becos como um náufrago à deriva. Não ouvia um som. Não via ninguém. Seus pensamentos desaguavam num oceano de reticências ou, talvez, estivesse conseguindo realmente não pensar em nada.
Virou a esquina olhando para o gato que o fitava do telhado. Como se fosse óbvio, estancou no meio da rua para sorver um imenso trago. Enxugou a boca com as costas das mãos e começou a se dar conta do local onde estava.
O gato, passando à sua frente, pousava macio no beiral de uma vitrine onde se lia em letras esguias e intrigantes: Voz de Tântalo Livraria. Kadmon aproximou-se da porta, com as sobrancelhas içadas. Iria empurrá-la, mas ela cedeu antes mesmo que a tocasse.
No interior da livraria, ecoavam sopros de flauta. Com passos silenciosos, deslocou-se em meio às estantes procurando o tão sonhado livro. Não o achou. Virou-se e decidiu seguir prédio adentro. Encontrou uma extensa escadaria, comprimida por agressivas paredes de pedra.
Logo de início pôde ver que, a certa altura, os degraus se inclinavam a ponto de fazê-lo acreditar que a escada se tornava perpendicular ao chão. Dominando o medo, decidiu descer até o fim. Sentindo-se fora de seu eixo, chegou a uma grande sala triangular, com uma espécie de piscina em forma de pentágono, ao centro. Sobre ela, suspensa por poderosas correntes, pairava completamente vazia uma gaiola de estilo grego.
            No vértice mais profundo da sala, Kadmon divisou o livro. Ele parecia flutuar sobre um monólito negro. Correu ansioso até ele, ferindo o ombro na parede rochosa. Deitou dedos ardentes sobre o objeto de seu desejo, mas ouviu de imediato um som ensurdecedor.
Virando-se rapidamente viu surgir na gaiola um pássaro como o que vira no entalhe da porta. O monólito desceu até o piso e o vértice se abriu revelando lentamente uma sala oval, onde homens nus de membros eretos chocavam pedras, atados à parede por pesados grilhões.
No centro, com um lampião pendendo sobre a cabeça, estava Nádia. Nua, mantinha-se sentada sobre os calcanhares. Seus olhos, de tão negros, pareciam não ter pupilas.
Kadmon sentiu-se, de súbito, livre de toda ansiedade. Alçou-a com uma das mãos e beijou-lhe a boca longamente. Houve um leve estremecimento e as paredes, então, começaram a sangrar pelas frestas pedregosas.
Desprendendo-se repentinamente de Nádia, Kadmon procurou na capa o nome do autor. Era o seu.
– É isso o que tanto desejas? – perguntou ela, exalando um hálito repugnante de mênstruo. O pássaro emitia sons terríveis e se debatia com tanta força que estava prestes a romper as grades da gaiola.
Vendo a condição absurda de tudo que acontecia ao seu redor, Kadmon apavorou-se. De um salto partiu em direção às escadas. Esgueirou-se pela borda da piscina e correu o mais que pôde.
Afoito, perdeu o equilíbrio e tombou deixando o livro escapar-lhe das mãos. Com o gosto amargo do medo impregnado na língua, sequer pensou recuperá-lo. Correu velozmente até à porta de saída, mas deparou-se novamente com Nádia. Segurando o livro entre as mãos, ela perguntou-lhe se não era aquilo o que mais desejava. Incontinenti, K empurrou-a e precipitou-se rua afora correndo como um louco.
De todos os cantos, centenas de gatos se projetavam em sua direção e algo como um terremoto abalava toda estrutura da rua. Prédios rangiam e paredes desabavam. O medo aumentava. Mais uma esquina e Kadmon alcançaria os bares tão conhecidos de sua intimidade. Bares que agora pareciam ser a sua única tábua de salvação.
Vendo o chão abrir-se à sua frente, tentou ainda um salto, mas suas forças o abandonaram. No ápice do desespero, sentiu seu grito se perder no vórtice do abismo. Então, para seus olhos, o mundo inteiro escureceu.






























IV








                        As luzes voltariam muito depois, trazendo, a princípio, formas estranhas e incompreensíveis. Sua visão custou a ajustar-se, mas ele reconheceu de pronto a voz doce e feminil, que em dado momento soou enfática:
– Eu ainda posso beber mais uma.
            Tudo estava claro. Kadmon despertava do seu estranho coma, em plena mesa de bar. Passou a mão pela testa procurando o hematoma, mas nada encontrou. A seu lado, a bela Nádia brindava com amigos, irradiando milhões de luzes com seu sorriso. Pareceu-lhe certo acreditar que tudo não passara de um sonho.
– Uma mineral e um uísque – pediu ele, tentando refazer-se por completo.
– Ah! Meu príncipe está vivo! – exclamou Nádia, com grande alegria – Pensávamos que você não ia acordar mais...
A noite atravessou risos, porres e poesia. Quando a madrugada exalou seu hálito frio, Kadmon tinha Nádia em seus braços. Partiram para o apartamento dela, mastigando gemidos temperados de calor e erotismo. Subiram as escadas, lado a lado, como se fossem antigos amantes.
Nádia girou a chave na porta e, com passos felinos, penetrou no apartamento. Deliciosamente terna, beijou Kadmon nos lábios e depois nos olhos, deixando pequenas marcas de batom.
            Ele, entorpecido, fechou a porta atrás de si, sem notar que na parte interior havia um sem-número de entalhes, que pareciam conter um emaranhado de lendas. De um jeito quase-sem-querer, Nádia deixou cair o vestido dando à luz seus seios fortes, que tinham um olhar agudo, devorador de homens.
Havia um cheiro a mais no ar que respiravam. Um odor marrom, morno e adocicado. As mãos, como ávidos nômades a percorrer a geografia dos corpos, transpiravam desejos inconfessos, ardentes e desmesurados.
O suor se derramou profusamente pelos os lençóis amarfanhados e a inércia conquistou um espaço, logo roubado pelo sono. Nádia esperou que Kadmon acordasse para apresentar-lhe as gêmeas Flávia e Liz. Do jeito mais carinhoso que pôde, explicou o imenso desejo de vê-lo na cama com as amigas.
Por sete dias e sete noites, Kadmon deitou-se com elas. Meticulosamente, desvendou seus corpos e mastigou suas palavras, nutrindo-se de pensamentos e sonhos. Durante este tempo, ficou sem ver a cidade. Sentia, vez ou outra, um cheiro de peixe que se emaranhava nos filamentos de ar salgado que penetravam pela janela.
Quando a segunda lua de julho atingiu seu ponto máximo no alto da noite, Kadmon pela primeira vez achou-se sozinho. Uma magreza que beirava a esqualidez havia se apoderado do seu corpo e uma série de perfurações no púbis compunham uma cicatriz perturbadora.
Caminhou pelo quarto exalando testosterona e encontrou várias peças de roupa, inclusive as suas, atiradas pelo chão. Em meio a elas, deu com um antigo livro intitulado Canção da Valáquia Beatrix e do Vóivoda Malescu.
As antigas iluminuras contidas na obra retratavam conciliábulos de feiticeiros e bruxas, onde o sexo e o canibalismo eram festejados com vinho e haxixe. Não chegou a ler o que continha, pois, erguendo os olhos como quem procura a origem de um som, deparou-se com um intrigante espelho poligonal.
No primeiro vértice do espelho havia um signo que emprestava ao reflexo do seu rosto um bronzeado de verão. No segundo, mirava-se pálido, outonal. No terceiro, que se quebrava e se recompunha infinitamente, via-se entre flores de primavera. O quarto e recurvado vértice atraiu sua atenção com um imã invisível. Nele, viu projetado sobre seu rosto um poema carregado de raios e trovões.
Refletindo algum ponto distante, o centro do espelho mostrava claramente o anagrama:
Nahtriheccunde
Gahinneverahtunin
Zehgessurklach
Zunnus.
– A alma feminina possui apenas duas faces. Mas, uma delas é mais que três...
            A voz de Nádia, vinda do fundo do quarto, soou tão estranha, que ele enregelou-se. Olhando-a mais agudamente que o costume, percebeu que os dois lados de seu rosto eram exatamente iguais. Sentiu-se como se despertasse de um longo transe. Nada fazia sentido. Não entendia porque estava ali.
Uma imensa confusão formou-se em sua mente. Tentou fechar-se em seus pensamentos e teria divagado mais uma centena de anos, não fosse o golpe frio das palavras de Nádia atingi-lo novamente:
– Compreender o manual, depende da ordem em que as páginas masculinas e femininas se sucedem, para cada leitor. Vamos pra cama, que eu te mostro meu pentagrama – disse Nádia, estendendo-lhe o braço com ar debochado.
Kadmon tentou recusar, mas faltou-lhe jeito. Deitado ao lado de Nádia, começou a sentir as carícias das gêmeas que o beijavam na nuca e nos ombros. Assim, sem vê-las, passou a tocá-las intimamente até virar-se e perceber que sangravam pelos mamilos.
Assustado, levantou-se de um salto e tratou de se vestir. As três mulheres desataram em gargalhas estrepitosas, que ecoavam em sua cabeça como as badaladas de um sino. Sem dizer palavra, precipitou-se pela porta, desceu as escadas em desespero e saiu do prédio sem saber aonde ir. De tanta fraqueza, desequilibrava-se a todo instante. Quando por fim faltaram-lhe as pernas, tombou com a face voltada para cima e viu o céu avermelhar-se e escurecer completamente.
            Em seu sono comatoso, Kadmon estava livre e bem. Sonhava-se um príncipe a bailar galante no salão dos mais desejados corações femininos. A cada passo, a cada giro, um novo amor surgia e fortalecia o seu poder de encantar. Via os dias e as noites passarem com incrível velocidade e, de tantas seduções e conquistas, passou a viver num mundo de mimos, cercado de luxo e luxúria. Muitas e muitas mulheres o visitavam em busca de romance, da voracidade de seu sexo, de conselhos e até de palavras de consolo. Kadmon atendia a todas, quase sempre as satisfazendo com egoísmo camuflado em falsa generosidade. Contudo, não lhe atormentava nenhuma culpa e sua vida parecia-lhe doce e harmônica.
            Seu grande medo, porém, estava no fato de que alguém pudesse roubar-lhe o manual. Ainda que o guardasse a sete chaves, era obrigado a cumprir o ritual de ler duas páginas ímpares, nos dias femininos e uma página par, nos dias que têm barba, para que não perdesse os conhecimentos. Assim, todas as vezes que adentrava o local construído para abrigar o livro, era tomado de uma extrema ansiedade, que o fazia suar debaixo dos cabelos. Certa feita, ao chegar na última página ímpar do livro – de onde é  necessário retornar ao início fazendo a leitura em voz alta e subtraindo os substantivos –,  uma gota de suor fétido como enxofre escorreu-lhe pela testa.
            Ao tocar o livro, o pingo se espalhou tingindo de vermelho o alto da página, onde se lia “Gazel da Faca de Sal”. Uma fumaça tóxica de odor insuportável começou a sair das páginas femininas do Manual, que ardeu numa enorme chama, ateando fogo ao seu corpo. Contorcendo-se de dor, ele emitiu urros pavorosos e cobriu a face com as mãos, até que num supremo esforço abriu os olhos para o seu anjo.









































V




                        Novamente as luzes embaçadas de mais um despertar confuso e doloroso foram dando contorno à sua possível realidade. Do leito onde se encontrava, pôde divisar algum movimento de médicos e enfermeiras. Percebeu agulhas em suas veias e sentiu a desagradável sensação causada por um tubo em seu nariz.
Depois de algum tempo de letargia, moveu a cabeça a fim de olhar para os lados e, com inexprimível esforço conseguiu sentar-se. As vozes foram chegando lentamente, amarradas a outros sons e transportadas pelo ar gelado, carregado de éter.
Duas enfermeiras se aproximaram de um leito próximo, onde um homem muito gordo recebia oxigênio e tinha os batimentos cardíacos monitorados. Mesmo atordoado, Kadmon reconheceu os rostos de Flávia e Liz.
Quando Liz desligou os aparelhos, o homem no leito começou a se agitar em convulsões tão violentas que faziam ranger o móvel de ferro. Flávia desabotoou o vestido e colocou o seio esquerdo próximo à boca do doente, fazendo-o engasgar-se com o sangue que esguichava em profusão.
Kadmon desvencilhou-se dos tubos e agulhas com um gesto rápido e tentou fugir, mas foi placidamente detido por um médico que com muito jeito cuidou de acalmá-lo. Kadmon tentou contar-lhe do paciente ao lado, mas, ao virar-se, percebeu que tudo estava em ordem.
Confuso e sem saber o que falar viu F e L saírem tranqüilamente do recinto enquanto o médico falava de sua transferência para uma enfermaria comum, aos cuidados de uma médica que definira como nova, mas muito competente.
            O trajeto para o novo leito foi feito por meio de um atendente muito velho, que o levou em cadeira de rodas. Os corredores eram tão iluminados que Kadmon mal podia manter os olhos abertos. As lembranças do apartamento de Nádia vinham em fragmentos a um tempo gostosos e aterrorizantes, de tal arte que não conseguia mais distinguir o prazer do medo que sentira.
Instalado sozinho numa enfermaria repleta de leitos vazios, Kadmon sentiu-se seguro para relaxar e dormir. Quando despertou, alongou-se preguiçosamente e sentiu que as forças lentamente voltavam a animar-lhe o corpo. Indagava de si mesmo até que ponto o que lhe parecia lembrança era real. Neste momento, viu aproximar-se uma mulher de curvas sinuosas, vestida como se vestem os médicos. De cabelos presos e com a cabeça baixa a ler o que lhe pareceu um prontuário, só deixou ver-lhe o rosto assim que se postou ao seu lado, indagando.
– Sr. Kadmon, Adam Kadmon... é isto?
            Kadmon assentiu com a cabeça, tomado de mutismo ao ver na médica o rosto de Nádia.
– Meu nome é Nádia Malescu... Doutora Nádia. Espero que o senhor esteja se sentindo bem e que possa falar – disse ela, com um sorriso pueril pendendo dos lábios.
– Sim, acho que posso e... bem, já me sinto melhor... ou pelo menos sinto, já que não sei se sentia antes e nem compreendo o que me aconteceu. Tive sonhos estranhos e ...
– Isso é muito normal, para quem esteve em coma. Talvez falte-lhe memória de algumas coisas e é provável que as medicações, bem como seu próprio estado lhe tragam alguma confusão mental...
– Mas o que houve, por que eu...
– Consta da ocorrência que o senhor foi encontrado desacordado nas ruínas de um antigo casarão da cidade velha, na manhã do dia 1º de novembro...
– Ruínas? E a livraria e o teu apartamento e as gêmeas?
– Não entendo o quê o senhor está falando, provavelmente...
– Provavelmente, o caralho – gritou Kadmon, enfurecendo.
            A médica calou-se, recuando alguns passos enquanto ele desaguava um rio de impropérios. Com um gesto sutil ela chamou um musculoso atendente que imobilizou Kadmon, para que duas enfermeiras gêmeas lhe administrassem um sedativo. Mais uma vez ele mergulhou na escuridão.
– Sr. Kadmon... Sente-se bem? Sr. Kadmon?
            A voz suave fez com que ele despertasse num clima de tranqüilidade celestial. Estava descansado e, de fato, sentia-se muitíssimo bem. Após conversas bastante sinceras e amenas com a Dra. Nádia, acabou por aceitar como realidade, o raciocínio lógico que ela lhe tecera em torno dos fatos narrados por ele.
Como parecesse bem física e mentalmente, a doutora avisou-lhe da alta. Sem esconder seu interesse e novamente nutrido de sua habitual verve, Kadmon confessou à médica que queria vê-la novamente, “em circunstâncias mais agradáveis”. Mais ou menos tímida, ela concordou em dar a ele o número de seu telefone.
            Indo a seu encontro, poucos dias após deixar o hospital, Kadmon transpirava desejos. Incendiário e apaixonado, ardia numa fome bandida pelo êxtase da conquista. Loção de barba, baba e poesia engendravam seus gestos e batimentos cardíacos.
Vez por outra tocava a mão sobre o bolso do casaco onde abrigava sua garrafa de uísque. Andando rapidamente no bairro que tão bem conhecia, surpreendeu-se ao se ver de súbito em uma rua que lhe era totalmente estranha. Não identificava um prédio, uma casa, uma esquina sequer.
De todo modo, não se amedrontou. Estava certo de que seus antigos devaneios estavam superados e não voltariam jamais. Tratou de pôr um passo após o outro, molhando a garganta aqui e ali. Então, um gato vadio, que errava pela rua, chamou repentinamente a sua atenção, como o fazem as belas mulheres, e arrastou seu olhar agudo até uma obscura vitrine.



















DE VOLTA À MÚSICA


“Imerge no rio aquele que a água ama”

William Blake




            Anos depois da marcha de Policarpo e às vésperas das eleições que, apesar de suspeitas, prometiam colocar o país no caminho da democracia, Zeth desembarcou no aeroporto internacional, sob uma avalanche de disparos fotográficos. Exata, distribuiu autógrafos, posou ao lado dos fãs e atendeu a imprensa, evitando elegantemente comentar o “Carnaval da Liberdade”, promovido pelo governo transitório.
Seguiu em limusine para o suntuoso Hotel Abraxas, atravessando lentamente as áreas de comícios. De volta ao País após longo exílio, sentia a alma leve e se divertia com a colorida agitação das ruas. Foi instalada numa suíte comparável às melhores que conhecera mundo afora e, desvendando a sacada, calculou o quanto a revolução fizera bem à economia do País.
Acomodada no conforto tépido da banheira requintada, Zeth acendeu delicadamente um pequeno baseado. Seus olhos curiosos fitavam os fios de fumaça, que subiam em entrelaçamentos etéreos, quando ouviu telefone tocar. Frida e Lívia informavam ter assunto de urgência. Pensando tratar-se da supervalorização de mais um problema corriqueiro, Zeth recebeu-as com a mesma tranqüilidade com que hidratava a pele.
– Um homem nos deu isso, quando desembarcamos no aeroporto. – disse-lhe Frida, entregando-lhe um envelope.
– Ele quer que você o encontre, hoje à noite. – concluiu Lívia, recebendo um olhar reprovador da irmã.
Dentro do invólucro, além de uma mecha de seu próprio cabelo, Zeth encontrou uma caixa de fósforos com a marca do bar onde começara a carreira, um DVD e uma fotografia, cuja existência jamais imaginara. Estampado com extrema precisão de foco, seu rosto, alguns anos mais jovem, exibia um olhar de delicada candura. Havia naquela imagem uma expressão leve, de extraordinária pureza, não obstante seus lábios estarem cobertos de sêmen.
Zeth rompeu a inércia causada pela surpresa, para tentar compreender o que aquilo significava. Tomou o disco nas mãos e tratou de enfiá-lo rapidamente no computador. Bastaram poucos segundos para perceber o quanto havia sido espionada. Uma seqüência incrivelmente acelerada mostrava inúmeras imagens do interior de seu antigo apartamento. O furioso trash metal que servia de trilha sonora emprestava à gravação ares de videoclipe.
Ininterruptamente, ela aparecia entrando, saindo, bebendo, dormindo, acordando, tomando banho, fazendo sexo, recebendo amigos, cantando, se drogando, desmaiando, chorando, sorrindo, comendo e tudo mais que pudesse ter feito naquele local, ao longo de um considerável período.
Com o fim da música, a tela escureceu. Porém, antes que pudesse concatenar os fatos, Zeth veria novas imagens surgirem a partir do centro do vídeo, agora, em tempo real. Entrecortada de ruídos, a seqüência ressuscitava lembranças, que ela, a muito custo, sepultara. Um medo gelado apertou-lhe o estômago. Sabia, enfim, do que se tratava. Pausou o vídeo abruptamente, penteou os cabelos com os dedos e pediu às gêmeas que lhe preparassem uma bebida.
– A gente viu tudo no caminho – entregou Lívia.
– O lance foi muito estranho – tratou de explicar Frida, constrangida ao máximo –  O cara era de meter medo. Você sabe que eu sinto, quando a coisa não é boa. Foi um pressentimento. A gente achou melhor...
– Esqueça. Alguém mais viu isso?
– Não, ninguém.
Depois de acenderem vaporosos cigarros, as três se recostaram para assistir ao restante da gravação. A despeito dá má qualidade da imagem e do som, tudo lembrava uma produção cinematográfica.
Os relâmpagos clareavam o ambiente com irregular intermitência. Zeth, Miro, Candô e Chicó reuniam-se à mesa. Entre explosivos e armas de diversos calibres, anotavam detalhes e aferiam minúcias. Um jornal, cuja manchete destacava o ataque à Refinaria Ômega 5, jazia nas proximidades.
Quando Zeth e seus companheiros acertaram os relógios e deixaram o apartamento, lampejos ainda mais fortes ultrapassavam as janelas. Algumas lâmpadas estouraram, fazendo  a iluminação cair pela metade, pouco antes de um homem muito bem vestido adentrar a sala. Irromperam, então, estrondos tão fortes que sobrepujaram os trovões. O homem bem vestido sobressaltava-se e arrumava a gravata, a cada explosão que ouvia. Depois de muito revirar, sem dar mostras de ter encontrado o que procurava, o sujeito organizou algumas cadeiras em semicírculo e ficou diante delas ensaiando gestos e falas.
Demorou muito até que Zeth e seus companheiros abrissem a porta. Indiferentes à atmosfera angustiante, pareciam bem felizes. Mas, de pronto, o susto tirou-lhes a alegria e a voz. O homem bem vestido rapidamente fez com que eles se desarmassem e ordenou-lhes que sentassem, nas cadeiras que havia arrumado. Sem qualquer delonga, revelou a que viera:
– Vocês estão com algo que me pertence.
– De novo, não... – deixou escapar Chicó.
– De novo, sim, meu caro. Não me interessa que fim vocês deram naquele traidor. Só quero o que é meu. E logo. Não estou disposto a perder a paciência.
– Mas o que é que você...
– A valise e tudo que há dentro dela é propriedade de Luigi Garbini, minha cara.
– As armas estão aqui. A maleta com as fotos está lá no quarto. É só isso? – pergunta Zeth, querendo resolver a situação. Garbini lança no ar um riso debochado e faz a garota sentir-se ridiculamente ingênua.
– Aposto que vocês nem fazem idéia! Quero a valise, porra. Cadê a valise?
– Calma. Eu pego a valise e fica tudo bem, certo?
– Antes disso – disse Garbini, jogando sobre Zeth uma fita adesiva – prenda todos os seus amiguinhos. Se alguém tentar qualquer gracinha, é bala na certa.
Depois de verificar que os homens estavam bem presos, Garbini acompanhou Zeth até o quarto. De um fundo falso, sob o armário, ela retirou a maleta que ele tanto desejava. Os dois voltavam à sala, quando um enorme estrondo ecoou. Arrumando a gravata, Garbini se recompôs do susto e ordenou a Zeth que se deitasse à sua frente, com o rosto para o chão. Sentou-se sobre ela e rasgou sofregamente o forro da valise para, em seguida, extasiar-se com o inigualável brilho das gemas perfeitas.
– Agora que você já tem o que quer, dá pra soltar a gente, não é mai bróder? – falou Candô – A coisa tá ficando feia. Pode até cair bomba aqui, xará...
– Não se preocupe com o bombardeio, meu caro. Sou eu quem vai matá-los. Só que, antes, um pouco de diversão. Afinal, o que é a vida, senão uma grande festa?
Movendo-se ágil, Garbini arrancou a calcinha de Zeth e afastou-lhe as pernas, no intuito de estuprá-la. Miro parecia estar à beira de um colapso e se agitava como um epiléptico. Candô implorava para que o homem os deixasse e tentava dissimular os movimentos que fazia para romper a fita com seu pequeno punhal. Chicó, completamente acovardado, chorava copiosamente e Zeth, sentindo o frio metálico da arma contra seu pescoço, não conseguia dizer palavra.
Um minuto depois de penetrá-la, Garbini sentiu algo diferente do calor embriagante de sua vulva: a lâmina glacial do punhal de Candô a cravara-se em seu pescoço.
            – Lonã ati Exu Odê ianlé rê ó! – Murmurou Candô, cuspindo de lado. Ato contínuo, retirou o punhal, limpou-o nas roupas do morto e libertou os parceiros. Miro partiu para cima de Garbini e pisou várias vezes em seu rosto até transformá-lo numa massa disforme. Zeth estava em choque. Chicó, não suportando o ato de Miro, intercedeu abruptamente. Os dois trocaram empurrões e Candô, abrindo os braços, num gesto típico de quem pede calma, falou:
– Que é isso, mai bróder, pára com isso, rapaz...
– Esse cara tá louco, Candô – diz Miro apontando a pistola para Chicó.
– Louco tá é você, compadre. Daqui a pouco tu vai querer acabar com a gente. Olha o jeito que tá indo porra, tá pirado?
– Baixa a arma compadre. – diz Candô para Chicó, com a voz mansa –  Baixa a arma que a gente se acerta. O Miro vai baixar também...
            Chicó fixou um olhar interrogativo em Candô e não percebeu quando Miro disparou. Antes de atingir o chão, já estava morto. Os inúmeros disparos que se seguiram foram feitos em segundos, mas deixaram no ar o tilintar interminável das cápsulas de metal contra o granito do piso. Zeth ficou entre elas, chorando incontáveis minutos e sendo lentamente encharcada pelo sangue que fluía dos corpos.
            Era o fim da gravação e Zeth estava envolta em zumbis apodrecidos. Sua mente enovelava, quando o fio do pensamento foi rompido pelas gêmeas.
– Esse endereço quer dizer algo pra você Zeth? – perguntou uma.
– Pense bem, irmãzinha. Isso pode ajudar. – recomendou a outra.
            Com o ar felino, aparentando dominar a situação, Zeth virou-se para as gêmeas e disse:
– Meninas, vamos à praia!
            Auxiliadas pelos seguranças, deixaram o Hotel pela porta dos fundos evitando fãs e repórteres. Frida e Lívia cheiravam cocaína em uma cigarreira de prata e riam de tudo quanto viam pelas rua. Zeth sabia que as gêmeas estariam preparadas para o que fosse e isso lhe proporcionava certa tranqüilidade.
            Em toda praia, aquele lugar com certeza era o mais quente. O relógio rondava a meia-noite e ondas térmicas esvoaçavam os vestidos, quando as três sentaram com toda graça na mesa mais próxima ao balcão. Sem demora, foram gentilmente servidas por um garçom baixinho, de perscrutadores olhos vesgos.
O show do Urublues estava para começar. Um homem de estatura mediana, vestido em elegante smoking, chegou devagar e postou-se à frente de Zeth, com um cigarro entre os dedos.
– Vo-você te-tem fó-fósforos? O-os meus a-acabaram – gaguejou ele.
– Golinho? – perguntou Zeth, arqueando a rubra sobrancelha.
– Meu no-nome é Jeo-Jeoffrey de Averno – tornou ele, aprumando-se, a exigir respeito – Precisamos co-conversar. Foi bom que-que vo-você re-recebeu me-meu recado.
            Com gestos elegantes, o gago janota conduziu as mulheres até o escritório de onde comandava o Overdose. Deixou as gêmeas numa ante-sala de piso xadrez, em companhia de um truculento segurança, e isolou-se com Zeth.
A conversa beirava o interminável, devido à extrema gagueira de Jeoffrey. Entrecortando as palavras tanto mais, quanto ficava ansioso, ele explicou com uma declaração de voyerismo sincero, o fato de ter instalado a câmera no apartamento de Zeth. Realçou enfaticamente o perigo que ela correria, caso a gravação caísse em mãos erradas e se calou deixando a cantora avaliar mentalmente a situação. Depois, sem esconder o orgulho, contou como assassinou Maurinho e se aliou ao que restara da Organização, para se tornar o bem-sucedido dono da mais freqüentada casa de espetáculos de Murghab. Rodeou a mesa pigarreando com repulsiva arrogância e colocou-se atrás da moça, agarrando-se subitamente a ela, que permaneceu impassível. Gaguejou, gaguejou e, por fim, tomando-lhe o rosto entre as mãos, explicou entre embargado e cínico o desespero de ter enormes dívidas de jogo, que poderiam lhe tirar não só o Overdose, mas própria vida.
Zeth, sem qualquer motivo, lembrou-se de seu pai procurando um preservativo no quarto da empregada. Acendeu um cigarro e ficou alguns segundos sem nada dizer. Mantinha os olhos fixos nos fios de fumaça que subiam em entrelaçamentos etéreos. Ao perguntar sobre o quê ela poderia fazer, diante de tais circunstâncias, Jeoffrey lhe respondeu, sem gaguejar:
– Eu tenho um plano.


































DEPOIS DE TUDO

            Sempre acreditei que o término de um livro traz mais dúvidas que esclarecimentos. Se assim for, talvez isso ratifique que afirmação de ignorância é sabedoria e sirva, afinal, para alguma coisa. De qualquer forma, quando a capa se fecha naquele quase-sem-som, encerrando a leitura em escuros papéis, o livro é logo abandonado pelas mãos que antes, tão interessadamente, ajudaram a desnudar a intimidade orgânica de sua anatomia.
Imagino, no exato momento desta separação,  o olhar que o leitor constrói em direção aos seus pensamentos, evocando as lembranças de sua leitura acabada. O livro-lido será, a partir de então, um feixe de impressões holográficas, presas à memória por cordões tão frágeis quanto aqueles sonhos que às vezes amanhecem embaçando nossos olhos. Entretanto, a cumplicidade quase criminosa da leitura que o autor semeou em sua obra (ávido de colheitas),   há de produzir frutos para tentar a alma a novas e instigantes incursões. Assim, ao tempo que esta leitura matreira definha, outra talvez mais tinhosa esteja nascendo ou preparando-se em conluios. É preciso agir para driblar a peste.
À leitura esquecida que se desfaz no esquife do livro, ocorre o mesmo que ao escritor, quando este humanamente morre. Tudo que sobra são vagas impressões. Mas o que seria da vida sem impressões? Não é acaso a vida uma ligeira impressão da eternidade? A quem pertencem as impressões? Não sei. Não cogito. Mas cheguei a maquinar:
Que impressões a leitura deste livro terá de nós? Que pensará ela em seu sistema de códigos infinitos, rodeada de luas e anelada de combinações fantásticas? Nada, creio eu. Quando o livro é sepultado na prateleira, ela provavelmente já não pensa.
– Qual a cor dos olhos de Zeth? – gritaria ela se pensasse, se sonhasse ou se quisesse de volta o tormento de seu atribulado ofício. Mas ela não o quer e preferirá fingir uma reclusão digna até que outras mãos e olhos vorazes a tomem por sedutora.
Ainda que os conhecidos olhos, que a desnudaram e abandonaram por primeiro, voltassem a pousar suas inquietações sobre a história, a leitura não lhes permitiria o prazer original dos primeiros encontros e trataria de livrar-se com seus terríveis ardis.
É preciso permitir que as impressões se façam e desfaçam nas paredes espelhadas do pensamento e esperar que os vermes do tempo devorem até a última lembrança, para que leitura possa sonhar em dar-se novamente.
De todo jeito, não se deve desesperar. Nunca. Qualquer leitura é dada ao desafio de existir e livremente escolhe os seus amantes, assim como nossos destinos nos escolhem.
Enquanto o autor trafica suas metáforas sinistras nas vielas alucinógenas da escrita, o leitor se esbalda e se arrisca em companhia de sua leitura mais nova e embriagante. Seja como for, todo livro tem o seu veneno que vicia.
O imaginário recriado pelo alfabeto há de ser o supremo deleite dos neófitos, a alegria orgástica dos viciados, a confusão senil dos teóricos e o terror apoteótico dos incautos. Seja a leitura a materialização do perigo, a certeza de bem e de mal, a descoberta de que há mais por descobrir e o sagrado risco de não se poder voltar.
Presumidamente, O Plano se conclui. Mais uma leitura se vai. Os perigos até aqui foram aceitáveis, mas a lucidez de quem escreve e de quem lê é o hímen de Pandora à mercê de males de todos os tamanhos. Por isso, neste momento em que o fechar da capa se aproxima, proponho ao leitor que clamemos em silêncio, por estas conturbadas páginas mortas: requiem aeternam dona eis!


MC

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Um Poema ao Acaso

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