TEMPORAL















...e todos os altos montes que havia debaixo do céu foram cobertos.

Genesis 7:19











































ORELHA



NO MEIO DA PEDRA TINHA UM CAMINHO


         Ao publicar meu primeiro livro, intitulado “Anjo na fauna & outros poemas”, assinava com o nome de Marcello Silveira e vagava entre perigos e delícias, inalando o embriagante perfume das flores boêmias. O “Anjo” foi um retrato desse perfume. Resultado de uma odisséia noturna, onde eu, pequeno anti-herói beatnik-tupiniquim, investigava voluptuosamente os mistérios ocultos sob as pétalas do álcool.           
         Agora, Marcello Chalvinski, experimento olhares mais agudos sobre a complexidade das emoções humanas. Os poemas deste “Temporal”, à luz de Deus e da filosofia de que se vale a mecânica quântica, revelam uma sobreposição de significados em si e, indo além, sobrepõem-se também a outros poemas, certamente mais famosos, juntando no mesmo tempo-espaço, com a força da probabilística, materialismo e espiritualismo; pragmatismo e paixão; ondas e partículas.
         Talvez, o pequeno anti-herói tenha se tornado mais humano e sensível. Talvez o beatnik-tupiniquim, quase quarentão, esteja agora mais próximo da maturidade poética. Afinal, nem todo mundo é Rimbaud. O fato, entretanto, é que preferindo “a dor à morte e o inferno ao nada”, entreguei-me com todos os meus eus e ais à busca de uma poesia capaz de evocar emoções a quantos tiverem ousadia ou paciência de lê-la, em suas vertiginosas algaravias.
         Não faltará, neste livro, o compartilhar visões insólitas. Não faltará a melodia quase inaudível que se oculta entre os sons da chuva. Não faltará o desejo do atemporal, nem a brevidade passional com que lampejam os raios. Eis que trago comigo, sob eterna tempestade, a força avassaladora dessa torrente que se convulsiona nas ravinas do tempo. Um pouco de tragédia. Um tanto de farsa. Todas as paixões. Muito de energia. “No meio do caminho tinha uma pedra”. No meio da pedra tinha um caminho. Resoluto, cortei caminho e atirei a pedra. Ela era uma pedra de trovão.


Marcello Chalvinski


























CANTO I


flores do ar
(breviário vaporífero)






ondas, partículas
& a porção da nuvem
que chove primeiro






















a educação pela chuva



para aprender com a chuva
em sua didática translúcida
de agulhas
é preciso fixar os olhos
& transfixar as alturas

a chuva ensina
liquidez vertical em si
ilogismos em sol
iluminuras

iluminura-se
(lições de chuva)
convectiva
ácida
orográfica
pura

habilita à rigidez dos telhados
antologias de sedução
umidade
energia
estratégia
textura
estratagemas de nuvens
enciclopédicas loucuras
&
segredos
de oxidação
sabe a chuva
hidrostática
canivetes
limpidez & fundura

de saber-se rala
sabe também
o fazer-se impura
queda & ascensão
hastes & pétalas
moedas
lixiviação

sabe a chuva
malícia & espelhoságua
sabe furacão

tem a faculdade inacessível do dilúvio
& a universidade aberta da paixão
leciona pluviometria
oxigênio
delícias
hidrogênio
& lasciva precipitação

para aprender com a chuva
em sua constante mutação
é preciso conhecer
o seu estar para acupuntura
a sua transparente aventura
& deixar-se levar
(sem amargura)
pelos vendavais do coração





emanação




o perfume da rosa-dos-ventos
atravessou o mar de kara
&
era pacífico
índico
blues
mas
em secretas variações semânticas
provocou trovões
& delirantes
aliterações atlânticas

o perfume da rosa-dos-ventos
libertando-se de todos os mapas
ilusões & aedos
fez saltar o peixe luxuoso do medo
& congelou entre seus dedos
um canto luminoso
de sereias à meia-voz

melhor
(para nós)
acender a percepção acrimântica

respirar
não é um mar de ross




vertigem fixa




prisioneiro de um ar
feito de vidro
sonhei o mar
esquecido
a retorcer engrenagens
esquecidas
na maquinaria
convectiva da chuva

cerquei com palavras
(atrevido)
um pedaço da tempestade
na verdade
de um tamanho sofrido

milhões de relógios anidros
na contingência das vogais
oxidavam pardais
semi-breves & ais
na pauta de mais
um cântico chovido

por um instante
(sentido)
deu pra ver bipartido
o coração do relâmpago
parafusado às consoantes
















ab imo pectore




ar
é o que nos fixa

(no abismo do peito)

ar
é o que a música sustém

ar
é o que contém

contém o que respiras
& o que não entregas
a ninguém

ar
contém valsa
viola & vintém

ar
contém a vontade
mas arrepios não contém

ar
contém a verdade
& os silêncios
também

ar
é o que nos solta
&
em nada se detém

ar
é aragem
é brisa
é procela

ar
é vento
quando se rebela

ar
é o que mistura
o fogo do poema
com o perfume
do corpo dela

ar
é a mulher linda
com seus pequenos
seios
& gingados
a desfazer
nossos telhados







minha linda amante das nuvens

Breu é quando tu te afastas ou dizes
Que viajas...
Hilda Hilst


minha linda
amante das nuvens
move-se em perfumes
& não me ama

perdida no tempo
rara & feita
de uma esperteza dos céus
rarefaz-me

& esbelta
trama, ri, espreita
a controlar gestos
por entre véus

sei que caça seu amor pelos ares
(quem sabe em todos os lugares)

bem perto da noite
que me funde a seu breu

manipula o vento
com os dedos lisos
a quem nada escapa

nem o pássaro
que passa

















CANTO II
verticalidades







incertezas, emoções
& paradoxos necessários





















primeira canção torrencial




chove sobre a terra crua
esta chuva bruta
de aspereza nua
chove entortando lírios
chove coalhando telhados
chove enferrujando trilhos

:

chove sobre o riso
esta chuva impura
chove sobre o pranto
(outra chuva dura)
chove a todo instante
essa que é vil & perfurante

chove nos faróis congelados
chove nos corações atropelados
chove no asfalto escaldante

chove sobre os carros
chove sobre a face
chove sobre o barro
chove sobre a grama
(como se não bastasse)
essa que desama
essa que chove
a fazer lama

chove nos alagados
chove torturante
chove pelos prados
chuva espessa
que espeta hastes
por todos os lados

chove desmantelo
chove transparente
chove lancinante



chove

chuva caudalosa & larval
chove vida
chove carnaval

ou
apenas chove
sem
bem
nem
mal

em si
a chuva
chove

em si
a chuva
se basta



canção do rei de espadas




singrar o mar
ofício de cordas
& nós

singrar o mar
exercício de músculos
& velas

singrar o mar
canção feito alma de peixe
mastros que cortam o ar

ainda que me desleixe
singrar o mar!

uma singradura
feita de vento & ventura
feita de sal
& de suor que não dura

singrar o mar
oração repleta de bússolas
amarras livres
carnaval
agridoçura

singrar o mar
velha alma austral
magnetismo hiperbóreo
flor celícola da aventura
hei de singrar o mar
minha amada
& irei
muito além da verve
com meus versos
de argonauta
com meu espírito
titânico
com meu olhar
cheio de febre

hei de singrar o mar
minha amada
irei buscar
o que me desvele
orquídeas afrodisíacas
& amapolas
do fim do mundo

hei de singrar o mar
minha amada
& subirei com meu batel
as mais altas nuvens do céu

irei buscar
os cantos dionisíacos
& as impressões
do azul profundo

hei de singrar o mar
minha amada
pois navegar é preciso
desde que o mundo
é mundo













sedução



dos amores
ainda uma vez o pensamento

de amor à vista
viés de olhos molhados
sobre a vida em revista

é sábado
& a chuva
(imprevista)
veste-se de amores
fantasias líquidas urdidas
com os fios dos temporais
que me consomem

é sábado
ainda
como se ainda
a alma fosse límpida

nãonada a esperar

vem
vamos passear
no jardim das delícias
vem breve & vem sem medo

de nós nada restará
a não ser a verdade do poema




oceanus procellarum


1

a tempestade
chegou vestida de negro

na exatidão mais que cruel
de seus cabelos
trouxe consigo o vento
& agitou inteiro
um mar
de desmantelos

na vaga
que contra outra
vaga se chocava
compunha-se destruidora
a cadência com que andava

deusa vestal
atenta a deuses ilusórios
a tempestade exibia
nos  olhos
o lampejo abissal
de seus raios



2

a tempestade se foi
vestida de negro

alçou a noite insana


& eu
em desespero
a verbo
a fogo
a blues
nu


gritava
sob a lua:

baby junk
where are you?














daguerreotipia 


no início
E branco

água
lua
prata

(torrente
logo depois)

precipitação de vogais
noite sem automóveis
ou poemas de rimbaud

de mãos dadas
a passos molhados
& desejos acesos
perdíamos estrelas
& ganhávamos clarões

lábios de carmim & álcool
mamilos eriçados...
alquimia de sussurros
apelos & trovões

tomamos o centro
da praça sublunar
(corpos leves abraçados)
sob o peso da chuva
& do ar


de olhos fechados
ao relâmpago
& coração aberto
à paixão
fotografei então
o beijo eterno
em que desmaio
pelo tempo
de um raio







dux femina facti

zarpa coração
segue viagem na voragem
inumana da imensidão

percorre a verticalidade selvagem
da paixão
navega sem tostão furado
em busca desse brilho
de ouro tão sonhado

zarpa coração
velames abertos
artérias-amarras
roldanas-pulmão

busca tua sorte milionária
escuna coronária livre de areias
deixa a âncora para os alfaques
& segue aqueles iates
repletos de sereias

arrisca teu sangue
no vórtice do naufrágio
onde a morte (por engano)
espera teu contágio

zarpa coração
hás de ser forte
conquista à bússola
a sorte do teu próprio norte




hebdômada vertical

estou com você caindo do céu
entre lagartos & gritos

para que não fiques aflita
ordeno a ditongos & canivetes
que preparem ramalhetes
de proparoxítonas

duendes & magos
na ortodoxa ortoépia dos mitos
ao meu sinal ábdito
recitam versos-delitos

estou com você caindo do céu
entre lagartos & gritos

o escuro assombroso
da nuvem abaixo
cobre a fantasmagórica
luz da cidade nobre

as casas pobres
tombam sobre os jardins ósseos
na escuridão triste
das lâmpadas despedaçadas

mas
cala tua mágoa
a enxurrada posta de pelo vento
reduz a distância até os girassóis
vamos velozes por entre os raios
que se engastam
à trombeta dos trovões

embaixo
suaves flores tóxicas
macios espelhoságua
telefones & capim-limão

somos o que vai entre a chuva
perfurando a ventania
em bilhões de orifícios diagonais

atravessaremos juntos
as vidraças do temporal
& solveremos o asfalto das recorrências
infiltrando múltiplas
& sutis incoerências

penetraremos os esgotos
& rasgaremos ávidos
os frios lençóis freáticos

desaguaremos no oceano
meu amor enigmático
& voltaremos como milhões
para este ar de terror & maravilhas

estou com você caindo do céu
entre lagartos & gritos






CANTO III
eknephías







temporalidade, sobrepoemas
& o topo na escala de beaufort

























alma & sizígia








de tempo sei apenas
que se trata de uma idéia
é nela que se fixam as manhãs
&
para grande proveito meu
as noites

é nessa idéia indefinida
que navega a vida

é nessa idéia vaga
onde a morte vaga
que os vagalumes vaporosos
do ontem
fazem crer na liquidez do amanhã

como se às tardes
todas as águas
fossem vivas



fuga de murghab

no vão
dos meus pensamentos erráticos
prefiro desenhar o tempo
não como o traçam os gramáticos
mas como se movem etéreos
os aéreos cabelos teus

quero aqui esboçar cogumelos
meus cogumelos temporais
psilocybes aéreos
feitos de alucinações verbais
minhas loucas paixões etílicas
na química dos vendavais

matizarei palavras em flor
para compor uma aromática
imagem do tempo

não será a representação do léxico
&
ainda que preferisse
a abstração do músico
estamparei no espaço da fala
um único holograma fonético:
a minha fotografia falada
do tempo!
com  ataúdes autófagos
bebês & sarcófagos
com discos
guitarras
crônons
macunaíma
raios
risos
cimitarras

direi também que não existo
poema além
da mágica imagética

tenho horror à dialética
em meu dessiso
encaro as mandíbulas
da fera apoplética

desistir? não desisto.

com as tintas-lâminas
da incerteza
& pincéis imantados
de física quântica
hei de expressar a temporalidade
& a eterna ânsia
de vencer com palavras
o monstro destruidor de coisas

engendro assim
o cavaleiro pária
urubu-rei das araucárias
asa ruidosa que projeta a noite
sobre a vaidosa tribo imortal

para prever o firmamento?
meteorologia atemporal
com arbustos esquecidos
& bicicletas roubadas aos amigos
romperei os grilhões
que ainda me impedem
os vôos acrobáticos
sobre os nimbos

corre em mim o fino prazer
dos desafios

serei contudo gentil
em recusar o que for fácil

nãonada a temer!

se é tempo de chuva
basta ouvir os cogumelos
se é tempo de estio
papagaios amarelos

sob o tempo
de friedmann
colher estrelas meninas
manhãs-maçãs
uvas-messalinas

psicotrópicos
& pégasos
de orvalho entrópico
sobre as crinas
elos
dialelos
& divinas musas
de seios belos

nãonada a temer!
(repetirei em verso tátil)

por amor a ti
empunharei o contratempo
minha afiada espada umbrátil

nãonada a temer!
nem morte
nem surpresa

toda essa aspereza
do momento
após momento
é uma noção sem sustento

de mãos dadas
minha linda
vamos nos lançar ao vento

nãonada a temer!
os relógios
não fazem tic-tac
os sinos não dobram
os demônios não tentam

nãonada a temer!
vamos meu amor atento
basta prender o ar

vamos de mãos dadas
nos lançar ao vento





diverbium


filamentos lunares
perfuram nuvens
carregadas de hipertextos

ora direis
ouvir estrelas

os casarões da ilha
resistem à gargalhada
atroz dos arranha-céus

salta clown!

o aguaceiro ainda lambe
as pedras de cantaria

&
do alto do parnaso
cérbero espia

como é fria
a carne descontextualizada
fina flor dessa agonia

boa noite sol
até um dia
quando eu acabar
com aquela garrafa vadia

(tubulações aéreas
vazam fluido anti-solar)

no ar
o sorriso misericordioso de irene
pende spleen & ideal
fusão sinóptica de idéias
em desnexo visual

antroponáutica
antropofagia
antro pária
:
é demiurgia
eletricidade paliativa
para a fadiga
da orgia

ora direis
ouvir estrelas

o azar é um dançarino

desvirgem
despalavra
desverbo
desfrase
desverso
desrima
a virgem
que encontrei

é crua a vida
alça de tripa & metal

atenta:
loucos são todos em suma

prostitutas de maldoror
ainda uma vez
adeus!

prostitutas de macondo
vou por onde
me levam meus próprios passos!

prostitutas de pasárgada
ora direis
ouvir estrelas...

toma um fósforo
& acende o teu cigarro


vêm
os vagalumes idiotas
os alcalóides à vontade
& as chuvas de quatro anos

ai de ti copacabana
pátria amada
salve
salve-se

se eu fizer poesia
com a tua miséria
sorte no jogo
azar no amor



cantata & fuga

um giro de saias
na órbita do corpo

o perfume que salta
a razão que desmaia

misandria sem perdão

uma caótica vazão
sem porquê
nem senão

era nuvem
noite alta

pela manhã
ilusão

ficou no olho árido
o desejo abduzido

ficou no copo seco
a sensação
de não ter bebido








o rádio

não sei se trago ou esqueço...
de que vale toda história?
entre dúvidas & glórias
não sei se calo
ou aconteço

entre lírios & canhões
tombam almas perdidas
sem ouvirem as canções
sem mar
sem par
sem vida

de tantas formas
disformes
sem nexo
sem nome
sem norte
sem noites
de fome & sexo

sofro delírios sonoros

nem mesmo sei o que faço
se aos complexos
prefiro poemas simplórios
não sei se luto
ou me desfaço

& os informes
do rádio
anunciam as horas

senhores!
senhoras!

todos ouviram
os gritos no pátio
os ruídos do rádio
no canto dos pássaros

ah! triste fonte de loucos...
o canto é tudo
&
é tão pouco

– ouçam! ouçam!
(bradava o rádio)

senhoras!
senhores...

eu não sei
o que faço

(são nove horas)




quando peixes na janela

principiarei por tudo dizer
primeiro a ti
amada dos sonhos
mulher que me ama
&
que me dessonha
nas manhas orgásticas da fronha 
& na mistura plásmica
dos entressonhos

falarei aos que têm
qualquer emoção
mesmo escondida
seja ódio mortal
ou amor suicida
desprezo total
ou carinho homicida
na natureza do mal
ou na paixão fratricida

direi
por inteiro
a quem me traduza
a quem haja
a quem baste
a quem saiba
a quem fuja
quem diga

ardem em meus desejos
não sei bem que ilusões
chamas saxofônicas
enlouquecidas
música brutal
de chuva límpida
fontes oceânicas de prazer
aos borbotões

nãonada a dizer!
(direi calando no verso
a vontade de mil sóis)
desconcertante & exato gesto
de mil eus a equilibrar-se
na linha cortante do horizonte

nãonada a dizer
nãoprincípio...

nãoninguém para ouvir
estrela de nêutron!
ninguém para ouvir dizer
tempestade de prótons!

nãonada

nem nuvem
nem sonho
nem mar
nem amada 

tempus edax rerum!

palavra.




carta ao poeta pastori

amigo
meu coração se apertou descompassado

estive triste colhendo ocasos

aquelas borboletas na janela
aprisionaram crisálidas sem tempo
& invadiu o meu sótão
uma miríade de ratos

meu coração apertado
tingido de paixões
bombeou aos vis pulmões
o sangue quente & nacarado

tornei-me refém de tubarões
no oceano do inimaginado

mas

antes que o último coqueiro
tombe sobre o último poema
caminharemos abraçados
de panaquatira à piatã

frustraremos automóveis dissonantes
incendiaremos bancas de revista
& mijaremos na fogueira
de todas as vaidades

estive triste colhendo ocasos

mas o acaso quis
que dentro do poema
houvesse ânimo
amizade & gasolina

era outubro ou nada

beijei minha baby vestal
& lancei mão
de minha escopeta de idéias

disparei inclemente
contra os demônios
que infeccionavam minhas manhãs
&
cheio de manhas
derrotei meus torpes algozes

foi bom
que ao menos em carta
tenhas vindo
és cantante
& é doce estar contigo

amigo
meu coração se apertou descompassado

mas os dias
nem sempre começam
tão bem quanto terminam









i drink jack daniel´s

Ninguém me diga: “vem por aqui”!
A minha vida é um vendaval que se soltou.
José Régio

sou menino

pequeno vendaval
de mãos pequenas
espiando todas as janelas

órfão de tudo
dileto enteado
do vento sul

estive aqui
estive ali
estive fora
estive em mim

vi muitas coxas & saias
vi raiva & vi navalhas
vi fornos
vi infernos & vi mortalhas

mas nãocomo conter
o turbilhão que se espalha

ser menino
traz desvantagens
ao espírito

nadaque me valha
se não crio desordem
minh’alma falha

eis minha mãe
guardiã de segredos
de terras distantes
de eras distantes
de um mundo distante
distante

assim
tenho todo tempo que preciso
(para criar rebuliço)

armado de verbenas
& magnólias
parto ao meio
a luz das cidades
(orgulho-me de ser perigoso)

posso prescindir
do riso & do choro
posso prescindir enfim
de quem me console

neste setembro de sizígia
& agulhas perfurantes
feitas de mágoa
i drink jack daniel´s

(estou fora de controle)





revés

úmida
a saudade
cáustica
abriu
translúcida
a vertiginosa
túnica
urdida de cristal
& gelo

última pétala
da paixão finda
de fiar-se única
fiou os cabelos
no inverno
& ainda
engendrou-se
lótus pútrida
no escuro lamaçal
do desespero

dragão de lágrimas
& papoulas
frieza pétrea
que voa

deixa que eu fuja
com minhas asas
de absinto & desmantelo
detém teu furor incerto
& teu flagelo
na boca
de teu incerto riso

teu céu arrizo
oculta
falsas lantejoulas
&
sólido granizo

ferida íntima
de tristeza estúpida
cicatriza ao álcool
que eu bebo à-toa

águia de cosméticos
& cifrões
foge à minha flecha
de veneno
& brio

que te espera
a guilhotina insana
do esquecimento
com todas as lâminas
para teu espírito de hydra

é o teu
&
não o meu sangue
que vazará
da clepsidra




































CANTO IV
Interlúdio





garoa probabilística
sobre o acaso reestruturado



























antes de se fazer boca
& palavra
antes de se fazer rocha
& lava
antes de se fazer porta
& aldrava
antes de se fazer
clava

singrar ventanias!

clavícula
& clavicórdio

bequadros enfrentando bemóis
melódicas acrobacias...



a cera das asas
derreter em poesia




a uma flor de vidro

de umidade & gramática
direi nuvem

cirrostratos
pela tua ausência

& pela saudade de tua beleza
direi halo de lua

direi com olhos úmidos:
cirrostratos!

cirrostratos
direi eu perdendo o jeito

afinal de que é feito
o gelo desse teu não?




canção de despertar
(para circe)




acorda leve
minha jóia pequenina

dedilha teus acordes
na harpa velha
da vida

ritmo à retina do mundo
som ao mar
& anima
ao céu profundo

faz brilhar
teu sorriso-luz
debaixo dos suaves
olhos negros

a manhã é larga

eis o teu abrigo
sob a minha capa


bárbara magia
menina minha
feita de alegria



é tua beleza rara
&
teu carisma-bruxo
que sustêm o dia

possa colorir teu sonho
o matiz da primazia

& elevar teu riso
doce fantasia

caixa de música
carinhos
dentes
lábios
cabelos

és o que és
única
melodia

uma pureza tácita
um amor que irradia

uma grandeza cósmica
uma certeza lógica
uma lindeza
bárbara



noturno estrelado
(para nyx)

aproveita a lua
minha luísa minha
perfuma os jasmins da vida
com tua beleza nítida

aproveita a lua
minha luísa musa

caminha sob as estrelas nuas
verbena feita de noites sem medo
abre as pétalas da tua lindeza-lâmpada
(de) clara luz & segredos

alegra o ar com teu brilho
guerreira-menina
& pousa
teu orvalho límpido
sobre a maquinaria tímida
do futuro em flor

aproveita a lua

cabelos
desde sempre
amor
desde sempre
beijos
boca
unhas
dentes...

lembras o calor
do primeiro abraço?

passeio no parque
frutas tropicais
palavras de algodão doce
sorrisos angelicais

aproveita a lua
minha luísa menina

aproveita
também o dia
que a vida
é tua
&
sem ti
não haverá nada

teu cheiro
ciclâmen
teu coração
&
teus olhos
macios
sempre estarão
sob a proteção
de todas
as espadas



abstração

gelo
é meu assunto
neste ártico dos tempos
meu assunto
neste antártico momento
meu assunto

grandes idéias
que não disjunto

: o cigarro fuma
: o copo bebe
: a fundura do pensamento
espuma

mas

neste instante
além do gelo
& do meu uísque
tudo é bruma

















CANTO V
um lance de dardos
(o quântico do cânticos)







radiações térmicas
& experimentos imaginados























bélica


1
há uma mina que explode
sob o asfalto da tarde gris
sem que ninguém a toque
rarefaz-se em cabelos etéreos
sustém-se em sapatos de giz

2
há uma textura de pedra
(nessa que explode)
centenas de ardis
um silêncio molhado
um perigo que medra
bombardeios sutis

3
em meio ao festim dessas balas
essa que explode
(sem que ninguém a toque)
oculta bombas-crisálidas
esconde borboletas-flor-de-lis

4
por trás do ar de donzela
posso adivinhá-la
felina branca
num jardim de opalas
seda clara
sobre o chão de pedras

5
eis que ela
(de tão rara)
engendra transfinita
uma canção
que me abala
&
num bailado
que me desespera
abre a blusa feminil
& dispara
química
metálica
biológica
mortífera
ferina pantera

exata
como um míssil
inverossímil
de tão bela





canção insone
sob a noite adormecida

acorda
insana querida
liberta os cabelos & sente
o obscuro azul dessa noite ardente

levanta & vem
febril
delicada
úmida
repentinamente

eis a vida que mana
linda & inclemente:
é maliciosa
como quem rouba
é ardilosa
como quem mente


salta
(ágil & bela)
sobre as desrazões
aritméticas
como uma fera
abandona o quadrilátero
hermético do sonho
vence os limites geométricos
desse paraíso medonho
vem sentir
o que a rua celebra
hino de novalis
luzes & ribaltas
discurso de klinger
&
de quebra
luas altas
sombras
músicas de flauta

passeia elegante
entre os acordes reticentes
respira o ar duro
dessas artérias quentes

ouve minha canção ensandecida
enredo vívido de farras vividas
samba-rock de asfalto & trevas

nãoquedas
sobre estas pedras de outros tempos
basta instilar
teu perfume nos ventos

vem incontinenti
vem silente
baila sob o zênite
com teus sapatos negros
de shopping center

entre o exit & o êxito
não hesite
enter



a bela que fere

1
faz
como o vento
que dança

traz
um balanço
de jazz
& balança
a anca voraz
de potranca

fugaz
calêndula
sob a trança
que ondula
o perfume
flutua
& me aperta
o
na garganta

2
veneno mordaz
que encanta

a um tempo
anima & desfaz
a esperança

veraz
o branco
sorriso
que brilha
& o lume
de espelhos
(seus olhos)
engenhos

aliás
armadilhas


3
veloz
ela passa

me deixa
sem pulso
sem paz
& me caça

me agita
me fere
me ganha
me engana
& disfarça

tão perto
do toque
no louro
dos pêlos
tão longe
do beijo
a seda
da pele
se afasta

4
feraz
ilusão
que ameaça
chasselás
que trama
& enlaça
porque me atas
à fome
agraz
& nefasta?

rainha
de copas
que ginga
dama
de espadas
que escapa
me deixa
à míngua
sem vinho
& sem graspa

5
me olha
feroz
me atiça
me ferve
destrói
minha taça

liquefaz
enfim
meu calor
minha verve
&
branda
(longe
de mim)
felina
feita
de neve
menina
brinca
na bruma
leve





solstício

hoje aposiopeses
anacolutos
gestos

discreto

(mais
silêncios
menos
versos)

acendo
meu cigarro
&
tranqüilo
cesso


­­­­­­­­­­­­­­­­­______________________________________________________________________


Notas




ab imo pectore — Expressão em Latim. Traduz-se por “do fundo do peito”.
crônons Plural de crônon, que na física de partículas elementares é o quantum elementar hipotético de tempo.
daguerreotipia  Antigo processo de obtenção de imagens fotográficas por ação do vapor de iodo sobre uma placa de prata sensibilizadora.
diverbium — Parte da antiga comédia latina caracterizada pela fala, em oposição a Canticum.
dux femina facti Famoso hemistíquio de Virgílio usado, inclusive, como brasão na nau capitânia da expedição francesa organizada pela regente Maria de Médicis, em 1612, para colonizar o Maranhão. Significa: “Uma mulher é o chefe da expedição
E brancoAlusão à “alquimia do verbo” de Rimbaud.
eknephías — Grego. Significa: “vento forte que sai duma nuvem”.
mar de kara Mar do Oceano Glacial Ártico.
mar de ross Mar do Oceano Glacial Antártico.
murghab — Pasárgada, cantada pelo poeta Manuel Bandeira como lugar mítico de felicidade, era, na antigüidade,  a residência dos reis da Pérsia. Hoje, em ruínas, é Murghab.
oceanus procellarum — Oceano das Tormentas”. Um dos mares da Lua. Latim.
psilocybes aéreosAlusão ao cogumelo Psilocybe mexicana, que possui propriedades alucinógenas.
spleen O mesmo que esplim. Enfado. Do Inglês spleen (sXIV sob a f. splen) ‘baço; órgão sede da melancolia’. Ver Spleen e Ideal, de Baudelaire.
tempus edax rerum — Pensamento de Ovídio (latim): “O tempo devora as coisas”.








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Um Poema ao Acaso

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